O mágico (L’illusionniste) de Sylvain Chomet

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A nova animação de Sylvain Chomet, o diretor francês que realizou o belo Bicicletas de Belleville, é uma triste reflexão sobre o desencantamento do mundo. Baseado num roteiro de Jacques Tati, o filme acompanha um mágico meio decadente, perambulando por várias cidades em busca de espaço para seu espetáculo. O problema é que as pessoas não parecem muito mais acreditar nos seus talentos. E mágica é algo que só tem efeito quando há uma espécie de crença comum, na qual as pessoas aceitam a força do mistério e do desconhecido, e por isso acreditam na eficácia do mágico. Sua perda de prestígio é provocada justamente por um esvaziamento nessa crença do desconhecido, o que transforma suas mágicas em truques ou meras ilusões, sempre sujeitas ao desmascaramento. Esse desencantamento aparece com toda força quando o pequeno garoto, numa platéia vazia, comenta com sua mãe que descobriu o segredo do truque. É como se todo o mistério fosse desvelado, deixando o Mágico completamente despido diante da platéia. Sem muitas opções, o protagonista é obrigado a viajar para terras mais distantes, fazendo uma espécie de turnê pelas ilhas britânicas. Num lugar que parece o interior da Escócia, ele encontra uma platéia mais amistosa e interessada, todos se divertem com o espetáculo e com suas mágicas. E uma jovem mocinha, a faxineira do local, fica especialmente curiosa com aqueles poderes incríveis. O interesse, claro, desperta a vaidade do Mágico e ele inventa pequenas mágicas para agradar a menina. Ele faz aparecer de tudo, objetos, moedas, até mesmo um sapato, tudo vira presente para a garota. Ela fica encantada com esse poder, ele fica encantado com a crença dela. Muito mais do que uma paixão ou uma amizade, o que nasce entre os dois é um desejo comum de recuperar o encantamento de um mundo cada vez mais cético e descrente. Quando ele retorna para cidade grande, ela o acompanha e os problemas começam a acontecer. Como ela acredita que as coisas simplesmente aparecem do vazio, seu gosto consumista começa a crescer descontroladamente, afinal para ela bastava o estralar dos dedos para o Mágico criar tudo que ela desejava (O filme estabelece uma oposição entre a crença na ficção do mágico e a crença na ficção do dinheiro, como a garota acredita no primeiro, ela não entende muito bem a lógica do segundo. A cena da loja, quando ela tenta comprar uma jóia cara com uma das moedas “criadas” pelo Mágico expressa isso muito bem). Entretanto, o protagonista sabe que não cria nada do vazio, e para sustentar seus truques ele começa a passar por apertos cada vez maiores. Por um tempo, ele ainda consegue um espaço para apresentar seu espetáculo, mas isso não dura muito. Na falta de opções, o pobre Mágico é obrigado a procurar outros empregos, até que chega ao ponto mais baixo de sua carreira, quando é contratado por uma loja de departamentos para realizar seus truques diante de uma vitrine cheia de ávidos consumidores. Desmoralizado e desacreditado, o Mágico encontra-se incapaz de continuar sustentando a crença nos seus truques. Ele também passou por um processo de desencantamento, perdendo a força para continuar como mágico. Já que aquilo que estrutura o relacionamento era uma crença comum, sua desilusão coloca um ponto final na possibilidade de compartilhamento, e ele precisa partir. Mas, antes ele deixa um pequeno bilhete para a garota: mágica não existe. É como se ele adquirisse uma espécie de consciência da desconexão do mundo enfrentada pela garota, e por isso a alerta do sentido último da realidade, uma realidade desencantada e presa na pura materialidade das coisas do mundo. É isso que deixa o filme com um ar tão triste, mas nem por isso ressentido, a constatação de que o desencantamento do mundo é um caminho sem volta. Não há como recuperar esta crença que vai se perdendo. O Mágico (e todo universo que transita ao seu redor) simplesmente é obrigado a se resignar com o seu não-lugar no mundo. E partir.

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2 Comments to “O mágico (L’illusionniste) de Sylvain Chomet”

  1. Diângeli Soares disse:

    Oi leandro!

    Já mudei la. Muito bonito, o blog novo!

    Abraços!

  2. Leandro disse:

    Obrigado Diângeli. Que bom que gostou do novo formato!

    Um abraço

    Leandro

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