O Segredo da Cabana de Drew Goddard

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O Segredo da Cabana é uma espécie de homenagem a um dos gêneros mais populares do cinema, o de filmes de horror. Por meio de uma espécie de diálogo metalingüístico, a obra de Goddard utiliza os mais diversos elementos que estruturam uma espécie de gramática do gênero: um grupo de adolescentes, uma viagem para um lugar distante ou fora da normalidade, o velho maluco que alerta para os riscos, a existência de forças sobrenaturais, os primeiros ataques e as primeiras mortes, a luta pela sobrevivência e o confronto final entre os protagonistas e a monstruosidade. Esses tópicos elementares formam uma espécie de núcleo comum que permite ao espectador situar um determinado filme dentro do gênero de horror, facilitando a compreensão e a assimilação do filme. É bastante incomum que um filme de horror subverta absolutamente essa composição canônica, especialmente quando pensamos no cinema nos moldes hollywoodianos (como é o caso de O Segredo da Cabana). Por isso, podemos falar na existência de uma gramática, afinal esses elementos operam num plano normativo e restritivo, selecionando o que se pode filmar e o que não convém. É evidente que existem obras que escapam das amarras restritivas dessa gramática, porém a maior parte da produção prefere operar dentro desses moldes, na expectativa de que isso garanta o sucesso comercial do filme. Essa gramática do horror não é novidade, já que foi se consolidando lentamente ao longo da história do cinema, adquirindo novos elementos, possibilitando a justaposição e a ampliação de possibilidades cada vez mais variadas de inspirar susto e horror no espectador. É disso que trata O Segredo da Cabana. De homenagear esse modo de fazer cinema. Para isso, os roteiristas elaboraram uma trama relativamente simples. Um grupo de jovens vai passar um final de semana numa casa abandonada e distante. Por trás dessa viagem, existe uma espécie de organização secreta que pretende sacrificar os jovens numa espécie de ritual para evitar que deuses antigos e dormentes se levantem e destruam toda a humanidade. Para o ritual funcionar, é necessário que os jovens cheguem na cabana e lá despertem algum tipo de monstruosidade, que tratará de torturá-los e dizimá-los. O tipo de criatura não importa muito. No final, são os próprios jovens que devem escolher, mesmo que inconscientemente, que tipo de ser desempenhará o papel de executor deles próprios. As possibilidades são quase ilimitadas: zumbis sanguinários, lobisomens, vampiros, criaturas demoníacas, monstros marinhos, fantasmas, serial-killers imortais, palhaços assassinos, insetos gigantes, robôs indestrutíveis, seres alienígenas, etc, etc. Nesse sentido, com o intuito de homenagear o gênero de horror, a obra opera uma espécie de desvelamento da gramática própria que alimenta esse tipo de filme. Pode ser essa ou aquela criatura que ataca esse ou aquele arranjo de vítimas, nessa ou naquela localidade (se existe o cenário da cabana abandonada, há também outras possibilidades de ritual de sacrifício, como aquele que ocorre numa escola japonesa, ou mesmo em alguma região isolada da Escandinávia, enfim qualquer lugar), provocando esta ou aquela morte. A proposta da trama, com sua história matriz de um ritual para a preservação do mundo, indica a existência de amplas possibilidades de construção de uma trama de horror a partir de elementos mínimos. O problema é que, para além dessa variabilidade, na verdade nos deparamos com um cenário de potencialidade bastante restrita. Dentro da gramática do gênero não existe muito espaço para inovação e ruptura dessa estrutura matriz bastante fixa (os elementos mínimos que não podem estar ausentes). Nesse caso, muito mais do que uma homenagem, o que o Segredo da Cabana revela é a própria limitação na qual o gênero de horror está encerrado. E não é difícil perceber o quanto essa limitação é uma presença constante na maior parte da produção contemporânea. Raras são as obras que, de uma forma ou de outra, conseguem subverter tais regras. Na maior parte dos casos, vemos apenas uma espécie de intensificação dessa estrutura simples. Intensificação entendida como uma tentativa de criar um ambiente mais horrorizante e chocante, no qual a violência se torne mais visível e ostensiva. Se existe um ponto de fuga na produção recente é justamente a de impressionar o espectador com uma brutalização cada vez mais direta e intensa do corpo humano. Pouco se elide: não basta, por exemplo, que saibamos que um determinado personagem morreu, é importante que essa morte se torne visível, com um registro cada vez mais ampliado e aproximado, com sangue, tortura e destruição mais e mais realista. Como não se pode criar uma nova linguagem cinematográfica para o horror, os produtores se limitam a intensificar o que já está dado. Por essa razão, muito longe de funcionar como uma homenagem produtiva, O Segredo da Cabana é muito mais a expressão do impasse no qual o gênero se encontra. Curiosamente, a sequência final do filme, quando o ritual de sacrifício fracassa e o mundo é destruído pelos seres antigos, não deixa de ser uma interessante metáfora para esse problema. No momento em que a sensibilidade do espectador não puder mais ser surpreendida pela intensificação dos mesmos recursos, penso especialmente na violência ilimitada de alguns filmes recentes, a própria eficácia do gênero se encontrará suspensa. Isso implica numa necessidade de reinvenção do gênero, de abandono dessa gramática estruturada, visando a construção de novas possibilidades narrativas para além dos mesmos elementos mínimos que já estão bem esgotados.

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