O quarto verde de François Truffaut

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O tema central de O Quarto Verde, do diretor francês François Truffaut, é a relação entre os vivos e os mortos. O filme, que se passa um pouco depois do final da Primeira Guerra Mundial no interior da França, acompanha a obsessão de Julien Davenne (interpretado pelo próprio Truffaut) em preservar a memória de sua falecida esposa. Como vamos descobrindo ao longo do filme, Davenne precisou esperar os quatro anos da guerra para poder se casar, porém logo depois sua esposa faleceu. A dor da separação o fez cultivar de maneira obsessiva a memória dela. Mais do que isso. Davenne assumiu para si a posição de guardião da memória dos mortos. Na impossibilidade de seguir adiante, ele realiza uma conversão na sua vida, abdicando toda vida ativa para cuidar sempre da preservação daqueles que já não vivem. Sua atividade profissional expressa bem essa opção: ele escreve obituários num pequeno jornal local (a ação acontece no interior da França) bastante decadente e quase falido. Além disso, Davenne quase não estabelece contato com os vivos, sempre sozinho, sem amigos e sem amantes. O grande projeto de sua vida é o cuidado com o quarto verde, o qual funciona como um altar para manter a sua falecida esposa viva na sua lembrança. Um ambiente repleto de fotografias, roupas, objetos, um espaço de souvenir. Ele é um personagem que não age, que apenas gira em torno dessa necessidade poderosa de nunca esquecer. No seu mundo, quem manda não são os vivos, mas sim os mortos. Há um momento, porém, que a trama prepara o que parece ser uma ruptura, a introdução de um acontecimento capaz de remover Davenne de seu imobilismo: o encontro com Cecília, uma jovem que o havia conhecido alguns anos antes. Ela, como ele, também é marcada pela experiência dolorosa da perda, no caso de seu pai. No entanto, ela não enxerga nesse fato um motivo para dedicar-se ao culto da memória, para viver preso na plenitude do passado. Para ela, o lembrar é importante, mas não menos do que o esquecer. Apesar dos desentendimentos com Davenne, ela acaba se apaixonando. É a partir disso que o filme revela toda a opressão de uma existência consagrada ao passado, que se basta no rememorar: nessa existência não há espaço para a reintrodução da ação, nada pode demover Davenne de sua obsessão. A vitalidade perdida, convertida na plena submissão ao passado, não pode ser combatida, superada ou ultrapassada. Na realidade, o que acontece é que o culto aos mortos vai ganhando cada vez mais centralidade em sua vida. O ponto máximo desse processo é quando ele inaugura um grande altar para os seus mortos, numa capela abandonada que ele reformou com este propósito. Numa cena das mais assustadoras do cinema, vemos Davenne apresentando seu altar para Cecília, um lugar com fotos para recordar todos os mortos que passaram pela vida do protagonista. Um ambiente de um vazio absoluto, o puro reino da memória. A angústia daquele lugar é representada com grande força na cena, quase sufocante. É como se a sua obsessão fosse capaz não somente de ordenar a sua vida, mas a de submeter até mesmo Cecília. No fundo, seu grande objetivo é se tornar ele também uma lembrança, uma memória fixa e estável. E por isso que a figura de Cecília é tão importante, é apenas ela que pode completar esse processo de anulação, de transposição dos vivos e dos mortos. O filme se revela uma metáfora impressionante da força paralisante da memória, do que há de sufocante na consagração irrestrita ao passado, manifestação mais acabada do ressentimento e da sua impossibilidade de agir.

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