O Discurso do Rei de Tom Hooper

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O Discurso do Rei permite uma série de reflexões sobre a soberania na modernidade. Apesar de ser um filme muito pautado pelo modelo de histórias de superação, o tema da obra me interessa bastante. O filme narra o esforço de George VI para superar sua gagueira e encontrar uma maneira de falar e discursar publicamente. A posição ocupada pelo protagonista – apesar de ser o segundo na linha sucessória, acaba se tornando rei da Inglaterra – lhe obriga a exercer continuamente uma espécie de fala pública, um discurso do poder capaz de reforçar a autoridade do governo, coisa especialmente importante quando temos em conta que a trama se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. O grande infortúnio de George VI é viver num momento histórico em que se operava uma verdadeira mutação no conjunto de dispositivos simbólicos que sustentava o exercício da soberania.

Pode-se dizer, em linhas muito gerais, que a mediação entre o soberano e seus súditos, durante a era clássica, funcionava a partir de um princípio imagético. As imagens régias (nos mais variados suportes) materializavam a própria soberania, legitimando e sustentando os micropoderes que penetravam no tecido social. Por isso, os enviados e funcionários locais, para governar, precisavam sempre fazer uso dessas imagens de soberania. Dessa forma, ainda que grande parte dos súditos nunca tenha estado diante da corporeidade do monarca, sua presença era sempre sentida, em toda parte. Nada é mais revelador dessa representação do que as relações entre o monarca e seus súditos ultramarinos. Mesmo sem nunca estar fisicamente presente (durante toda era clássica apenas um monarca, de fato, esteve em terras ultramarinas), todo sistema de governo estava assentado na figura do monarca, que enviava continuamente suas imagens.

Na realidade, até mesmo a corporeidade do monarca não passava de mais um elemento de representação que sinalizava para uma entidade transcendente, a própria monarquia. Era nessa entidade que repousava o princípio de soberania. A figura particular do rei era apenas um elemento transitório, a única coisa que permanecia era a legitimidade para o exercício do poder. É isso que explica aquele lema bastante famoso, O rei está morto. Longa vida ao Rei! O regime de visibilidade começava nessa corporeidade, criando um efeito de cascata que se transmitia aos mais diferentes signos. Porém, o que atribuía sentido e colocava o sistema em funcionamento não era a personalidade do rei, mas um princípio transcendente, a soberania [1].

Esse equilibro funcionou muito bem até a modernidade, quando passou por diversas modificações. Entre outras inovações, uma que merece destaque é a reprodução técnica do regime de signos que sustentava o exercício da soberania. Com efeito, torna-se possível uma multiplicação desses elementos, além da introdução de algo completamente novo: a possibilidade de escutar o soberano, mesmo a distância. A voz do monarca, durante toda era clássica, não se fazia sentir, pouquíssimos eram aqueles que realmente escutariam a fala de um rei ou governante. Com o rádio, e posteriormente o cinema, a fala se torna um elemento constituinte do soberano.

O problema é que isto introduz um elemento novo: a fala é a mais pura expressão da subjetividade, logo quando o soberano começa a falar, o que vai sustentar seu poder é a sua própria existência enquanto indivíduo particular. Por isso, a transcendência da soberania acaba se dissolvendo na corporeidade daquele que exerce o poder. É como se dois movimentos se cruzassem, de um lado a possibilidade do soberano multiplicar incrivelmente sua presença; de outro, mais e mais é a própria pessoa do soberano que legitima e sustenta o governo. Esse processo duplo está na origem da política de massas, muito mais assentada na força da personalidade do que numa legitimação externa e anterior.

O dilema de George VI é justamente se adequar a este novo momento da soberania. Ele percebe com nitidez que não é mais o depositário de um princípio (a coroa inglesa) que lhe garanta autoridade e poder. Agora é necessário um ato performativo, uma manifestação de si próprio. É sua fala que vai tornar factível o exercício de seu poder. Há uma cena em especial, na qual fica muito claro a percepção desse novo momento. George VI assiste um desses cine-documentários sobre o governo nazista e observa com admiração a eloqüência de Hitler. Mesmo sem compreender uma palavra sequer, ele não deixa de notar como a eficácia daquelas palavras sustenta a força do regime.

O problema é que George não encontra a mesma habilidade, mais do que isso, ele é incapaz de falar publicamente. Por isso, ele precisa enfrentar um percurso de transformação de si próprio, o que lhe falta para assegurar sua autoridade não é um aprendizado político, mas um ato terapêutico sobre sua personalidade ferida. Nesse caso, vale mencionar que durante a era clássica não existia uma terapêutica para a personalidade do príncipe. O que havia, e isso sim era muito abundante, era um conjunto de reflexões sobre as artes de governar, sobre as virtudes que deveriam orientar a ação do príncipe. George VI não precisa de nada disso, mas sim operar uma espécie de inspeção interior, na qual ele vai encontrar o caminho para superar o trauma que barra sua fala.

Nesse sentido, é importante lembrar algumas palavras de Foucault, quando ele analisou a terapêutica de outro rei inglês, Jorge III (figura que é mencionada no filme). Como o filósofo nos explica, a terapêutica é uma cerimônia de destituição, uma espécie de sagração ao revés, na qual “todo o aparelho da realeza se desvanece”. Não importa muito se a terapêutica de George não é feita por um especialista [2] (um psiquiatra ou um psicanalista), mas sim que na modernidade o que aparece no centro da experiência da soberania é um dispositivo psi, no qual é a personalidade do governante que carrega a legitimidade do poder. E a palavra, ato performativo central, finalmente se manifesta como pilar último para o comando e o poder. Não é gratuito que a superação de George VI, a conquista da fala pública, seja o ponto de partida do maior maquinário de guerra já visto no ocidente. Seu sucesso íntimo significa o início da Segunda Guerra Mundial.

 

 

[1] Não dá pra esquecer o dispositivo que Hobbes utiliza para justificar o poder do soberano. Ele aparece como uma pessoa fictícia, um personagem criado pela multidão, no sentido de autoria, a multidão é autora desse personagem, por isso lhe é legitimo exercer livremente sua soberania. Afinal, um personagem nunca poderia ir contra a vontade de seus autores. Essa teoria da representação está no centro do pacto social como imaginado por Hobbes.

 

[2] Não cabe explorar em detalhes, mas como nos explica muito Levi-Strauss, a terapêutica não é tanto uma questão de domínio técnico, mas do compartilhamento de crenças comuns. A crença daquele que cura, daquele que será curado e da comunidade que acredita na possibilidade da cura. É isso que ele chama de eficácia simbólica. Ainda que o terapeuta de George VI não tenha domínio de qualquer tipo de saber organizado (não é nem psiquiatra, nem psicólogo, psicanalista ou médico da voz), ele é capaz de mobilizar o discurso psi para operar a cura. E é disso que aparece sua eficácia.

 

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8 Comments to “O Discurso do Rei de Tom Hooper”

  1. Quando você diz (a luz de Foucault): a terapêutica é uma cerimônia de destituição, uma espécie de sagração ao revés, na qual “todo o aparelho da realeza se desvanece”.

    Esse é um trecho que traduz bem a empáfia, soberba e petulância que circundam a “nobreza”. É como se fossem tão superiores, tão divinos que não precisassem da “ajuda terapêutica”. E no filme, o fato do terapeuta não ser detentor de um “título” causa um preconceito maior, uma rejeição maior.

    Para mim, a mensagem mais forte do filme foi a de que pessoas “nobres” e detentoras de “títulos sociais”, teriam que conviver com esse estigma, essa identidade social, sacrificando sentimentos, convivendo com a frieza e distanciamento – tanto com relação à sociedade quanto às suas próprias famílias. Seria uma espécie de ônus, pelo bônus de ser “nobre”. E baseando-se em tais preceitos, arcar com o fardo de traumas e sacrifícios pessoais.

    Excelente a atuação de Colin Firth.

    Filme muito bom! Não sei se merecedor do Oscar de melhor filme.

    Entre Cisne Negro e esse, fico com Cisne Negro.

    Preciso assistir aos outros ;)

    • Leandro disse:

      Olá Nirsan, realmente o que definia a nobreza era uma forma de distinção, um regime de visibilidade que facilmente poderia marcar a diferença entre os nobres e os não-nobres. Por isso, a modernidade é um momento importante de transformação dessa forma de hierarquia. A nobreza passa por um processo de desacralização, o que pode ser muito doloroso do ponto de vista da autorepresentação desse grupo social. O próprio rei sente isso. Existe uma espécie de democratização do dispositivo psi, no qual o nobre e o não-nobre precisam passar por processos semelhantes de terapia.

      A atuação de Colin Firth realmente é esplêndida. Só não sei qual dos dois filmes gostei mais. No fundo, nenhum dos dois me empolgou tanto.

      Um abraço e volte sempre.

      Leandro

  2. Leandro,

    O artigo abre perspectivas muito interessantes, quando você relaciona o poder e a fala, entre outros tópicos.
    Senti falta de uma análise da linguagem, como você tem feito mais em outros artigos sobre cinema. Parece-me que a linguagem, aqui, ficou um pouco transparente, a fim de tratar da soberania.
    No entanto, as intuições e conexões são muito boas.
    Não utilizaria duas palavras que aparecem no artigo: “micropoderes” e “multidão”. Acho que não cabem – a não ser que você dê uma conotação não-foucaultiana para a primeira e contrária ao uso que Negri faz do conceito, para a segunda. Nesse último caso, não caberia falar de massas?
    Um grande abraço

    • Leandro disse:

      Olá Luiz. Obrigado pelo comentário e pelas observações precisas que fez ao texto. Eu não sei se entendi o que você disse sobre a linguagem. Você se refere aos aspectos propriamente cinematográficos (a linguagem cinematográfica)? Se for isso, realmente acabei descuidando um pouco esse aspecto. Achei que o filme exagera demais na fórmula de superação bem tradicional, e acabei não refletindo sobre o tema. Agora se não era exatamente isso, ficaria agradecido se pudesse esclarecer minha dúvida. Quanto aos “micropoderes”, pensei bastante se esse era o termo mais adequado, talvez tenha criado algumas ambiguidades que precisariam ser melhor resolvidas. De fato, não o uso na acepção foucaultiana, me referia mais aos aspectos da governança local que garantiam o exercício do governo durante a era clássica. Os funcionários régios agiam em nome do rei, mas num sentido muito diferente das modernas burocracias. Eram micropoderes nesse sentido, fragmentados, desconexos. Em relação ao termo multidão, já acho que faz sentido sim com as reflexões de Negri. A multidão é sempre constituinte e mesmo no momento em que o pacto hobbesiano é feito, legitimando um governo que busca uma transcendência, é na multidão que esse pacto é criado. O que se passa, talvez, é que a multidão, na perspectiva hobbesiana, se transforma em massa (ou melhor, em súditos) no momento em que se realiza o pacto. É uma tentativa de limitação e controle da multidão. Enfim, algo que poderia explorar melhor em outro momento. Novamente, agradeço muito seus comentários. É sempre muito bom discutir e problematizar o que escrevemos. Um abraço. Leandro

  3. Leandro,

    Sim. E se entendi bem, o filme oferece pouco sobre a linguagem cinematográfica – grande produção comercial etc. E você realmente cuidou de discutir a temática.

    Como eu ainda não vi o filme, fiquei esperando os comentários seus e de outros que acompanho… Suas anotações sempre apresentam perspectivas interessantes, problematizadoras, além de fazer conexões com outras áreas (filosofia por ex.). Então, queria algo sobre a linguagem do cinema… Mas imagino que não passe muito do óbvio e do clássico, quer dizer, do que dá certo como produto.

    Entendi também sua referência aos “micropoderes”. Acho que fui um pouco longe, ao ter como horizonte a “micropolítica” e a “microfísica do poder”. Mesmo assim, parece-me que o emprego do termo está apontando para o que o texto apresenta: um universo de pequenos poderes desconexos, como disse. Bom, posso acrescentar pouco, por hora, a isso. Teria que estudar mais. Porém, o texto está claro.

    Quanto ao conceito de “multidão”, o meu apreço se deve ao fato mesmo de que ela apresenta um corte conceitual em relação ao de “massa”. Mas, ainda, necessito olhar isso melhor. Pois a multidão não seria da ordem da confusão e da balbúrdia, segundo Negri.

    Tudo isso, obviamente, para continuar estudando e investigando. E uma das formas é dialogar com textos como o seu.

    A recognição, como diz Deleuze, não nos força a pensar. Então, não se trata de ver a aplicação de termos, e sim de continuar perguntando. Ou talvez, o que desejamos quando escrevemos.

    Abraços

    • Leandro disse:

      Luiz, é exatamente por isso que os comentários são importantes, para nos forçar a continuar pensando. Nesse sentido, os seus são especialmente bons, pois sempre coloca questões importantes. Só vou comentar brevemente a coisa da multidão. De fato, para Negri/Hardt existe uma diferença fundamental entre multidão e massa, povo, classe ou similares. E o grande desafio da filosofia política é pensar a partir dessa nova categoria. Acho que poderíamos entender a obra de Hobbes justamente como um discurso que tenta capturar e reduzir a potência da multidão numa forma mais amistosa, digamos assim. Enxergar a multidão como massa é fundamental para isso, na medida em que lhe retira o caráter constitutivo que ela carrega consigo. A massa é aquilo que precisa de proteção do soberano para poder existir. Acho que é mais ou menos isso. Mas é uma questão a ser aprofundada. Um abraço e novamente obrigado pelo comentário.

  4. renato alves disse:

    Seu texto é perfeito. Profundo e muito verdadeiro.

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