Existe uma espécie de descontinuidade, ou ao menos de inversão, entre o novo filme dos irmãos Dardenne e suas obras anteriores. Nesse caso, a ruptura não é provocada pela introdução de nenhuma novidade estética considerável, afinal o filme repete a maneira de filmar já consagrada pelos diretores, mas sim pela modificação do próprio universo narrativo dos belgas. Uma das preocupações centrais dos filmes anteriores, do meu ponto de vista, era uma espécie de falência da sociabilidade contemporânea. Seus personagens viviam desconectados ou isolados, presenciando diretamente uma situação de exceção e ameaça. Ainda que esse tema seja recuperado nesse novo trabalho, há uma diferença importante: a introdução de um dispositivo capaz de reconectar as existências individuais. E curiosamente, este vínculo aparece naquilo que pareceria mais improvável, a recuperação de uma noção muito cristã de perdão. A trama gira em torno de Cyril, um garoto que vive num orfanato e busca desesperadamente reencontrar o pai que o abandonou lá. Nesse caso, ele parece o típico personagem do universo dardenniano. Porém, o garoto carrega uma energia toda particular. Ele luta desesperadamente para recuperar o laço paterno que perdeu. Este laço é representado pela bicicleta perdida. Esta foi um presente do pai e aparece para Cyril como o único elemento capaz de aproximá-lo do homem que o abandonou. A parte inicial do filme acompanha a luta desesperada do garoto em busca dessa bicicleta. É nessa busca que ele encontra Samantha, uma cabeleireira que se sensibiliza imediatamente com a dor do garoto. Num gesto de pura graciosidade, ela recupera a bicicleta, que fora penhora pelo pai, e a restitui ao garoto. A recuperação da bicicleta funciona como um compromisso, um dom que inicia a construção de um espaço de reciprocidade entre os dois. No início, o garoto recusa esse compromisso. O novo vínculo provocaria a desconexão final com a figura paterna que ele tanto anseia. Por isso, apesar de todo esforço de Samantha, ele só consegue responder com ofensas e agressões. Ela, porém, sabe que a reciprocidade exige o exercício constante do perdão, numa aceitação irrestrita do outro, sem importar o que ele faz ou deixa de fazer. A resistência de Cyril é contrastada com a passividade de Samantha. Ela é aquela que oferece a outra face diante da agressão. Nesse caso, ela funciona como a mais pura antinomia do próprio pai de Cyril. Este é alguém incapaz de perdoar, de aceitar. O outro, no caso o próprio garoto, é tratando sempre como uma ameaça ou fardo. Por isso, ele prefere se afastar definitivamente. O desenvolvimento da trama funciona numa espécie de transição dessa lógica da violência (e da exceção) para a lógica do perdão e da reciprocidade, da aceitação e da vinculação. Essa passagem se manifesta nos comportamento de Cyril. É como se ele insistisse na busca do laço paterno, tentando reproduzir a própria violência desse laço. Essa tensão chega ao seu ponto máximo no momento em que o garoto se envolve com a gangue do bairro. O líder do bando se torna a atualização da figura paterna para Cyril. E novamente, a violência é o elemento que estrutura a relação dos dois. O desejo de submissão é forte e o garoto aceita qualquer coisa para proteger esse novo laço paterno. No entanto, o gesto caridoso de Samantha, novamente, acaba prevalecendo. O laço paterno se desfaz, o que possibilita a constituição de um vínculo efetivo entre Cyril e a moça. Um vínculo que é fundamentado pelo perdão derradeiro, ela simplesmente aceita o erro do garoto, não o pune e nem o ameaça. Ela o acolhe, de forma irrestrita. Existe uma forte aposta nesse gesto, o perdão como a única potência capaz de aproximar os indivíduos, capaz mesmo de ultrapassar o estado de exceção no qual a vida ordinariamente está imersa. E a cena final é uma espécie de profissão de fé nessa possibilidade, quando o próprio garoto reconhece a necessidade do perdão como a única saída do universo da violência. Essa opção acaba abrindo um novo caminho para o cinema dos Dardenne, lançando luzes num universo que sempre foi bastante sombrio. Essa abertura pode trazer um novo caminho à uma produção que se fechava na ameaça da mera reprodução de temas e fórmulas já utilizados. Porém, há também o risco desse caminho se dirigir na direção de teologia política ainda mais sufocante. Resta aguardar os próximos trabalhos e refletir sobre seus caminhos.

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2 Comments to “O garoto da bicicleta de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne”

  1. Acho que ao fazer um filme mais solar, mais brando que os demais (ou que pelo menos aponta para possibilidades positivas), os Dardenne acrescentam algo a sua filmografia, sem deixar de ser fiel a ela, como você bem colocou. Os irmãos belgas estavam caminhando para a mesma armadilha que acometem muitos bons e seguros cineastas: a repetição de suas próprias fórmulas. Assim, por mais que esse O Garoto de Bicicleta não seja dos melhores filmes dos cineastas, pelo menos não é mais do mesmo. E isso já está de bom tamanho.

    • Leandro disse:

      Concordo com você! O filme é muito bem sucedido nesse avanço. Além de produzir uma história muito bonita. Agora quero ver o que sucederá este filme. Um abraço.

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