O cinema neorealista teve uma grande influência na produção fílmica do pós-guerra. As obras italianas, por exemplo, de Vittorio de Sica ou de Roberto Rossellini, são as mais famosas e bem sucedidas do gênero. Porém, o modelo neorealista teve um alcance muito mais global, influenciando um grande número de diretores. Esse é o caso de O craque, do argentino José Antonio Martínez Suárez. A obra, lançada em 1960, é uma reflexão crítica dos efeitos do futebol nas populações pobres do nosso vizinho. É uma denuncia feroz contra os efeitos alienantes do futebol, mas também da sua mercantilização e da profunda corrupção de dirigentes, jornalistas e até esportistas. Esta postura não deixa de ser um lugar-comum, um tópico que vez ou outra é retomado, da reflexão futebolística. Por isso, guarda certa ingenuidade simplificadora. Porém, o filme consegue se desdobrar além desse ponto, construindo uma argumentação mais fecunda, qual seja, do papel do futebol como um maquinário de expectativas e sonhos. Como não podia deixar de ser em um filme inspirado pelo neorealismo, os personagens são os moradores pobres da periferia de Buenos Aires. O protagonista é Osvaldo, um jogador muito talentoso da terceira divisão do campeonato local. Sua habilidade chama a atenção dos dirigentes de um grande clube envolvidos na negociação fraudulenta da principal estrela de seu time. Eles enxergam em Osvaldo a “peça de reposição” perfeita. A negociação representa a grande oportunidade da vida do jogador e dos personagens que giram a sua volta. É a oportunidade de dobrar a própria miséria, ascendendo para um universo mais nobre e vivo. Esta chance acaba capturando todas as expectativas e sonhos dos personagens: Osvaldo almeja uma bela carreira, cheia de lances espetaculares capazes de cativar as multidões; Já seu pai, um imigrante espanhol, acalenta o sonho de juntar suas economias e retornar à sua terra natal para comprar as terras que outrora foram de sua família; Da mesma maneira, sua namorada e amiga de infância, que não suporta mais viver no meio da pobreza dos cortiços, espera a oportunidade de mudar para o centro da cidade, longe daquele sofrimento todo. A pobreza só pode ser superada graças ao talento do jovem jogador. Porém, rapidamente lhe revelam a outra face do futebol. A beleza e a emoção do jogo são substituídas pelas negociatas sujas, pela corrupção, pela mentira. Todas essas artimanhas sufocam Osvaldo, que sente dolorosamente o fracasso de suas expectativas. Quando chega o dia da sua grande estréia, um acontecimento fatídico termina com todas as ilusões. É o caráter fugidio dos sonhos gestados entre as quatro linhas que o filme revela. Osvaldo, junto com suas expectativas, é apenas uma engrenagem descartável de todo maquinário de fantasia do futebol. Osvaldo representa muito bem o caráter descartável de uma espécie de proletariado do esporte, aqueles jogadores que nunca brilharão, nem alcançarão um salário espetacular, que nunca concretizarão as expectativas depositadas no jogo. Nesse sentido, apesar das muitas mudanças operadas no futebol, o filme não deixa de ter uma mensagem muito contemporânea. A situação de muitos jovens aspirantes a grandes jogadores é totalmente análoga à de Osvaldo. Não encontrei dados mais recentes, mas em 2002, por exemplo, 82% dos jogadores registrados na CBF ganhavam no máximo dois salários mínimos mensais. Lembro-me bem de ter assistido uma reportagem recentemente com dados muito similares. A situação, como deve ser evidente, é muito pior, pois imagine o número de jogadores amadores espalhados pelo Brasil que sequer estão registrados na CBF. Osvaldo é a grande metáfora do sonho de ascensão social e sucesso midiático que está no centro das expectativas gestadas em torno do universo futebolístico. A grande crueldade deste processo, porém, é perceber que pouquíssimos irão realizar o “lance de craque”, aquele lance único, capaz de gravar no real a força imaginativa de tantas expectativas. Assim, na contramão das representações mais fortes do futebol, como um dos espaços privilegiados de ascensão ou democracia social, na medida em que privilegia o talento e a dedicação individual, o filme tenta discutir os efeitos de subjetivação que resultam desses discursos. A produção incessante de expectativas e sonhos não é um efeito secundário do maquinário futebolístico. Lançar um olhar para este aspecto é, certamente, o grande mérito do filme de Martínez Suarez.

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