O Milagre de Anne Sullivan de Arthur Penn

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O filme de Arthur Penn, O milagre de Anne Sullivan, é baseado na história real de Helen Keller, uma menina que, após uma grave doença infantil, ficou surda e cega. O roteiro do filme foi elaborado a partir das memórias escritas pela própria Keller, e acompanha os anos inicias da educação da menina junto com a professora Anne Sullivan. O filme é um misto de cinebiografia com história edificante, aquele gênero de filme bastante irritante no qual o espectador acompanha uma “bela” história de superação. Apesar do moralismo que marca esse gênero, e o trabalho de Penn não escapa desse tom, não é um filme completamente ruim, especialmente por permitir uma boa reflexão.

Após sofrer a doença, Hellen Keller se viu desprovida de todos os instrumentos que usualmente possibilitam a conquista da linguagem: sem a audição ela não podia ouvir as palavras e sem a visão ela não conseguia observar e aprender a se comunicar através de gestos. Presa e isolada, incapaz de expressar seus pensamentos, ela se assemelhava mais e mais a um animal ou a um desvairado, capaz apenas de atos destrutivos e agressivos: chutava, mordia, arrancava, rasgava, estragava. Sua família, uma importante e aristocrática família do sul dos EUA, via nela um fardo crescente e encontravam-se no limite de institucionalizá-la num manicômio. Dessa forma, a última esperança de todos era a vinda de uma nova professora, a Anne Sullivan, que com novos métodos talvez conseguisse impor alguma disciplina e domesticar a menina.

Para seus pais, a questão é justamente essa, domesticar, pois eles não concebiam como uma criança com aquelas deficiências pudesse conquistar qualquer linguagem. Bastava apenas conter seu potencial destrutivo para garantir uma normalidade doméstica. Porém, a professora que chega é obstinada: ela não quer apenas prevalecer como uma tirana capaz de dobrar a pobre Helen. Ela acredita firmemente que pode ensiná-la a se comunicar, através dos mesmos sinais que são utilizados para a comunicação dos surdos. Basta exercer um trabalho árduo e constante, vencendo as forças da menina para impor a disciplina necessária ao aprendizado. Para isso, a professora precisa vencer duas resistências: a dos pais e a da própria menina.

A desconfiança inicial é facilmente superada e Anne Sullivan convence os pais de que não acontecerá nenhum avanço na educação da menina sem a adoção de medidas radicais. Enquanto Helen continuar vivendo no ambiente doméstico ao qual está habituada, nada se transformará e ela seguirá explodindo com violência e indisciplina. A única possibilidade de mudança é a criação de um novo espaço, no qual a cena de enfrentamentoentre a potência selvagem da menina e a eficácia disciplinar da professora se desenrolará.

Esse novo espaço exige o deslocamento das duas para uma casa externa ao ambiente doméstico. Na propriedade dos Kellers, existia uma pequena casa, afastada e desocupada. A professora consegue a aprovação para permanecer lá por duas semanas, período no qual ela deveria conseguir algum avanço na educação e na domesticação de Helen. Este novo ambiente possibilitaria uma submissão radical, onde a menina permaneceria na suaestreita dependência, e por isso ela seria capaz de exercer sobre a menina um império irresistível e de mudar a corrente viciosa das suas ideias. É como se ela buscasse a criação de um campo de batalha, que como explica Foucault, devido a disposição táticas de uma série de mecanismos, amplificaria o potencial dos micopoderes necessários para a imposição da disciplina.

Esta disposição implicaria no controle das necessidades mais básicas da menina, sua alimentação, seu descanso, seus gestos e comportamentos, tudo estaria sobre o mais rígido controle das regras impostas pela professora. Além disso, seria através de um jogo físico, violento e duro, que Anne Sullivan impediria os arroubos agressivos de Helen, puniria todas as suas indisciplinas e lhe obrigaria a dedicar sua atenção na imitação dos códigos gestuais necessários para a comunicação. Nesses termos, educar aparece essencialmente ligado com o exercício da força, de uma espécie de violência, capaz de criar aquela disciplina necessária para a interiorização dos procedimentos necessários para a conquista da linguagem.

Efetivamente, após as duas semanas, ela conseguiu avanços notáveis com a menina. Vencida pela força, Helen não apronta mais, sua agressividade cedeu lugar a uma postura mais dócil, uma espécie de pré-requisito para a continuidade do aprendizado. Porém, apesar de todo esforço, a pequena continuava se mostrando incapaz de compreender a lógica da linguagem (como Anne diz sempre, as palavras representam coisas). Imitar os gestos de sua professora ainda é apenas um ato mecânico, sem propósito ou sentido. O problema é que os pais exigem o retorno da menina, ameaçando todo avanço feito até então. A professora se desespera e tenta um último esforço pedagógico, repetindo exaustivamente o procedimento dos sinais nas mãos da menina. Um esforço aparentemente em vão.

Logo que a menina retorna a casa, parece que seus velhos modos também retornaram. É nesse ponto que vemos a cena mais luminosa do filme. Helen Keller começa a brincar com as portas e pega uma das chaves, o que parece repetir a primeira traquinagem que ela fez com a professora, logo no início do filme. A mãe, a figura doméstica por excelência, vem logo e lhe toma a chave, atrapalhando seu intento. A cena segue para o primeiro almoço em família, quando Keller se revolta novamente. A professora enxerga nisso um retrocesso e tenta impor novamente sua autoridade, o que dá início a uma confusão e a menina foge da casa. Lá fora, as duas se reencontram e Sullivan tenta um gesto desesperado: leva a menina até a fonte de água e começa a derramá-la nas mãos dela, enquanto repete continuamente os gestos que representam a palavra água. É quando o milagre se opera e a menina finalmente balbucia alguma coisa, a palavra água que ela havia aprendido na infância. E então o intento da chave faz sentido: Helen corre atrás da sua mãe e recupera a chave, ato contínuo a entrega para sua professora. A professora enquanto metáfora da chave, a única que poderia abrir a intimidade da menina para o mundo. E o primeiro passo da linguagem é simplesmente compreender o papel metafórico de toda linguagem.

Ora, o que está por trás desse imenso esforço de Anne Sullivan é a crença do papel libertador do aprendizado da linguagem. Em inúmeros momentos ela expressa a preocupação de salvar a menina de uma espécie de tirania doméstica, no qual seria apenas um bicho de estimação doméstico. Sullivan acredita que a única forma de protegê-la desse destino é através do aprendizado. Com isso, ela mesma aprenderia a se disciplinar, a regular sua liberdade e utilizar seu potencial interno. Presa no seu corpo, incapaz de se comunicar, Hellen Keller não poderia se governar, mas se ela aprendesse a expressar a verdade mais íntima de si mesma, a sua condição de sujeito, ai sim ela poderia garantir para si a soberania da própria vida. Seu objetivo é deslocar a menina de uma condição de submissão para uma de liberdade regulada. E a disciplina é o método que deveria orientar este processo.

É como se através do exercício da força, de uma violência mais ou menos sutil, pouco a pouco o pequeno corpo da menina fosse capaz de prescindir de qualquer violência. No enfrentamento do primeiro almoço, o que acontece é justamente isso: uma disputa de corpos, da professora e da aluna, com diferentes vetores e intensidades, resulta numa conquista fundamental: a menina aceita comer no prato e dobrar seu guardanapo. Essa pequena conquista exigiu uma energia desmedida, porém possibilitará outras. E a cada nova conquista, será necessário menos energia, menos força e menos violência. O governo vai se interiorizando e a menina vai ganhando uma disciplina espontânea. Como disse Jorge Ramos do Ó, este processo visaampliar e diversificar os meios disciplinares, levando a disciplina o mais longe possível, quer dizer, exatamente até àquele ponto em que ela não fosse mais necessária.

Ademais, para essa estratégia funcionar era necessário um outro deslocamento, qual seja, da família para um espaço institucional de novo tipo. A grande ameaça aos avanços da menina, no final das contas, não era tanto suas deficiências físicas, mas o desejo incontido de seus pais em lhe manter presa ao espaço doméstico. Seu avanço último, a possibilidade de pensar através de metáforas, quase foi detida pela vontade de dominação da sua mãe. É contra essa soberania do lar que a professora se levanta. É ela quem vai preparar a menina para o uso da linguagem, e por isso para a vida pública.

Por conseguinte, o filme acaba desvelando uma das mais bem acabadas representações do papel da escola na estruturação da modernidade. A partir da noção de liberdade e de espaço público, as reflexões sobre a escola e suas pedagogias visavam, acima de tudo, garantir o funcionamento de uma ordem política marcada pela separação do público e do privado, na qual era fundamental que todos soubessem interiorizar as regras mínimas de convivência para dispensar o uso da força. A política moderna, no seu modelo mais utópico, exige que o conjunto da sociedade disponha dos elementos necessários para o diálogo (a linguagem) e que cada um fosse capaz de governar a si mesmo (a disciplina), para participar do governo de todos.

Nesse sentido, vale lembrar aquilo que o historiador português Jorge Ramos do Ó disse: a modernidade funciona a partir do cruzamento do poder pastoral com a governamentalidade liberal, no qual todos e cada um acabam inseridos num grande dispositivo de governo. Assim, a modernidade foi caracterizada pelo permanente desígnio de governar sem governar, de ampliar o poder até aos limites mais distantes, ou seja, às escolhas de sujeitos autônomos nas suas decisões. Isto acaba encerrando uma aporia fundamental nas bases de nossa modernidade: a possibilidade mesma de liberdade (entendida como a livre condução de nossa subjetividade) é gestada nessa relação com o poder. A posição ocupada por Helen Keller, sua incapacidade de expressar a própria subjetividade, é a metáfora perfeita de um possível fora do poder: lá onde não há poder, não há também linguagem, tampouco a possibilidade de interagir com o outro. Esta relação, porém, abre-se para o risco sempre presente da manifestação do poder enquanto dessubjetivação, quando sua produtividade reverte noutra direção.

Esse risco se faz mais presente do que nunca, afinal presenciamos um processo de claro tensionamento dessa modernidade. Como fala Agamben, a subjetividade ocidental fora produzida a partir de uma série de dispositivos (entre eles, com claro destaque, os mecanismos de escolarização), que visavam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Entretanto, o que define os dispositivos com os quais temos que lidar na contemporaneidade é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivaçãoos quais não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Frente a estes seres espectrais, as próprias noções da modernidade começam a se esfacelar: a política, a separação de público e privado, a linguagem e a possibilidade mesma de educação. Estes quase-sujeitos se aplicariam perfeitamente aquele projeto original de educação idealizado para Hellen Keller no início do filme: de modos contidos, domesticados, mas afastados do domínio da linguagem.

Referências:

Os livros citados são:

Michel Foucault, O poder psiquiátrico.

Jorge Ramos do Ó, O governo de si mesmo.

Giorgio Agamben, O que é um dispositivo?

 

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4 Comments to “O Milagre de Anne Sullivan de Arthur Penn”

  1. Diz disse:

    Vi este filme menina foi impressionante- jamais esqueci. Abs, laura

  2. Leandro disse:

    Olá Laura,

    Obrigado pelo comentário. Realmente, é um fime bem forte e marcante, especialmente a cena final. Um abraço e volte sempre!

  3. Maria da Conceição N. Bezerra disse:

    O filme é realmente marcante pois ele nos transmite uma boa aprendizagem. Obrigada pela lição de vida…

  4. wilclesia nunes disse:

    ola!
    nossa eu eu fiquei super curiosa para
    assistir esse filme.
    ja ouvi falar muito sobre ele
    e agora vou ter a chance de assisti-lo

    parece ser muito emocionante!!
    bjksss!!

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