O menino que odiava mentira de M. J. Hyland

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O menino que odiava mentira trata de um tema muito comum, qual seja, a difícil transição do mundo infantil para o adulto. Apesar dos riscos, a escritora inglesa M. J, Hyland consegue escapar do lugar-comum e criar uma obra potente e instigante. O protagonista-narrado é John Egan, um menino de onze anos que mora no interior da Irlanda com seus pais e sua avó. Mesmo sem muita clareza, Egan percebe que as coisas não estão bem em sua família, o que lhe causa uma grande dose de sofrimento. Na tentativa de compreender melhor a situação, o garoto começa a desenvolver aquilo que ele acredita ser o seu grande dom: a capacidade de detectar qualquer mentira. Este poder lhe apareceu pela primeira vez quando seu pai, após ter sacrificado os filhotes da gata da família, tentou ocultar seu mal-estar, mentindo a respeito do que estava realmente sentimento sobre aquela ação. Este esforço de ocultação, de negação de uma espécie de verdade interior, teve um efeito intenso sobre o menino, apertando com força seu estomago e lhe provocando fortes náuseas. Incapaz de lidar com a intensidade daquela sensação, John acabou vomitando. Este ato marca a conquista de uma espécie de consciência a respeito das relações humanas, capaz de subverter a ordem das coisas na cabeça do pequeno garoto. É a consciência do mal, que se materializa na mentira, na inautenticidade, na obrigação de constranger a si próprio em face do mundo exterior. Este primeiro contato com a maldade vai se tornar um motor que orienta as ações de Egan. Sua grande preocupação, então, é a de treinar seu dom, aprimorar sua capacidade em desmascarar as mentiras alheias, para proteger sua família e a si próprio. A mentira se torna sua obsessão na medida em que lhe parece impossibilitar uma transparência entre o ser e o mundo. Esta fratura na integridade da subjetividade aparece para o garoto como a origem dos desentendimentos entre ele e seus parentes, especialmente com seu pai. Ao longo da trama, o menino distancia-se cada vez mais do seu pai, e cada nova mentira fortalece esse sentimento. O seu talento para detectá-las, assim, assume um papel redentor: ele, que enxerga através das aparências, pode ajudar sua família a retornar para uma posição prévia, sem mentiras e enganos, logo sem tristezas ou desentendimentos. A dificuldade em compreender a real condição de sua família, que sofre por causa de problemas financeiros e pela dificuldade de viver harmoniosamente na casa da avó, agrava a sensação de que tudo está corrompido e arruinado. No ápice da crise, John tenta um gesto desesperado, uma revelação capaz de fazer com que a verdade viesse à tona. Porém, longe de recuperar a tranqüilidade abalada, este gesto apenas agrava ainda mais todos os problemas de sua família. Como sua mãe lhe diz, o que você achou que ia acontecer quando a verdade viesse à tona? É quando o menino começa a ganhar uma nova percepção de tudo. A mentira, longe de ser a fonte de todo sofrimento, era apenas uma maneira de tentar minimizar a crise familiar. A sua vontade de verdade ganha um novo sentido: consistia, sobretudo, num esforço desesperado para controlar a situação, de ganhar um poder sobre o mundo que lhe cerca, num gesto cheio daquela tirania tipicamente infantil. Só que esse controle se revela vazio, incapaz de aproximar ou refazer uma harmonia e uma transparência que nunca existiram. No final das contas, é como se a transição para o mundo adulto implicasse no abandono desse ingênuo e infantil desejo de verdade, afinal esta vontade absoluta de desvendar o que há de mais íntimo e honesto, no fundo, é apenas um desejo de poder e de governo.

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2 Comments to “O menino que odiava mentira de M. J. Hyland”

  1. Anonymous disse:

    Leandro homem de Deus.
    Preciso ir na sua escola.
    Essa semana.
    Tenho uns dias marcados no meu caderninho das suas aulas no ano passado. Como fazer? Perdi seu telefone! A Mari não atende o dela. E agora José? Bom, meu e-mail é o mesmo, isnaia@hotmail.com, se puder me escrever já marcando uma data e me repassando seu horário do 2° sem de 2009 já adianta pra burro. Qualquer dia, qualquer hora. É só me dizer. Abraços. Pablo.

  2. mariana disse:

    Le,
    que coisa é essa de escrever no twitter que deveria estar na aula? que coisa mais confessional…hehehe
    beijinho

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