O Show de Truman de Peter Weir

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Show de Truman, do diretor Peter Weir, dialoga com um dos problemas centrais da filosofia ocidental, qual seja, o nexo entre o saber e o poder. Como se sabe, o filme trata da tomada de consciência de Truman Burbank, um indivíduo aprisionado desde o seu nascimento num imenso reality show. Vivendo iludido pelo mundo que o cerca, sua existência não é nada mais do que um simulacro fictício de uma vida real, controlada pelo criador do programa televisivo. Nesse estado ilusório em que vive, Truman não encontra meios para escapar de um poder dominador, tirânico, que o utiliza apenas como um joguete para alcançar os mais altos índices de popularidade televisiva. Nada é mais revelador dessa plena submissão do que a separação forçada do grande amor de Truman. Entre os muitos atores que participam do show, uma jovem se apaixonou verdadeiramente por Truman, e por isso decidiu ajuda-lo a escapar daquele profundo engano no qual estava imerso. Para evitar a revelação que desmontaria todo o espetáculo, a moça acabou excluída do programa, deixando o pobre Truman desconsolado a sua procura. Pode-se dizer que esta é a única experiência autêntica vivenciada por Truman durante toda sua (quase)vida. Por isso, acaba se tornando uma experiência transformadora, que iniciou o lento processo de ascese em busca da verdade. Pouco a pouco, Truman começa a tomar consciência de que o mundo no qual vive não passa de uma ilusão. Essa tomada de consciência é dolorosa e conflituosa, porém o desejo da verdade acaba prevalecendo, e finalmente Truman consegue superar sua condição de ignorante, e portanto, submetido à tirania do poder, recuperando a soberania de sua própria subjetividade. Há, portanto, um profundo vínculo entre saber e poder no discurso do filme, aqueles que não sabem se encontram submetidos àqueles que sabem. O saber é, assim, o único caminho para a emancipação política. Essa ideia não é nada original, na realidade é um dos temas centrais de nossa tradição filosófica. Em grande medida, podemos dizer que o filme opera uma espécie de atualização do Mito da Caverna de Platão. Lá também o problema do conhecimento está intimamente articulado com o problema do político. De maneira muito geral, Platão imagina a situação de homens que vivem acorrentados dentro de uma caverna, tudo que eles enxergam são as sombras que o mundo exterior projeta nas paredes da caverna. Nessa condição, eles acabam confundindo estas sombras (o simulacro) com a própria realidade, permanecendo incapazes de compreender a condição de aprisionamento na qual se encontram. Porém, pode acontecer de um ou outro escapar da prisão escura e conhecer a verdadeira fonte daquelas sombras. Após o doloroso acomodamento com aquele mundo iluminado, este indivíduo se torna capaz de começar um movimento ascendente em busca das verdades eternas do mundo. Este processo de fuga, como se sabe, é uma metáfora da atividade do filósofo platônico, aquele que consegue superar os enganos dos sentidos e atingir uma verdadeira compreensão da natureza das coisas. É este processo de conhecimento que o tornaria capaz de recuperar o governo de si mesmo – afinal dentro da caverna todos estão absolutamente privados de suas liberdades – tornando-se também capaz de conduzir o governo da cidade com as virtudes necessárias para uma vida justa e digna. É o acesso ao verdadeiro que marca a separação entre aqueles que devem governar e aqueles que são governados. O que há de comum nos dois discursos, tanto no Show de Truman quanto no mito platônico, é uma possibilidade única do conhecimento: escapar do poder, do governo de outrem. O processo de conquista da verdade é também um processo de autonomia, de emancipação individual, de liberdade. Não é difícil de perceber como essa associação é fundamental para a nossa maneira de pensar. Como dizem, E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Nesse sentido, talvez uma das principais contribuições que a obra de Michel Foucault nos legou foi a de torcer e inverter essa associação. Longe de pensar o conhecimento como uma ferramenta emancipadora, o filósofo francês desvelou os nexos que se estabelecem entre saberes e poderes, a maneira como todo poder necessita de saberes, e mesmo como a própria possibilidade de demarcação do verdadeiro e do falso já é em si mesma um ato de poder. É por isso que Foucault diz que não pode haver exercício de poder sem um clarão de verdade, sem um círculo aletúrgico que gira em torno dele e que o acompanha. E continua, explicando que aleturgia é o conjunto de procedimentos possíveis, verbais ou não, pelos quais se atualiza isso que é colocado como verdadeiro por oposição ao falso, ao oculto, ao invisível, ao imprevisível, etc. (…). Portanto, longe de uma antinomia entre poder e saber, entre dominação e conhecimento, o que Foucault propõe é exatamente o contrário: são os procedimentos da verdade – aquilo que sustenta a separação entre o verdadeiro e o falso – que possibilitam o exercício do poder (entendido como condução de condutas) e o governo dos homens. Mais do que governar a partir da verdade, o que se passa é que a verdade é ela mesma um dos mecanismos que governa os homens: é a partir das relações com a verdade, dos constrangimentos e vínculos que os indivíduos precisam estabelecer para operar (e atingir) a verdade, que se produz determinadas relações de sujeição, enfim, que se produz determinadas subjetividades. Nesses termos, a possibilidade mesma de fuga da caverna, de escapatória dos jogos de poder a partir de uma experiência de conhecimento, se revela problemática. Logo, a saída de Truman do show televisivo não pode mais ser compreendida como uma simples ascensão para uma zona livre de constrangimentos, na qual sua livre subjetividade poderia finalmente se emancipar.

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