Os Sete Samurais de Akira Kurosawa

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Sete Samurais, talvez o filme mais famoso de Akira Kurosawa, é essencialmente uma reflexão a respeito da soberania no Japão feudal. [1]. A trama se desenrola num período de grande turbulência política e social. Não existem regras ou leis e a única coisa que organiza as relações entre as diversas comunidades é a força das armas [2]. O banditismo é um fenômeno comum: bandos saqueiam e aterrorizam as aldeias e os camponeses [3]. Este quadro configura muito bem aquilo que o filósofo Thomas Hobbes designou de estado de natureza, ou seja, um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem e todos vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força.

No meio de tanta desordem, conhecemos uma pequena e pobre vila que se tornou vítima sistemática de um enorme bando de salteadores. De tempos em tempos, estes bandidos atacam e cobram uma espécie de tributo, um tributo ilegítimo e compulsório, que só faz aumentar a fome e a miséria dos aldeões. Na iminência de um novo ataque, a vila fica polvorosa e todos se reúnem para discutir o que fazer.

Os aldeões encontram duas possibilidades, uma delas é continuar na passividade costumeira e implorar alguma clemência dos bandidos; a outra é resistir e tentar matar os agressores. A segunda opção é a melhor, só que eles não sabem lutar e não possuem armas, como conseguiriam vencer os bandidos? É nisso que aparece a figura do ancião, uma espécie de autoridade dentro da comunidade. Ele propõe algo que parece uma loucura, mas é a única chance de salvar o povoador: contratar um bando de samurais para massacrar os invasores.

Num primeiro olhar, a ideia não parece nenhuma loucura, mas então o que provoca tanta resistência entre os moradores? É justamente porque ela introduziria uma nova ordem política dentro da comunidade. Até então, os camponeses viviam num universo que poderíamos chamar de tradicional (apesar dessa palavra ser péssima e usada em mil situações totalmente diversas), no qual a autoridade não estava assentada no uso da força, mas no diálogo consensual e também no respeito à tradição, encarnada na figura do ancião. Isso não significa que entre eles não existia relações de poder ou assimetrias sociais, mas tão-somente que estas funcionavam numa lógica não-militarizada e cindida (aqueles que mandam separados daqueles que obedecem), por conseguinte a hierarquia social era menos acentuada.

A vinda dos samurais provocaria uma inovação significativa, afinal eles trariam armas. A autoridade destes não seria mais baseada em princípios carismáticos ou tradicionais, mas apenas na lógica da guerra: todos deveriam obedecê-los para garantir a vitória contra os bandidos. Nesse sentido, a autoridade se converteria num elemento exterior ao tecido social, criando uma cisão clara nas relações de autoridade. E depois que os inimigos forem derrotados, quem desmanchará essa nova autoridade? É esse o grande dilema no qual a comunidade se encontrava. Ainda assim, o velho ancião lembra que os bandidos são como lobos, você dá o braço e eles vão pedir a perna.

Logo, o povoado envia alguns representantes em busca de samurais que aceitem lutar pela miséria que eles podem pagar. Uma longa parte do filme gira em torno dessa busca por samurais dispostos a lutar por quase nada (na realidade, tudo é longo no filme, afinal são quase quatro horas de filme. Mas não custa lembrar que longo é diferente de cansativo, o filme é de um dinamismo impressionante), e no final eles retornam à aldeia acompanhados de sete bravos guerreiros.

Porém, logo que chegam, os samurais são surpreendidos pela recepção dos camponeses. A aldeia está deserta, todos estão escondidos, apavorados pela presença deles. A mera presença desses seres exóticos é capaz de perturbar a frágil ordem daquele mundo. Este estranhamento inicial, evidentemente, acaba sendo superado e os camponeses, acompanhados pelo ancião, aceitam com certa preocupação as ordens de Kanbê Shimada, o líder dos samurais. Se a ordem tradicional estava assentada numa espécie de consenso, agora as coisas não podem mais ser assim. As ordens são dadas e obedecidas, não mais discutidas ou negociadas. É a racionalidade da guerra que precisa ser respeitada por todos e é o líder guerreiro que a introduz.

A partir de então, todos deverão se mobilizar e compartilhar o esforço de defesa. Os guerreiros precisam organizar a construção de fortificações, o treinamento dos camponeses, as estratégias de combate, todo um dispositivo militar capaz de superar a dissimetria de forças (os bandidos são 40 enquanto os samurais são apenas 7). Nesse processo, não há espaço para lamentar os sacrifícios. Isso fica muito claro quando Shimada percebe que uma pequena parte da aldeia simplesmente não pode ser protegida e acabará sendo destruída pelos bandidos. Ele simplesmente comunica a todos que algumas casas e um moinho permanecerão desprotegidos e serão evacuados. Diante da resistência desses moradores, que decidem abandonar a comunidade e tentar se proteger sozinhos, a força se manifesta. Shimada os ameaça de morte, caso não participem da defesa e da luta.

É nesse ponto que as coisas ficam mais claras. Shimada apenas arroga pra si a soberania da comunidade. Isso significa duas coisas, primeiro uma separação: agora há aqueles que obedecem e são protegidos (ou seja, abrem mão das suas liberdades para poder viver em segurança) e aquele que mantêm sua liberdade, assegurando a defesa daqueles que a ele estão submetidos. Essa é a essência da soberania. Hobbes definiu as coisas nesses termos, soberano é aquela pessoa que pode usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. Em segundo lugar, essa proteção resulta numa tensão, qual seja, a proteção pode exigir a eliminação de algumas vidas. É a lógica do sacrifício: alguns poderão ser eliminados, desde que isso garanta a manutenção da comunidade. Nesse sentido, a figura do soberano surge como um dispositivo necessário para a sobrevivência, porém, paradoxalmente, implica também na criação de uma ordem de constante exceção, na qual qualquer um pode ser eliminado ou sacrificado. Como diria Foucault, a soberania funciona a partir de um deixar viver, fazer morrer.

É a partir desse dispositivo de segurança (materializado pelos preparativos bélicos conduzidos pelos samurais) que o filme chega ao seu grande momento: o combate final. A escaramuça é bastante emocionante, vale mencionar que existe nos filmes de Kurosawa uma estética de combate muito particular e diferente das formas hegemônicas de filmar a guerra e o enfrentamento. A participação de todos é decisiva, os samurais lideraram os camponeses e com auxílio de uma estratégia muito bem coordenada, os bandidos são massacrados. O fim da batalha, entretanto, implica numa verdadeira torção na lógica da soberania.

Apesar do sucesso da operação, Kanbê Shimada termina a batalha afirmando que os samurais, na realidade, foram derrotados. Um dos samurais permanece incrédulo e questiona tal afirmação. É quando Shimada responde: quem venceu não fomos nós, mas eles. E a câmera corta para os camponeses, que trabalham alegremente na colheita, agora salva dos bandoleiros. A torção é interessante na medida em que desfaz precisamente o nexo que estrutura a relação entre o soberano e os súditos.

É bastante conhecida a teoria da representação de Hobbes (na qual os súditos se tornam autores da pessoa fictícia, como um personagem, do soberano. É essa relação de autoria que justifica e legitima todos os atos soberanos, na medida em que todos os atos do soberano se tornam atos de seus autores), o que se passa aqui é um deslocamento: o soberano é obrigado a encarar a potência dos súditos, desfazendo o pacto fictício que os unia. A derrota dos samurais significa o retorno da autoridade à própria comunidade. É como se, no final das contas, houvesse uma possibilidade de recusa desse elemento originário da política moderna (a soberania). Esse gesto, uma espécie de transgressão, é uma forma de restituir a potência própria do político ao plano da multidão. E para isso, é necessário começar a pensar com novas categorias, que passem distantes da ideia de soberania, Estado, violência legítima, etc.

[1] Esta observação não é exatamente uma novidade. Basta lembrar do belo ensaio que aparecem em Diário de um ano ruim, do escritor sul-africano J, M. Coetzee, que interpreta o clássico kurosawiana a partir dessa perspectiva. O livro é espetacular e vale muito a leitura. Felizmente, é possível explorar na internet o primeiro capítulo da obra, justamente aquele que trata dessa questão:

http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/2479436.pdf

[2] Isso não significa que dentro das comunidades não havia regras, o que não existia era uma espécie de ordem política capaz de mediar as relações que extrapolassem o plano meramente local. Essa ordem é comumente denominada de Estado, mas a palavra não é muito adequada para o contexto. E quando digo que não existem regras ou leis é preciso compreender num sentido prático. De fato, há leis, mas simplesmente elas não são mais operacionalizadas. Não custa lembrar a conversa dos camponeses, bem no começo do filme, quando discutem a possibilidade de reclamar aos magistrados, porém a ideia é rapidamente descartada, afinal era consensual a inutilidade desse gesto.

[3] Os camponeses, quando podem, também se aproveitam do caos generalizado, atacando e saqueando samurais derrotados ou enfraquecidos.

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5 Comments to “Os Sete Samurais de Akira Kurosawa”

  1. Nelson L. Rodrigues disse:

    Adoro este filme, e seu seu blog também é muito bem feito.

    abraço

  2. Nelson L. Rodrigues disse:

    "Parabéns!
    Seu Blog é finalista para receber o Selo Ingmar Bergman! Veja as regras e o que foi dito a respeito nos links: http://filocinetica.blogspot.com/ ou http://cinebuli.blogspot.com/
    A premiação será dia 14/01/2011. Até lá.

  3. Leandro disse:

    Ah que bom que gostou do blog. Também gosto muito do filme do Kurosawa. Vou dar uma olhada nos sites de vocês, a respeito do regulamento, e depois entro em contato. Um abraço e volte sempre. Leandro

  4. Rafael Nobre de Lima Santos disse:

    Parabéns pela crítica, muito rica em todos os sentidos, não pare de escrever. Vou ler seu blog todo! Abraço

    • Leandro disse:

      Muito obrigado, Rafael. É um prazer tê-lo como leitor. Não vou parar de escrever, faz algum tempo que não escrevo nada novo, mas pretendo voltar a publicar em breve. Um abraço.

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