Partir de Catherine Corsini

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O filme Partir, da diretora francesa Catherine Corsini, é irritantemente óbvio. Cheio daquelas cenas que logo no início já sabemos o final. Sem surpresas, sem deslocamentos, é um filme essencialmente moralista. Conta a história de Suzanne, uma não tão jovem mulher casada com um rico e influente médico (Samuel) no sul da França. Seria óbvio dizer que ela é uma burguesa frustrada com seu casamento e com sua vida, mas é justamente nisso que o filme investe. Para tentar escapar de suas frustrações, ela decide voltar a trabalhar, é fisioterapeuta, mas não exerce sua profissão há mais de 15 anos. O problema, que surpreendente, é que ela se apaixona por Ivan, contratado para acelerar a construção da sua nova clínica. Ele é um espanhol cheio de mistério e sensualidade, todo oposto ao jeito asséptico do marido. Suzanne enxerga em Ivan o caminho para reintroduzir a vitalidade que perdera em sua vida. Porém, Samuel, o marido vingativo e ofendido, não aceita abrir mão da sua felicidade conjugal e usa sua força e influência para dobrar sua esposa e obrigá-la a retornar para a família. Há outros detalhes pouco relevantes para a trama, a reação dos filhos, o passado de Ivan, etc., mas tudo conspira com o óbvio e o já dito, por isso não afeta de maneira nenhuma a lógica central da trama: a impossibilidade de Suzanne recomeçar sua vida. Este é o elemento que organiza todo o filme. A vida asséptica, quase morta, tipicamente burguesa, a enredou de tal forma que nem mesmo a introdução de um desejo poderoso, sua paixão arrebatadora, é capaz de libertá-la. O que resta, após mais ou menos 80 minutos de sofrimento, é a imagem de uma mulher despida de alternativas, e nem seu ato final de violência consegue mudar isto. O desejo é absolutamente anulado. Nesse sentido, há um paralelo entre a visão que o filme expressa e suas escolhas estéticas. O grande risco de enfrentar um tema tão recorrente e onipresente, a traição como transgressão do matrimônio falido, é não conseguir escapar do vazio, do discurso moralizante e do lugar-comum. O filme de Corsini, ainda que não conscientemente, opta por um amontoado de imagens recorrentes, sem criatividade, sem vida. De maneira análoga ao personagem central, não há espaço para transgressões. Não há juízo mais justo para o filme do que um breve poema de Mario Quintana: “Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar”. A falta de coragem da diretora em arriscar-se, transformou seu filme numa das coisas mais moralistas do cinema recente.

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