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O estranho caso de Angélica é uma bela fábula sobre a morte. Na trama, Isaac é um fotógrafo judeu que vive numa pequena pensão no interior de Portugal. Seu interesse é registrar o cotidiano do trabalho nas quintas produtoras de uva. Só que ele não está interessado nas máquinas e nas inovações produtivas, somente no trabalho arcaico, feito “à moda antiga”. Dessa forma, suas fotos registram um mundo que está morrendo, um mundo meio brutal e feio, mas que guarda uma espécie de beleza incompreendida, com seus homens rústicos que empenham suas ferramentas pesadas, num trabalho cansativo, animado por suas canções e velhos hábitos. Essas fotografias não agradam os demais frequentadores da pensão, para que registrar imagens de um mundo moribundo, quase fantasmagórico? Já para Isaac estas fotos não são desprovidas de importância, na realidade ele busca nelas uma forma de superar uma intensa crise emocional. Esta busca, entretanto, é interrompida por um acontecimento insólito. Ele é chamado no meio da noite para fotografar a pobre Angélica. A moça, dona de uma beleza desmedida, faleceu e a família deseja guardar uma última imagem dela. Para isso, eles pedem ao fotógrafo que registre o rosto sereno da moça, buscando recuperar e preservar uma beleza que parte do mundo. Porém, uma coisa fantástica acontece, quando Isaac preparava o foco de sua câmera, a moça morta lhe sorriu. Incapaz de entender o que fora aquilo, mas contagiado pelo encanto daquele sorriso, Isaac começa a viver numa espécie de transe, cada vez mais obsessivo diante da figura de Angélica. O rapaz se isola do mundo dos vivos: não se alimenta, pouco dorme ou descansa, vive atormentado por suas ideias e seus sonhos, e especialmente pelas imagens dos seus fantasmas. A anulação de Isaac é contraposta a vivacidade dos demais frequentadores da pensão, que debatem animadamente sobre a crise econômica ou sobre o aquecimento global. Isso não importa mais para o fotógrafo, ele sente um profundo deslocamento, uma existência cindida, como se não pertencesse mais àquele mundo. Diante dessa existência atormentada e dividida, Isaac busca uma experiência capaz de lhe garantir alguma sensação de totalidade e sentido. E quem lhe trará essa experiência é o fantasma de Angélica, que lhe visita durantes as noites. É como se a beleza, e apenas a intensa beleza da moça, fosse capaz de restaurar a integridade de um homem que não se encaixa mais no mundo. A presença de Angélica é capaz de lhe garantir aquilo que ele buscava (e não alcançará) nas imagens dos camponeses: um sentido fora do mundo, fora do tempo. Esse sentimento extramundano é retratado na cena mais bonita do filme: quando o fantasma de Angélica busca Isaac e os dois seguem numa viagem espiritual pelos campos de Portugal. A cena remete diretamente ao cinema silencioso, utilizando uma técnica que imita aqueles efeitos especiais simples e engenhosos dos primeiros filmes de Meliès, transformando os dois em fantasmas dos primórdios do cinema. A cena é muito intensa e poética, e só ela valeria o filme inteiro. É como se no momento de crise e na falta de sentido, o caminho fosse retornar ao princípio, recomeçar. A beleza de Angélica é o caminho de Isaac para retornar ao princípio, de recuperar o sentido de si próprio. Dessa forma, Manoel de Oliveira traça uma reflexão sobre a morte que não é marcada nem pelo sofrimento, nem pela tristeza. Mas como uma possibilidade de recomeço, de retorno aquilo que já passou, um retorno que possibilita a recuperação das belezas que já não persistem mais no mundo. Num presente desprovido de suas belezas, é apenas na fantasmagoria do passado que Isaac encontra algum sentido. Isso nos remete para a proposta original do filme de Manoel de Oliveira. Seu projeto original era uma reflexão sobre o holocausto, que deveria ter sido produzida logo após a Segunda Guerra. Entretanto, o governo português não permitiu a realização do filme. Isaac seria, assim, um homem que vivenciou o horror e agora tomou consciência do vazio do mundo. A morte não é nada mais do que uma forma de (re)introduzir o sentido que fora destroçado. Por isso, é interessante perceber como o filme tem uma grande atualidade, e o próprio diretor fala sobre isso: Pensei em fazer este filme logo a seguir à II Guerra Mundial. Hitler tinha morto seis milhões de Judeus e eles estavam a ir para Portugal e para os Estados Unidos. Agora é a mesma coisa, mas com os muçulmanos. Na vacuidade do contemporâneo, há sempre a possibilidade de recusa, de recomeço, através da potência do belo e de suas imagens.

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