O homem ao lado de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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Em O homem ao lado, dos diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, encontramos uma reflexão muito interessante sobre a arquitetura da sociabilidade moderna. Arquitetura aqui não é apenas uma metáfora, já que o que está no centro da trama é a própria essência daquilo que ficou conhecido como arquitetura moderna, as construções de Le Corbusier.

O protagonista do filme é Leonardo, um design de grande sucesso, que reside na única casa modernista da América Latina construída pelo arquiteto franco-suíço. A casa, desprovida de adornos exagerados, fora pensada como a materialização de uma vontade de racionalização da vida, na qual o pensamento ordenado prevaleceria sobre o mundo, modificando-o, ao ponto de conseguir elaborar uma nova forma de sociabilidade humana. No essencial, é isto que está na raiz da arquitetura moderna, tão celebrada por um filósofo como Habermas, uma forte crença na possibilidade de reconstruir o mundo a partir da sua racionalização. A arquitetura do espaço se confunde com a arquitetura da vida. Não por acaso, da casa moderna para a cidade moderna, foi um passo.

Leonardo parece se enxergar como um guardião desse espírito, no seu mundo nada pode estar fora do lugar. E o que movimenta a trama do filme é justamente a possibilidade de falência dessa racionalidade com o ingresso de um elemento não previsível: a presença de um novo vizinho. Victor, o vizinho recém-chegado, decide instalar uma nova janela em sua casa. Uma janela que abriria um rombo numa parede diretamente frontal a um dos cômodos da casa de Leonardo.

A presença daquela janela é vista por Leonardo, mas também e principalmente por sua esposa, como uma espécie de intrusão na sagrada ordem do domicílio. Diante de tamanha ameaça, o designer reage impetuosamente. Começa solicitando educadamente o fim da janela. O fracasso da polidez é substituído por medidas cada vez mais energéticas. O problema é que enquanto as discussões em torno da janela crescem, Victor vai adentrando cada vez com mais força no interior da vida de Leonardo. E quanto ele mais se aproxima, mais Leonardo se exaspera.

Rapidamente o espectador ganha consciência de uma profunda contradição na figura do designer. Toda a configuração aberta da casa moderna – pensada para garantir uma espécie de transfiguração das possibilidades de circulação, sendo por isso uma espécie de abertura pro mundo (uma abertura que possibilitaria a reordenação do próprio mundo) – é contrastada por um indivíduo cada vez mais fechado sobre si próprio. Leonardo não deseja nenhuma comunicação com o mundo, preferindo viver numa espécie de mônada impenetrável.

E não é apenas seu vizinho que precisa ser posto pra fora, mas todo tipo de intrusão, de alteridade. O relacionamento frio de Leonardo com sua esposa, mas também com sua filha, demonstra como dentro daquela casa não resta espaço para nenhum tipo de sociabilidade. Tudo que é estranho precisa permanecer afastado do espaço sagrado de Leonardo. O protagonista, portanto, encarna uma espécie de radicalização completa daquele ideal moderno, exatamente na medida em que leva ao limite extremo a vontade racionalizante que o sustentava. Na impossibilidade de reordenar o mundo de acordo com um projeto racional, resta apenas a recusa do mundo, internalizando uma ordem que não pode se sustentar do lado de fora.

O jeito estabanado e canastrão de Victor, que ora parece um machão ameaçado, ora um sujeito simples e carente, é a suprema ameaça desse mundo fechado em si mesmo. Diante dessa ameaça, a vontade de Leonardo é muito simples, encontrar uma maneira violenta de expulsá-lo. Mas sua incapacidade de interação é tão intensa que ele não pode nem mesmo executar seu impulso destrutivo. É apenas uma ironia do destino, uma violência praticada por outrem, que possibilita a satisfação desse impulso. Leonardo se mantém fechado em si mesmo até o fim. E a morte do vizinho importuno garante o sucesso e a continuidade dessa racionalidade ultramoderna.

Nesse sentido, a transformação da casa de Le Corbusier numa espécie de bunker moderno é apenas a radicalização extrema do ideal de seu criador. No fundo, a ideia era garantir a plena conversão do espaço às necessidades de seus usuários, de onde esta arquitetura recebe o nome de funcionalismo. Leonardo garante esse funcionalismo radical, na medida em que sua casa se transforma na pura expressão dessa vontade de imersão numa mônada impermeável a qualquer intrusão ou contato com qualquer tipo de diferença.

 

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2 Comments to “O homem ao lado de Mariano Cohn e Gastón Duprat”

  1. O que mais me chama atenção no final do filme é de como não só a anulação dessa impertinência se dá por uma fatalidade, como também, e principalmente, a reação inerte de Leonardo é conivente com essa possibilidade de anulação, ainda mais porque não restará a ele nenhuma responsabilidade por aquilo.

    Daí que muitas coisas dentro do filme me pareciam descartáveis (como a reação de distanciamento dele com a filha, a esposa e a empregada, a traição dele, a crueza em lidar com os estudantes), me soaram pertinentes no filme, pois elas criam um personagem que mostra uma pontinha de distanciamento, mas que revela toda sua frieza e desumanidade naquele final. Aí o filme se potencializa pra mim e cresce.

    • Leandro disse:

      Ah, entendi. Lembro que discutimos isso no twitter. Acho que o desenvolvimento do filme ajuda a reforçar esse sentimento de distanciamento e encerramento em si próprio que caracteriza o protagonista. É uma ótima sacada colocar esse tipo justamente dentro de uma casa modernista. Isso fortalece muito o sentido do filme. Por falar em casa e janelas, assisti Medianeras esses dias e acho que há pontos de relação entre as propostas dos dois filmes. Se sobrar um tempo, tentarei escrever sobre isso. Um abraço.

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