Orly de Angela Schanelec

0

As mostras de cinema podem nos revelar grandes surpresas, tanto positivas quanto negativas. Já tive algumas experiências terríveis, mas também consegui ver ótimos filmes, dos quais não sabia nada ou quase nada. Foi neste espírito que resolvi assistir Orly da diretora alemã Ângela Schanelec no excelente Festival de Cinema Independente que está acontecendo no Cinesesc em São Paulo. Não sabia nada a respeito da diretora, apesar de já ter dirigido um número razoável de filmes. E para minha grata surpresa, Orly é um filme muito interessante. A trama é muito simples, acompanhamos os encontros e os diálogos de alguns personagens que passam pelo aeroporto de Orly, na capital francesa, durante uma manhã. Dois parisienses expatriados começam uma conversa casual sobre suas vidas e seus projetos; uma mãe e um filho, que seguem para o enterro do ex-marido e pai, falam sobre suas vidas sexuais; um casal de namorados alemão, em viagem de férias, gasta o tempo aguardando o momento do vôo. Nesses diálogos nada acontece, são situações desprovidas de sentido ou significação, trata-se apenas do livre desenrolar de um tempo morto e vazio. Essa situação vai criando um profundo mal-estar, uma crescente expectativa de um encontro significativo, de algum acontecimento que possa desfazer aquela quietude, introduzir alguma ação na vida daqueles personagens. Porém, nada acontece, tudo segue sempre no ritmo do imobilismo, numa passividade assustadora. Na realidade, acontece algo que perturba a ordem daquele universo: a polícia cerca o prédio, insinuando algo como uma ação terrorista ou alguma ameaça, e todos precisam abandonar o aeroporto. O ritmo da espera é quebrado apenas por um gesto de força, uma ameaça. Dessa maneira, podemos pensar o filme como uma bela metáfora da sociabilidade contemporânea. E para isso, vou lembrar rapidamente uma ideia muito interessante formulada por Jurandir Freire Costa, num texto intitulado Não mais, não ainda. Segundo ele, é no intervalo entre o não mais(o efeito do passado sobre o presente, a recordação) e o não ainda (o efeito do futuro sobre o presente, a expectativa) que podemos encontrar um espaço para o agir sobre o mundo. É esta ação que pode inserir na tranqüila ordem do hábito (o oposto do pensar e do compreender; não pensar é entregar-se ao hábito no qual radica a banalidade do mal, ideia que ecoa com força a herança arendtiana do pensamento de Freire) um acontecimento, capaz de reintroduzir uma potência que do contrário se torna vazia e morta. A condição daqueles indivíduos, que vagam pelo aeroporto apenas esperando, é tão angustiante justamente por isso: não há um espaço para ação, a disjunção entre o não mais e o não ainda se desfez completamente, na pura manifestação do hábito que não se rompe mais. Ora, o esvaziamento desse espaço de ação cria também um vazio político, afinal o próprio da política é a ação sobre o mundo, a decisão de transformá-lo, e, sobretudo, de devolver ao acontecimento toda sua potência subversiva. Quando essa possibilidade de ação se encontra totalmente esvaziada, nada resta senão a dimensão policial da política: a gestão da vida cotidiana, nos seus aspectos mais ínfimos e microscópicos, pelos desígnios da polícia. Assim, Orly é um filme que fala da política através da banalidade do cotidiano, ou melhor, reflete como a banalidade desses tempos mortos, dessa espera passiva, se converteu no aspecto mais relevante da política contemporânea.

PS: O filme está passando no Festival de Cinema Independente (http://www.indiefestival.com.br/indie2010/sp/), mas não tenho notícias se entrará no circuito comercial. O jeito é ficar na torcida, ou pesquisar na internet em busca de uma versão digital.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.