O que mais desejo de Hirokazu Koreeda

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O diretor japonês Hirokazu Koreeda fez um dos meus filmes favoritos da década passado, Ninguém Pode Saber. O filme tratava de um grupo de crianças abandonado pela mãe e que precisa aprender a cuidar de si próprio. Nesse caso, o filme pode ser visto como uma das mais bem feitas metáforas da crise de autoridade no mundo contemporâneo. Como já escrevi antes, na trama, nos encontramos diante de uma espécie de descaminho na ordem do mundo, uma espécie de inversão nas responsabilidades pela manutenção do mundo. O velho, o adulto, é aquele que deveria garantir a introdução do novo, o infante, na ordem do mundo, garantindo nesse processo a continuidade das coisas. Porém, aqueles que são responsáveis pelo cuidado e pela manutenção dessa ordem, simplesmente abrem mão de suas responsabilidades. Os adultos podem renunciar a sua condição de adultos e deixar o mundo infantil ao seu próprio cuidado. E quando isso ocorre, resta apenas um rápido deslizar em direção a pura barbárie.

Esse tema da perda da autoridade e do cuidado com o mundo é bem significativo na reflexão contemporânea, porém pode facilmente resvalar numa espécie de saudosismo pouco interessante. É como se existisse apenas uma solução, um retornar para trás e tentar reconstituir o fio oculto que rege a relação entre velhos e novos, suas tradições e responsabilidades. Nesse sentido, o filme mais recente do diretor japonês, esse belo O que eu mais desejo, pode ser visto como uma continuidade da reflexão lá iniciada. E o que é mais interessante, o trabalho de Koreeda consegue se desfazer desse saudosismo e propor algo muito diferente do que um simples olhar para trás.

A história parte de uma premissa parecida, a relação tumultuada entre adultos e crianças. No caso é a família do pequeno Koichi que se separou. Ele passou a viver com a mãe e os avôs numa cidadezinha do interior do Japão. Já seu irmão menor acompanhou o pai em outra cidade. A separação se torna duplamente dolorida, na medida em que não apenas o pai que se afastou, mas também seu irmãozinho. Por essa razão, o garoto alimenta o desejo de reunir a família e refazer os laços que se encontram partidos. Mais uma vez, os adultos parecem encontrar-se a deriva no mundo, tão incapazes de cuidar de si próprios quanto das crianças.

Todos vivem existências vacilantes, como a mãe do garoto que tenta recomeçar a vida ou seu pai que alimenta o sonho de retomar uma carreira de músico que fora abandonada muito antes. Porém, o personagem que representa com mais intensidade essa existência vacilante é o avô do garoto. Obcecado com a criação do mais perfeito e tradicional manju (um tipo de doce japonês), ele não enxerga a desconexão com tudo que o cerca. É como se ele se tornasse a materialização dessa vontade de entender o mundo por meio de um olhar que se lança apenas para o passado, para a tradição que não mais sustenta a ordem das coisas.

O grande aspecto do filme é colocar os personagens infantis no pólo oposto dessa condição vacilante. Se os adultos não parecem saber muito bem o que querem fazer, nem como fazer, as crianças são dotadas de uma determinação muito intensa. E isso não vale apenas para Koichi, mas seus colegas, seu irmão e mesmo os colegas de seu irmão, todos eles buscam avidamente uma forma de estar e se afirmar no mundo. Diante do descaminho do adulto, apenas o olhar infantil – inocente, sonhador, ainda encantado com a potência do novo – pode encontrar alguma orientação, um caminho. Isso porque esse olhar é mediado por uma mágica, um desejo que se acredita capaz de operar sobre a realidade e transformá-la. Não é uma mera repetição do que já está dado, um cuidado que apenas atualiza uma potência já existente, mas a própria condição de infante se apresenta como a ininterrupta possibilidade de criar novas potencialidades, novos mundos.

Por isso, para ultrapassar a indecisão adulta, Koichi e seus amigos acreditam nessa mágica do desejo. É isso que os leva até a história dos trens-bala. Segundo as crianças, no primeiro cruzamento de dois trens-bala, que ocorrerá na linha recém-inaugurada que corta a cidade do garoto, qualquer desejo pode ser realizado. O que move cada um deles é a crença obstinada nessa possibilidade da materialização do desejo na ordem do mundo. Essa oposição entre um olhar infantil, ainda desenraizado, em mutação e movimentação, e um olhar velho, incapaz de enxergar a possibilidade de transformar o mundo que já está dado (e desmoronando) possibilita a ultrapassagem das questões que foram lançadas em Ninguém Pode Saber.

A renúncia da responsabilidade pelo cuidado do mundo, por meio da transmissão das tradições, não significa necessariamente uma experiência de barbárie e de colapso do próprio mundo, mas sim a exigência de um modo diverso de cuidado. Um cuidado muito mais aparentado com o olhar infantil, capaz de enxergar aquilo que o adulto não pode mais ver, a mágica desejante, capaz de criar novos mundos. Nesse caso, Koichi se torna uma figura chave para a compreensão dessa potência infantil de agir sobre o mundo. Seu desejo era o mais destrutivo de todos, ele imaginava apenas uma solução para o reencontro de sua família: a erupção do vulcão nas cercanias da cidade em que vive. Isso significaria a destruição do povoado e obrigaria a reaproximação de seus parentes. É apenas no momento em que os trens estão prestes a se cruzar que Koichi percebe o quão absurdo era essa sua ideia.

Seu olhar infantil lhe revela que não é por meio de uma restauração de uma ordem existente (o casamento, a família reunida) que a potência do mundo poderá se afirmar. A renúncia desse desejo egoísta abre caminho para novos desejos, desejos para (e pelo) mundo. Num universo onde os adultos renunciaram todas as suas responsabilidades para com o mundo, é como se a generosidade do cuidar só fosse possível no olhar de uma criança. Essa inversão ganha um sentido ético-político bastante interessante, na medida em que evita o puro saudosismo, a vontade de olhar para trás e acreditar que lá encontraremos um guia para se posicionar diante do mundo, e valoriza essa potência infantil, criadora, de reinvenção constante do próprio mundo. Por essa razão, O que eu mais desejo é um filme leve e alegre, é difícil não ficar contagiado com a energia infante que movimenta a trama. E essa força lança ainda mais luz e beleza ao Ninguém Pode Saber, como se fosse possível agora retornar a ele e reinterpretá-lo sobre uma nova chave.

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One Comment to “O que mais desejo de Hirokazu Koreeda”

  1. Mariana Thibes disse:

    Tanto esse filme quanto o “Ninguém pode saber” são, de fato, belíssimos. Nos dois nota-se a ruptura familiar e depois a reestruturação em outros moldes – os meninos dão um jeito de viver sem os pais, num caso, ou vivem separados, no outro. Crise de autoridade, do próprio arranjo familiar, como efeito colateral do individualismo que também está no Japão, mas que lá ainda tem contornos um pouco diferentes dos nossos ocidentais. A tradição ainda permanece de algum modo, com o avô ensinando o neto a fazer o manju, a rezar e a entender a montanha, os meninos e a relação de respeito com os idosos ( a cena da despedida do casal de idosos que os acolhe) e isso faz diferença.
    Acho linda a oposição que ele cria entre o mundo adulto e o infantil: as crianças sonham, acreditam na possibilidade de concretizar os desejos e vão atrás deles, enquanto os adultos aparecem frustrados com seus sonhos desfeitos e sem vigor para criar outros. Na verdade, são três gerações em choque no Japão: os avôs, os filhos e os netos; cada qual enfrenta as vicissitudes a seu modo. Mas o diretor deixa claro qual dessas formas ele prefere: suas crianças são de fato encantadoras!

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