Os Amantes de Louis Malle

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O tema do adultério é um dos mais recorrentes no cinema. Essa recorrência, como não poderia deixar de ser, resulta numa repetição exaustiva e desgastada. É difícil escapar dos clichês e dos lugares-comuns, os quais sempre resvalam no mais tosco moralismo. Um exemplo claro disso é o péssimo Partir. Felizmente, vez ou outra aparece um grande filme que consegue escapar dessa repetição de morais entristecidas. É por isso que Os Amantes, do diretor francês Louis Malle, merece ser visto e revisto. O filme já é um pouco antigo, mas conseguiu arriscar-se muito mais do que a maior parte da produção contemporânea. Nele não há nenhuma preocupação em sustentar um discurso moralista ou conformista, mas sim uma espécie de celebração da força afirmativa da alegria. O filme conta a história de Jeanne, uma jovem mulher casada com o dono de um importante jornal do interior da França. Os negócios de seu marido tomam todo seu tempo, o que transformou o casamento de Jeanne numa experiência tediosa e solitária. Para escapar do marasmo, ela viaja à Paris, onde mora sua amiga Maggy. No meio da alta sociedade parisiense, Jeanne tenta preencher o entendiante vazio provocado por seu casamento. Assim, acaba conhecendo Raoul Flores, um charmoso jogador de pólo. Não tarda para os dois tornarem-se amantes, o que a leva com cada vez mais freqüência para Paris. Ainda assim, o desassossego não passa e Jeanne segue com sua vida melancólica de sempre. É um golpe da fortuna que vai desarticular esse estado das coisas. Após ser obrigada por seu marido a trazer Raoul e Maggy para um jantar de final de semana, Jeanne encontra-se, após um pequeno acidente na estrada, com Bernard, um jovem estudante de arqueologia. Impossibilitada de seguir viagem, Jeanne acaba aceitando a proposta de carona oferecida pelo desconhecido. Assim, ambos seguem até sua casa e o jovem se vê obrigado a permanecer para o jantar. É nesse meio, quando Jeanne se vê diante de seu marido e seu amante, que as coisas começam a se iluminar. Ela finalmente toma consciência da profunda similitude entre os dois, a existência triste ao lado de seu marido não faria senão reproduzir-se ao lado do amante. Ambos carregam a tristeza própria das existências importantes, das existências apagadas e desvitalizadas pelas convenções e pelos bons modos. E o mais importante, ambos são incapazes de afetá-la com alegria, de provocar-lhe o riso. Ela se confronta com homens do ressentimento, para quem qualquer tipo de felicidade é uma ofensa, que fazem da miséria ou da impotência sua única paixão. Diante dessa vida falsificada, Jeanne percebe que tudo que lhe resta é afastar-se, antes que ela mesma aprenda a cultivar apenas o seu próprio ressentimento. E a possibilidade de fuga, de dar um novo impulso para sua própria existência, aparece ao lado de Bernard. Ele é absolutamente diverso daquele mundo que a circunda, ele é capaz de fazê-la rir, rir com entusiasmo e alegria. A potência desse afeto é tal que dobra Jeanne quase instantaneamente. É quando tem início a seqüência mais bela do filme, os dois se encontram no jardim, ao cair da noite, e começam a experimentar juntos a alegria dos amantes. Vale dizer, inclusive, que por conta de uma das cenas dessa seqüência, o filme foi censurado em toda parte, inclusive no Brasil. Nada horroriza mais os homens do ressentimento que um gesto afirmativo de alegria e contentamento. Jeanne é confrontada com dois caminhos: de um lado, uma existência segura e burguesa, imersa no luxo das riquezas, mas apagada e triste; e uma outra totalmente incerta, mas na qual a possibilidade da felicidade ainda não se apagou. Trata-se, portanto, de uma escolha ética. Como disse Deleuze, a propósito de Espinosa, quando encontramos um corpo exterior que não convém ao nosso, tudo ocorre como se a potência desse corpo se opusesse à nossa potência, operando uma subtração, uma fixação: dizemos nesse caso que a nossa potência de agir é diminuída ou impedida, e que as paixões correspondentes são de tristeza. Mas, ao contrário, quando encontramos um corpo que convém à nossa natureza e cuja relação se compõe com a nossa, diríamos que sua potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são de alegria, nossa potência de agir é ampliada ou favorecida. É o conjunto dessa teoria das afecções que estabelece o estatuto das paixões tristes. Sejam elas quais forem, justifiquem-se como se justificarem, representam o grau mais baixo de nossa potência (…). A Ética é necessariamente uma ética da alegria: somente a alegria é válida, só a alegria permanece e nos aproxima da ação e da beatitude da ação. No momento em que Jeanne decide partir com seu amante, ela escolhe o caminho das paixões alegres, abandonando aquela existência de padecimentos, em busca de uma de atividade e de uma ação totalmente nova. Por isso, é uma decisão não apenas afetiva, mas ética. A grandeza do filme de Malle é justamente não anular a força do gesto de Jeanne com um moralismo parvo e ressentido. O desejo de alegria, de escapar de uma existência vazia de potência, não é culpabilizado, não sofre uma punição, não é transformado em algo negativo. Ao contrário, é o único caminho possível para algo que nos aproxime da felicidade.

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4 Comments to “Os Amantes de Louis Malle”

  1. Djabal disse:

    Quando surge um estudante de arqueologia nós já ficamos à espreita de que: "alguma coisa acontece em meu coração"…
    No mais gostei da abordagem, e verei o filme. Obrigado.

  2. babi disse:

    Interessou-me o filme, sobretudo pela sua introdução criticando "Partir", um dos filmes mais sem graça que vi atualmente.

  3. Leandro disse:

    Olá Djabal, fico feliz que tenha gostado. Assista sim, o filme é muito bacana, vale muito a pena. Um abraço e volte sempre.

  4. Leandro disse:

    Olá Babi, pois é, eu detestei o Partir, um filme sem graça e moralista. Os Amantes é totalmente o inverso disso, um grande filme e muito bonito. Ah, gostei bastante do seu blog. Bem, volte sempre e um grande abraço.

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