2

Danilo Ferreira de Camargo

Leandro Calbente Câmara

Os famosos e os duendes da morte, do estreante Esmir Filho, é mais um filme sobre os conflitos de uma geração que já nasceu na frente do computador. O protagonista é um adolescente de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, que divide seu tempo entre a escola, as conversas com seu melhor amigo, os poucos diálogos com sua mãe e as muitas horas na internet. Valendo-se de uma história simples, a película de Esmir Filho tenta “biografar” esse indivíduo profundamente cindido entre as possibilidades da comunicação do “mundo virtual” e as paredes apertadas das instituições tradicionais. Nesse ambiente claustrofóbico, tudo cheira a decadência. A sua família se resume à mãe (que depois de viúva vive conversando com uma cachorrinha) e aos avôs alemães. Não há possibilidade de diálogo entre eles. Com a mãe, o menino estabelece apenas conversas burocráticas. No mais, só silêncios e incompreensões. Diante dos pedidos recorrentes da mãe para que ele visite o túmulo do pai, o menino responde: “O velho já apodreceu e tu ficas querendo fazer visita”. Para o personagem é muito claro que não há mais ligações nem com uma memória moribunda nem com um futuro outrora tão previsível da continuidade familiar. Em uma rápida visita aos avôs, uma cena emblemática: o avô se aproxima do neto, observa-o atentamente, mas nenhuma palavra é trocada entre os dois, como se ambos soubessem que qualquer tentativa de comunicação seria inútil.

Na escola, as coisas não são muito diferentes. Só o tédio habitual dos rituais pedagógicos. Durante uma prova de Química, a câmera passeia pela sala capturando o olhar do personagem. Ele observa os alunos enfileirados que tentam reproduzir as verdades decoradas ou “coladas”. A professora, vigiando estática, é o símbolo da melancolia. O menino olha tudo isso com indiferença e apenas desenha no papel antes de sair da sala.

São com essas cenas fragmentadas – mas muito simbólicas – que o cineasta constrói os dilemas e as angústias do adolescente com a cidade em que mora. Um local carregado daquela monotonia característica das regiões interioranas onde nada acontece. Os únicos eventos que interrompem o marasmo dessa colônia de europeus no sul do país é a Festa Junina e os recorrentes suicídios dos moradores. O suicídio, aliás, é o elemento que dá tensão e coesão aos fatos narrados. Há uma extrapolação generalizada da “pulsão de morte” naqueles indivíduos. Num diálogo central para o desenvolvimento da trama, os dois amigos conversam sobre a ponte onde uma mulher acabou de se jogar. O protagonista olha para o abismo e repete a clássica frase: “alguma coisa nos puxa”.

Como linha de fuga dessa sociabilidade monótona e suicida, o protagonista se vale da companhia do amigo, da paixão pela música (particularmente Bob Dylan) e, sobretudo, da sua escrita na internet com o sugestivo apelido de Mr. Tambourine Man. No compartilhamento virtual de sua literatura, ele tenta construir, ou re-construir, a relação com uma misteriosa garota que já está muito distante. Mas isso não é problema. “Estar perto não é físico”, ele escreve em seu blog.

Um dos méritos do filme é justamente tentar refletir um pouco sobre o papel dos espaços virtuais nas práticas de subjetivação contemporâneas. O desassossego do protagonista é sua maneira de resistir/negar um mundo profundamente territorializado (com suas clássicas instituições: a escola, a família, a festa junina), no qual não há espaço de afirmação ou de criação. Se existe alguma possibilidade de gesto afirmativo, esta se dá apenas na imaterialidade do mundo virtual.

Essa tentativa de refletir sobre a contemporaneidade, porém, cria um mal-estar na crítica. Não é difícil encontrarmos comentários e interpretações que enxergam na postura do garoto simplesmente uma fraqueza, uma celebração da morte ou um abandono do mundo. Parece que “viver” significa simplesmente interiorizar as rotinas disciplinares e o marasmo da sociedade interiorana, aceitando alegremente seus ritmos lentos e burocráticos, seus hábitos estéreis e circulares. Não há outras possibilidades, nem outras potencialidades. Essa perspectiva enxerga a recusa em participar desse mundo estável e ordenado como algo absurdo, uma espécie de deserção da própria vida.

Ora, é justamente o contrário. Pensar o mundo contemporâneo, como propõe o filme, exige outro olhar. E esta outra perspectiva passa necessariamente pela desnaturalização disso que chamamos de vida, de relação com o mundo e com o outro. Não adianta mais ficarmos repetindo o lamento sobre a “sociabilidade perdida” do mundo dos nossos avôs. Será mesmo que a dita “vida real” naquele mundo quase caduco ainda guarda alguma intensidade? Será que a recusa de seguir “vivendo” naquela rotina desvitalizada não pode ser um gesto potente de afirmação da vida?

Isso não significa, evidentemente, celebrar a virtualidade como se fosse a única maravilha capaz de libertar o sujeito de uma sociabilidade moribunda. O que está em jogo, e isso fica muito claro no filme, é como a internet provoca uma redefinição profunda na constituição de nossa interioridade. Essa redefinição abre um novo campo de possibilidades, de potencialidades mais ou menos intensas, mas que ainda estão por ser exploradas. Em certo sentido, é isto que o filme propõe.

Fiel a esta perspectiva, parte importante da trama se desenvolve por meio das interações do protagonista com o ambiente virtual. É por meio do seu blog e alguns diálogos que vamos, aos poucos, nos familiarizando com as imagens da garota misteriosa, sempre apresentada numa mistura de lembranças, imaginações e vídeos caseiros. Essas imagens também envolvem um indivíduo que volta à cidade depois de algum tempo e vive meio marginalizado, pois por trás dele está o “mistério” do enredo. No cruzamento da realidade com essa ambiência mais onírica, ou ficcional, o cineasta vai revelando detalhes importantes dos personagens, fazendo-nos entender o que de fato aconteceu, e fornecendo, assim, as possibilidades que se abrem ao protagonista: saltar da ponte ou voar para longe.

Uma outra qualidades de Os famosos… é a tentativa de misturar o cinema com outros formatos que estão cada vez mais freqüentes no cotidiano dos adolescentes como os vídeos publicados no Youtube e os bate-papos da internet. Tudo isso acompanhado de uma bela trilha sonora que dialoga diretamente com os fatos narrados e com a constituição do protagonista. Ao final, talvez fique a sensação de que Esmir Filho ficou no meio do caminho entre a radicalização de um cinema mais híbrido e experimental e uma narrativa mais ingênua e tradicional. De toda forma, é louvável encontrarmos na cinematografia nacional algumas experiências narrativas que tentam investir em dilemas simples de personagens e não em episódios e eventos já bastante desgastados como ditadura e violência urbana. Além disso, é importante que o cinema se inspire nessa nova adolescência, cujas experiências são cada vez mais desterritorializadas, mesmo estando “aprisionadas” nos rincões – e nas instituições – mais tradicionais de nosso país.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Os Famosos e os Duendes da Morte de Esmir Filho”

  1. Camila Fink disse:

    Muito pertinente a questão que você levantou sobre os formatos de vídeo… e do aprofundamento da questão da virtualidade como forma de sociabilidade.

    Fundamental que obras com linguagens diferentes apareçam na cinematografia nacional. Nosso cinema ainda é, em boa parte, contaminado com o formato televisivo das novelas…

    Tenho lido alguns textos seus, mas não comentei. Parabéns pela mudança do Ensaios (era diferente quando comecei a acompanhar)…

    Abraços!

    • Leandro disse:

      Uma das coisas que me parece mais importantes atualmente é justamente pensar a noção de virtual em nosso tempo. O impacto das redes sociais é muito grande, tanto do ponto de vista político quanto ético, e falta avançar a reflexão em torno da questão. Alguns filmes já esboçam isso, tomara que se torne um tema mais forte e mais amadurecido no futuro. Obrigado pelo elogio, não sei dizer se eram diferentes, mas alguns dos meus textos favoritos são os mais recentes. Um abraço. Leandro

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.