O Fantasma dos livros não-lidos

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Meu quarto é cheio de pilhas de livros. Não tenho espaço pra guardá-los da forma adequado, então vou empilhando como dá, e depois que meus armários ficaram cheios, fui obrigado a mantê-los permanentemente pelo chão. Felizmente, quando mantenho uma ordem mínima, ainda é possível andar pelo quarto. Bem, entre essas pilhas existe uma que me vive me assombrando, a pilha imaginária dos livros lidos pela metade. Imaginária porque, obviamente, não sou meticuloso o bastante para separá-los assim. Mas eu sei bem onde eles estão. Aqueles romances que comecei a ler e nunca terminei. Claro, porque são apenas os romances que nos assombram quando não os terminamos. Todo mundo sabe que livros acadêmicos, teses, artigos, essas coisas mundanas, não foram feitos para serem lidos inteiros, não é nenhum tipo de ofensa deixar uma tese pela metade. Mas romances, esses sim, foram feitos para serem lidos. Começar algo e não terminar é quase um pecado. Claro, há aqueles casos que logo se nota que não vale o esforço, livro sem importância, sem interesse, sem valor estético ou afetivo. Não são esses que me refiro aqui. Os Livros que assombram são aqueles que dizem alguma coisa, que valem o esforço, mas mesmo assim ficam pela metade. Em geral, são aqueles que terminam numa leitura rápida, aqueles mais duros, de digestão lenta. Aquele tipo de livro que é estranho a um mundo frenético como o nosso. Lembro alguns que foram ficando assim: O Idiota, O caminho de Swann, Viagem ao fim da noite, Cem anos de Solidão, Sursis, Ilusões Perdidas, Sobre heróis e tumbas. Todos começados, lidos com interesse, mas que foram esquecidos, por algum motivo inexplicável, na pilha de livros. Agora, aguardam o dia da retomada, sempre ligado ao difícil dilema: continuar de onde parei? Recomeçar tudo novamente? Esses livros não lidos são como projetos abortados, algo muito próprio de um ababelado. Por isso me assombram…
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4 Comments to “O Fantasma dos livros não-lidos”

  1. Kovacs disse:

    Leandro, obrigado pela visita ao meu mundo. Muitas vezes é difícil terminar um romance. No momento estou lendo o terceiro volume de Guerra e Paz e até que não estou achando tão cansativo assim. Os romances de Virginia Woolf foram certamente muito mais difíceis de terminar. Estou retribuindo seu link e voltarei por aqui com mais calma.

  2. Leandro disse:

    Olá Kovacs, agradeço a visita e o comentário. Espero que goste dos textos e do blog.

  3. ALEPH DAVIS disse:

    Evoé, Leandro!

    O blog tem estado muito interessante ultimamente, passo sempre para conferir; agora incluí um link para ele lá na minha página. Agora cuide de retribuir o link e as visitas, por favor, héin…

    Quanto ao lance dos livros pela metade, tenho uma tese, não um livro que é uma tese lida pela metade, você me entende; romances sobretudo, mas também volumes de contos, crônicas e poemas, deixados por terminar. Acho que são um indício de que, naquele momento em que os abandonamos, nossas vidas é que demandavam mais atenção, ao passo que optamos por interromper uma leitura para não deixar pela metade vivências e experiências reais. Curiosamente, eu mesmo deixei muito pouco de ler para viver, não tendo muitos débitos para com a literatura; não por ter lido mais do que vivi, mas por ter vivido muito através do que li. E escrever, então… renderia análises para todo um outro comentário. To be continued.

    Abreijos textuais
    A.D.

  4. Leandro disse:

    Olá Davis, muito obrigado pelos elogios. Pode ficar tranquilo que eu sempre visito seu blog. Vou colocar um link no meu blog também.

    Gostei das suas reflexões, concordo bastante com você. Ficarei aguardando a continuação.

    Um grande abraço.

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