Pacific de Marcelo Pedroso

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O documentário Pacific, do diretor brasileiro Marcelo Pedroso, apresenta uma proposta bastante inovadora. É um filme que foi construído a partir de um material pré-existente, filmagens amadoras de vários passageiros de um cruzeiro de férias. Não houve nenhum registro da própria equipe do filme, nenhuma imagem que foi produzida visando a constituição de um documentário. O que há é apenas a seleção e o ordenamento de um conjunto variado de imagens produzidas para registrar os momentos íntimos de um grupo de turistas que aproveitam uma oportunidade de lazer e descanso. E o que vemos nessas imagens? Num primeiro olhar, vemos um retrato bastante peculiar da burguesia brasileira, numa viagem que parece bastante cara e luxuosa. No meio de tanto fausto, há sempre um esforço de deslumbramento, os passageiros tentam constantemente reforçar, tanto por imagens quanto por palavras, o quanto aquilo é impressionante, o quanto é impressionante a capacidade do dinheiro em comprar momentos únicos. Essa repetição é exaustiva, em inúmeras ocasiões as figuras filmadas dizem algo como eu posso, eu estou pagando. Além desse deslumbramento, somos bombardeados o tempo todo com o excesso, o kitsch ou aquilo que beira o vergonhoso. Da cena em que um casal imita a cena do Titanic ao musical com New York New York, vemos um desfilar de ornamentos que pretendem cumprir um papel cultural e formativo. Como diz um dos personagens, são momentos marcantes, inesquecíveis. O kitsch como um dispositivo transformador. Estas duas dimensões, o mundo da burguesia e o papel formativo do ornamento excessivo, poderiam resultar numa espécie de cisão entre o filme e seu público. Excetuando, é claro, a parcela do público que poderia se identificar com esse universo. No entanto, acontece algo bastante inesperado. Existe outra dimensão do filme, uma dimensão que se comunica com qualquer público, que escapa dessa análise sociológica classista. O que vemos, para além de um retrato cínico da própria burguesia, é uma reflexão sobre um tempo completamente vazio.  Os 80 minutos do filme são homogêneos e quase indiscerníveis, é como se não acontecesse absolutamente nada. As falas, as reações, as emoções, as imagens, tudo é muito parecido. Podemos sair do filme sem conseguir até mesmo diferenciar as inúmeras figuras que foram registradas pelas câmeras. Não há rupturas, nem cisões. Só uma repetição, o tempo do turismo aparece como a própria anulação do acontecimento. Até a parte final do filme, resta a esperança de que a chegada do cruzeiro na ilha de Fernando de Noronha pudesse introduzir um espaço de dissonância naquela ordem que acompanhamos exasperados. Porém, a chegada não muda nada. O vazio criado pela obrigação de contentamento, de aproveitamento integral de um tempo que está acabando muito rápido, continua predominando. Esse tempo vazio, porém, não é um privilégio de poucos endinheirados. O vazio nasce da própria condição dessas imagens, que tentam compartilhar uma espécie de felicidade absoluta, de existência que escapa do marasmo cotidiano. E não são apenas os ricos que se esforçam para compartilhar essa felicidade, mas todos fazemos isso. Filmando, fotografando, registrando. Preenchemos nossos álbuns com esses momentos. Todos parecidos, quase idênticos. Nessa fuga do tédio cotidiano, o tempo do turismo se converte no seu oposto, esvaziado de qualquer singularidade. É um pouco isso que vemos naquele cruzeiro, uma imagem de nossas próprias viagens. De viagens que parecem mortas.

PS: Numa atitude louvável, os realizadores do filme disponibilizaram na página oficial o filme inteiro para distribuição gratuita. É uma forma de ajudar na divulgação e na exposição desse belo filme. Seria bom se outros seguissem o exemplo de Pacific. O link é http://www.pacificfilme.com/#/filme/

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One Comment to “Pacific de Marcelo Pedroso”

  1. Concordo exatamente com essa abordagem de um autoretrato de uma classe social brasileira burguesa e emergente que soam tão vazios e bobos em seu próprio mundo de maravilhas (não à toa o destino é Fernando de Noronha). Só acho que o filme estabelece essa ideia já na sua metade, e só resta reiterar essa mesma ideia até o fim. Mas lendo sua análise, percebo como essa chegada é importante para reforçar essa reiteração do vazio, agora coletivo. De qualquer forma, é uma jornada interessante do ponto de vista da construção narrativa fílmica, algo que tem sido muito experimentado no cinema brasileiro recente.

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