Onde Vivem os Monstros de Spike Jonze

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Não é raro o desconforto com a tradução de títulos de filmes, geralmente os tradutores dão grandes contribuições ao absurdo, fazendo escolhas absolutamente diferentes das originais. Onde Vivem os Monstros parece não ter sido vítima desse tipo de criatividade. Porém, há uma diferença sutil no título original: Where the Wild Things Are. O problema é que, muitas vezes, o essencial da língua reside na própria sutileza. Uma tradução bem literal seria “Onde as Coisas (ou criaturas) Selvagens estão”. Meio tosco e feio. Ficaria melhor “Onde estão os selvagens”, ou mesmo “Onde vivem os selvagens (ou as criaturas selvagens)”. O problema certamente não é o verbo. O adjetivo Wild, segundo o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary, significa incontrolável, violento, extremado, mas também descreve plantas ou animais que crescem incivilizados, longe das pessoas e das suas disciplinas. Em português, a palavra selvagem tem um significado bastante parecido. O Houaiss nos explica que o selvagem é aquilo que “se manifesta numa natureza não civilizada; que habita as selvas, que vive longe dos aglomerados de pessoas civilizadas; que nasce ou se desenvolve de forma indisciplinada ou sem controle, sem regras, sem orientação prévia”. Olha que curioso: selvagem é o oposto de monstro, pois o mesmo dicionário mostra que este é um “ser disforme, fantástico e ameaçador; qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade”. O monstro é o antinatural por excelência. É aquilo que não reside na natureza e, por conseguinte, é aquilo que não reside na própria humanidade. Já o selvagem é algo inerente à natureza e ao homem, ainda que possa ser domesticado com o processo de civilização. O que parecia banal, trocar o selvagem por monstro, acaba deslocando o problema central do filme, qual seja, o caráter selvagem dos nossos sentimentos. A trama conta a história de Max, um menino muito travesso e um tanto solitário. Parece que ninguém pode compreendê-lo: a irmã não liga para suas brincadeiras e nem o protege do mundo exterior; a mãe está sempre cheia de afazeres e trabalho, quase não tem tempo para cuidar dele. Sozinho, Max parece pronto a explodir, naquele típico gesto de quem quer chamar a atenção alheia. E a gota d’água é quando sua mãe convida o namorado para jantar em casa: o menino, tomado pelo ciúme, faz o maior alvoroço, grita, corre, morde e foge de casa, quando vai parar na terra das criaturas selvagens. Mais do que monstros, o que estes representam é uma grande metáfora da inconstância dos sentimentos. Eles são absolutamente volúveis, explosivos, violentos, mas também apaixonados, possessivos, ciumentos, carinhosos. Há uma espécie de pêndulo nas suas ações, ora repletas de uma docilidade carinhosa, ora absolutamente destrutivas e ameaçadoras. Essa inconstância transforma as criaturas numa espécie de espelho do próprio Max, na medida em que eles agem quase como crianças, incapazes de moderar seus sentimentos, de lidar com o excesso. Esse agir no excesso acaba tornando a convivência entre as próprias criaturas algo insuportável. O que eles esperam é a chegada de um rei, alguém capaz de governá-los, para que todos possam viver juntos. Na impossibilidade de interiorizar um governo de si (nada mais do que a boa e velha disciplina), eles precisam de alguém cheio de poderes, capaz de restabelecer a harmonia perdida. O problema é que Max, ele mesmo uma criança, não dispõe de poderes para estabelecer esse governo, sua presença serve apenas para aumentar o descontrole e o sofrimento. É isso que torna o filme profundamente triste: há sempre algo essencialmente incontrolável nos sentimentos das criaturas, o que lhes impede de anular o conflito, o que lhes afasta e lhes torna criaturas solitárias. Só que as criaturas nada mais são do que um espelho do próprio Max. Estar diante delas significa um confronto constante consigo mesmo, uma descoberta da selvageria insuperável. É por isso que o filme não pode tratar de monstros, pois isso significaria uma relação de alteridade radical, não se estabeleceria essa relação especular, as criaturas nada representariam para o menino, e nem para nós. Além disso, felizmente, o filme escapa de uma moralização fácil, as criaturas não são monstros, não são malignas, elas apenas sentem as coisas no extremo. A viagem de Max acaba ganhando um sentido formativo, uma jornada de descoberta, na qual ele encontra nos outros a mesma confusão e dor que sente, quase como um rito de passagem, onde ele aprende um pouco como lidar com sua própria selvageria.

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7 Comments to “Onde Vivem os Monstros de Spike Jonze”

  1. mariana disse:

    Querido,

    Eu gostei tanto do seu texto…é o melhor em décadas! Acho que você conseguiu explicar com suas belas palavrinhas por que achei tão insuportável, no sentido de ser difícil de ver, esse filme.

    beijo de monstro

  2. André PiJaMar disse:

    Sua análise é fantasticamente espetacular…
    Senti a mesma coisa que a Mariana, ao ler seu texto ficou bem mais claro porque o filme me atingiu e incomodou tanto. Obrigado =D

  3. Leandro disse:

    Querida,

    Fico feliz que gostou, os monstros realmente são muito tristes, não é um filme fácil de ver.

    beijo de monstro

  4. Leandro disse:

    Valeu André. Fico muito feliz que você também gostou do texto. Um abraço.

  5. Monike Mar disse:

    Oi, Leandro,

    somente hoje vi seu comentário no meu blog. Agradeço e digo o mesmo. :)

    []s

  6. Cadú disse:

    Olá Leandro!
    Somente ontem pude assistir a este belíssimo filme. Há muito não vivenciava algo assim e decid escrever a alguns amigos recomendando o filme. Lembrei-me que você também escreveu sobre o assunto e ressolvi conhecer outra leitura para o longa metragem. De fato a mudança na tradução fecha algumas possibilidades de diálogo com o filme. Após ler sua análise pensei em rever o drama para observar outros aspectos. Digo isso por ter feito uma leitura baseada nas relações entre os seres alí discriminado ao invés de centrar na relações dos ser com a inconstância dos desejos e necessidade explicitadas. GOstei muito de seu texto.
    Trago abaixo a forma como lí o filme de Jonze.

    "Ontem acabei conhecendo um filme excelente e gostaria de recomendar. Trata-se de uma história de um grande personagem chamado Max que não entende o que lhe passa e age violentamente e solitariamente sobre o mundo. Max exila-se em uma ilha e conhece uma série de figuras assustadoras, com forças desproporcionais e solitárias. Estas figuras destroem-se fisicamente e psicologicamente e na tentativa de resolver o problema elegem Max seu novo rei. O problema é que Max é apenas uma criança. O menino passa então a tentar administrar os problemas de todos e através de uma das fotografias mais bonitas que já vi passa a percorrer os desertos que separam os encontros dos monstros, seus desejos e sonhos. O filme continua com a necessidade extrema de manter a existência de um rei que possa determinar o que serão e como serão suas rotinas, assim como a possibilidade da felicidade. Mas Max é uma criança e não domina a situação. O filme ganha mais força ainda na medida em que os tristes monstros definem-se nessa suposta igualdade da solidão e da incompreensão. Quero preservar nesse breve texto o final que é simplesmente o MAXimo.
    Tratemos dos monstros. O filme que descrevo denomina-se “Onde vivem os Monstros”. Delicado, emocionante, o longa versa sobre as nossas relações. Figuras desmedidas que não desconfiam da força que tem e dos estragos que fazem".

  7. Renata disse:

    “Onde vivem as criaturas selvagens” une os sentimentos que temos todos e os separa personificando cada um, Carol, K.W e etc. mostrando os exageros.
    A cena que marca é a final que a mãe observa Max com doçura, apesar da fuga e desaparecimento do menino, porque ela entende os sentimentos dele, uma esfera de cumplicidade.
    Seu texto é ótimo! Dessa vez não esmiuçou a trama com sua característica delicadeza, mas demonstrou a doçura onde outros veriam a contrariedade.

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