O país dos surdos de Nicolas Philibert (1992)

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O país dos surdos (Le pays des sourd) do documentarista francês Nicolas Philibert (o mesmo diretor do bastante conhecido Ser e Ter) é uma interessante reflexão sobre dois tipos diferentes de discursividade sobre a surdez. Mais do que um retrato da vida dos surdos franceses, o filme recupera o modo como os surdos enxergam o mundo em que vivem, dando especial ênfase às relações estabelecidas com os ouvintes. Essa abordagem evita o risco, bastante comum, de falar em nome do outro. É sempre tentadora a possibilidade de explicar o outro, de dizer desta ou daquela comunidade, vocês são assim. Parece-me que é justamente isso que Philibert recusa nesse trabalho. Ele não pretende falar o que são os surdos, nem chamar especialistas que explicarão o que é a surdez e como estes deveriam viver. Essa opção, que por si só já torna o documentário uma obra bastante interessante, é reforçada por outra estratégia. Os ouvintes não falam diretamente para as câmeras. Eles aparecem apenas como elementos secundários, como personagens marginais. Quem fala, sempre, são os próprios surdos. Nessa fala surda, nota-se um tema central: a sensação de viver em constante alteridade num país predominantemente ouvinte. É como se os surdos sentissem sempre que vivem na condição de estrangeiros, daqueles que não pertencem plenamente à cultura do país. Porém, esta situação não parece incomodar os surdos. Não encontramos lamentos nem uma vontade de adaptação e normalização. Na verdade, o que fica evidente é exatamente o contrário. Há uma forte pressão, uma espécie de obsessão da sociedade em normalizá-los, uma vontade de anular essa condição de estrangeiridade própria da cultura surda. Para isso, aparecem inúmeros dispositivos normalizadores. O mais importante é a escola. Neste ponto é necessário lembrar que o filme retrata a situação educacional no início dos anos 90, portanto nos encontramos atualmente num cenário pedagógico um pouco diferente. De qualquer modo, qual é a escola que aparece nas imagens do filme? Uma escola preocupada em adaptar o surdo à comunidade ouvinte. Isso significa, principalmente, ensiná-lo a falar. Já não é mais aquela escola que proíbe a língua de sinais, mas que a utiliza (junto com outros recursos tecnológicos e pedagógicos) para tornar possível o aprendizado da fala para os pequenos surdos. Na ação pedagógica, que acompanhamos num registro quase etnográfico – muito parecido com aquilo que Philibert realizará depois em Ser e Ter – nota-se que o avanço do aluno é medido essencialmente na ampliação das suas capacidades de fala. O importante é torná-lo compreensível àqueles que ouvem e que escutaram apenas a sua voz (e não suas mãos). É claro que esse processo é dolorido e extenuante para os pequenos surdos. A dificuldade em se adaptar nasce dessa obrigação de anular a própria alteridade, de aprender a ser “como” um ouvinte. Essa dificuldade, porém, não acaba quando os surdos deixam a escola. Ela se reafirma em inúmeros outros momentos do filme: nas relações familiares (há uma passagem interessante, na qual vemos primeiro uma família de ouvintes com um filho surdo e depois uma família de surdos, ambas na hora da refeição. Enquanto na primeira, o surdo fica relegado ao isolamento, já que os familiares não sabem a língua de sinais, na segunda a comunicação é constante e animada, afinal todos sabem se comunicar por meio da língua de sinais); no trabalho; no casamento ou na hora de alugar um apartamento. A fonte dessa dificuldade é sempre a mesma, a condição de estrangeiro que dificulta a comunicação e a compreensão dos surdos. E a demanda é sempre a mesma, o surdo “precisa” falar como os ouvintes, precisa se tornar um “quase” ouvinte. Essa situação é contraposta com a luta da comunidade surda, por exemplo, por escolas bilíngües (estas são aquelas nas quais a língua de instrução é a de sinais e a língua nacional é ensinada como segunda língua, unicamente na modalidade escrita), ou ainda pela valorização e pelo ensino da língua de sinais. Enquanto o que se espera da comunidade surda é a normalização e o abandono de sua alteridade, os próprios surdos lutam por valorizar e afirmar sua condição de estrangeiros num país ouvinte. Ao colocar isso em discurso, torna-se possível refletir sobre a noção de deficiência, que sempre aparece conectada ao discurso normalizador. O surdo “precisa’ se adaptar para não sofrer, para poder viver uma “vida normal”. Ora, a ideia que subjaz a esse tipo de afirmação é que a surdez é uma experiência incapacitante ou de falta e que para viver plenamente em sociedade isto precisa ser superado. Uma das falas mais instrutivas a este respeito é a de uma jovem surda. Ela explica que se sentiu horrível quando colocou o aparelho para tentar melhorar sua audição. Para ela, a condição de não ouvinte não é uma perda ou uma deficiência, mas apenas uma forma de existir e de se subjetivar. Por isso, ela não precisa do aparelho, ela não precisa escutar. Essa opção desconstrói o discurso normalizante, afirmando no seu lugar uma vontade de ser-outro, de viver de outra maneira, como um estrangeiro que pode enxergar o mundo de outra posição. A beleza do filme é tornar possível a manifestação desse outro discurso, dessa recusa que muitos surdos abraçam de desejar tornar-se um nativo, um “quase” ouvinte.

PS: tenho impressão que o filme não foi lançado comercialmente no Brasil. Não há registros de cópias em DVD. Felizmente, existe (ao menos por enquanto) uma versão completa disponível no youtube. Deixo o link aqui: http://www.youtube.com/watch?v=LOlhaOfbP3s

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One Comment to “O país dos surdos de Nicolas Philibert (1992)”

  1. Walgerlandio Araujo dos Santos disse:

    oi! eu falar vocé surdos como pessoras ter que libras? como vocé.

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