O Som ao Redor de Kléber Mendonça Filho

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O Som ao Redor, do diretor brasileiro Kléber Mendonça Filho, é uma das mais bem sucedidas reflexões sobre a violência social no Brasil contemporâneo. Ainda que a temática tenha ganhado relevância na produção recente, a obra do diretor pernambucano se diferencia pela maneira engenhosa como constrói seu argumento acerca dessa violência, evitando o lugar mais comum (e mais fácil) que é justamente o registro direto dessa violência. Penso, por exemplo, nos Tropas de Elite. A narrativa inteira estava estruturada em torno da própria visibilidade da violência, num movimento que submete o espectador à uma espécie de catarse da força. As imagens eram violentas, intencionalmente violentas. Por mais paradoxal que seja, o efeito direto dessa forma de representação é a própria ocultação da violência. Ora, depois de uma sucessão de imagens sangrentas (ameaças físicas, ataques, assaltos, assassinatos, torturas), saio do cinema tomado por uma certeza: tudo o resto não é violência. Esse procedimento contribui, em especial, para afastar da narrativa cinematográfica qualquer tematização da violência difusa que acompanha a desigualdade social, tais como os pequenos desmandos do patrão sobre o empregado, das torturas psicológicas que rico impõe sobre o pobre, da violência que permite a demarcação simbólica entre as classes sociais, do isolamento, do medo da diferença, da preocupação constante com a própria segurança numa sociedade profundamente desigual. É justamente essa violência difusa que está no centro da narrativa de O Som ao Redor. No filme pernambucano, a violência não se mostra, ela é quase invisível. Sequência atrás de sequência, esperamos a irrupção dessa ação violenta, tipicamente cinematográfica. Porém, isso não ocorre. O medo e o estranhamento dos personagens só crescem ao longo do filme, mas essa tensão não se expressa no campo do visível. E para representar essa forma violenta de estar no mundo, o filme utiliza, de maneira extremamente hábil, os recursos sonoros. São eles que criam, no espectador, a sensação de sufocamento, de claustrofobia social que percorre o ambiente da classe média brasileira contemporânea. No filme, acompanhamos um grupo diversificado de personagens que vivem num bairro de classe média no Recife. Próximo ao mar, o local passa por um acentuado processo de verticalização e especulação imobiliária. Por isso, trata-se de um território no qual a nova classe média aflui, aproveitando do desenvolvimento econômico recente, em busca da afirmação do seu novo lugar social. Lá encontramos de tudo. A dona de casa alucinada e incapaz de dividir o espaço com seus vizinhos; os moradores de um condomínio luxuoso que se preocupam apenas em encontrar a forma menos onerosa de demitir um antigo porteiro; a advogada que destrata os funcionários; o rico garoto que vive furtando carros apenas pelo prazer da ousadia; o rico herdeiro que parece viver uma espécie de crise de consciência a respeito do seu lugar social, mas também incapaz de abandonar seus privilégios, entre muitos outros. Ao lado desses personagens das “classes altas”, encontramos também os personagens que representam o outro estrato social, os pobres. São as inúmeras empregadas domésticas que aparecem nas casas de quase todos os personagens. É o garoto pobre que é visto vez ou outra se esgueirando entre as árvores e as casas do bairro. O porteiro acusado de dormir em serviço, ou ainda os rapazes que manobram e cuidam dos automóveis na rua. Não existe nenhuma ambiguidade na forma como os dois grupos interagem, a diferença é sempre afirmada e reafirmada por meio dos gestos paternalistas, do desmando, da vontade autoritária, da humilhação, do grito, da desconfiança. O filme se estrutura a partir das inúmeras histórias que se constroem nessa interação desigual, mas existe também uma espécie de trama central que organiza a narrativa: aquela que envolve o grupo de seguranças particulares e o poderoso latifundiário do açúcar que é dono da maior parte das propriedades no bairro. Aproveitando o sentimento de insegurança e de preocupação difusa, manifestação típica de uma classe média incapaz de se relacionar com a diferença senão pelo signo da ameaça, um grupo de seguranças particulares decide começar a patrulhar as ruas do bairro, em troca apenas de uma quantia módica dos moradores. Nada mais natural, afinal. Para uma classe social que enxerga o mundo a partir da distribuição de bens privados (como na excelente cena da chegada das duas televisões que potencializa a disputa entre as duas vizinhas), nada melhor do que a adoção de um sistema de segurança particular, com seus patrulheiros, suas grades, câmeras e alarmes. Estes patrulheiros, porém, sabem que precisam da anuência e da autorização do potentado local, o velho senhor de engenho precisa concordar com a ação de novos capangas em seu território. Nesse cenário, encontramos uma espécie de atualização da herança senhorial – com seu mundo de justiça privada, no qual é a vontade do senhor que estabelece o que pode e o que não pode ocorrer – na sociedade brasileira contemporânea. Não é por acaso que a sequência de abertura realize justamente uma espécie de justaposição desses dois universos. A série de fotos do passado senhorial é sucedida pelo movimento no playground de um desses condomínios de luxo tão comum nas cidades brasileiras. A classe média aparece como a manifestação renovada desse ideal senhorial que vem moldando nossa sociedade. Essa sensação de mudança que não muda vai se potencializando ao longo do filme, até atingir seu ponto máximo na sequência final, justamente o confronto entre os capangas e o senhor do açúcar. Numa ordem privada, na qual a força do Estado nunca se faz presente (salvo engano, em nenhuma passagem do filme, encontramos qualquer sinal ou referência a um agente público), a vingança aparece como a única possibilidade de reparação de qualquer injustiça. São inúmeras as referências dessa vingança como elemento de “justiça”, desde o ínfimo ato de riscar o carro da mulher que destrata o manobrista até o supremo gesto de devolver a ofensa com a morte, no caso dos seguranças e do potentado local. O espírito de retaliação é o elemento mais característico dessa violência invisível que percorre o tecido social. A percepção de que inexiste qualquer possibilidade de reparação das desigualdades sociais está presente no universo de todos os personagens. É isso que estimula o temor das “classes altas” e fortalece o ódio e o desejo de vingança das “classes baixas”. E no final, essa violência invisível, mas não silenciosa, emana de uma questão fundamental: uma disputa de cercas. A cerca como o signo máximo da desigualdade social, da separação entre proprietários e desvalidos. Toda a violência que percorre nossa sociedade parece remontar para esse fato decisivo, a profunda desigualdade que se faz presente nas relações sociais. No final das contas, é como se a ascensão da nova classe média fosse apenas uma espécie de potencialização dessa desigualdade violenta, tensionando ainda mais a vingança como instrumento de ajuste social. O filme capta, em todos os seus movimentos, esse temor difuso que assola o imaginário da classe média diante da possibilidade de uma revolta das “classes baixas” numa sociedade na qual o Estado simplesmente não funciona como instrumento de justiça. Tal leitura de nosso presente carrega uma grande dose de pessimismo, porém não deixa também de se constituir numa leitura potente das transformações sociais dos últimos anos. É como se o filme questionasse o real alcance dessas transformações, que no fundo não conseguem desarticular o horizonte senhorial que percorre nossa história.

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