O Deserto dos Tártaros de Valerio Zurlini

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O Deserto dos Tártaros é o último filme do diretor italiano Valerio Zurlini, uma adaptação do livro homônimo de Dino Buzzati. Conta a história de Drogo, um jovem oficial que recebe sua primeira designação no exército de um império indeterminado. Sua missão é seguir até a fronteira para defender a fortaleza de Bastiano, último posto de defesa contra uma possível invasão inimiga. No entanto, Bastiano é cercada por um imenso deserto, totalmente morto e sem nenhuma importância. No passado, como relatam os oficiais mais antigos, a região foi devastada pelos tártaros, mas desde então ninguém se aventurou a cruzar o deserto. A Fortaleza de Bastiano é, assim, uma posição sem nenhuma importância, onde nada acontece, onde a vida se transforma na pura fantasmagoria do tempo morto. Os homens que a protegem vivem apenas na expectativa de um evento singular, um evento capaz de restabelecer a ação, o sentido, a própria vida na existência de todos: a nova invasão dos tártaros. Drogo, a princípio, se sente completamente aprisionado em Bastiano, uma vida suspensa pela inação que representa seu posto. Deseja apenas conseguir sua remoção com a maior brevidade possível, abandonar aquela terra morta. Esse sentimento de impotência, de ausência de ação, é reforçado pela rígida execução das normas militares, das hierarquias, dos exercícios sem propósitos, das regras sem nenhum sentido. Todos vivem numa absurda realidade de códigos e condutas que não realizam nada. A potência da ação é totalmente esvaziada na irrealidade de uma expectativa que nunca se realiza. A esperança é o motor da existência de todos. Drogo, no auge da sua juventude, cheio de potencialidades, é a nota dissonante na imobilidade do forte. Porém, com o tempo, o sentimento de expectativa e esperança também lhe contagia. Sua curta estadia acaba se prolongando, prolongando indefinidamente. Drogo começa a esperar junto com seus colegas. E nessa espera vai lentamente esvaindo sua vitalidade, sua potência de ação, se tornando lentamente um ser fantasmagórico, que vive apenas no mundo irreal de sua esperança. O filme de Zurlini trata disso: da maneira como a esperança converte toda a potência da ação em um desejo imóvel e paralisante. Como lembra André Comte-Sponville, a esperança é um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder. A espera de Drogo esvazia todas suas possibilidades, suas forças, seu corpo jovem, que vai lentamente se degradando, envelhecendo, adoecendo. A esperança surge em compasso com a morte, pois, assim como ela, opera essa conversão da ação em imobilismo. Com isso, a renuncia da esperança, o desespero, surge como um caminho capaz de potencializar a ação transformadora, que desestrutura os códigos normativos vazios e imobilizantes, como uma opção contra a fantasmagoria da vida em espera, em suspensão.

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2 Comments to “O Deserto dos Tártaros de Valerio Zurlini”

  1. Anonymous disse:

    Excelente, filme e livro, cada vez mais atual, retratando uma realidade em desintonia com a multidão de hoje e a solidão de ontem. Ricardo Zamorano

  2. Leandro disse:

    É verdade. O filme é muito bacana e muito atual, vale assistir. Obrigado pelo comentário, volte sempre. Um grande abraço

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