Peggy Sue, a protagonista desse filme já antigo de Francis Ford Coppola, vive uma vida amargurada. Engravidou e casou muito jovem, com seu namorado de adolescência (Charles), o que lhe obrigou a abandonar muitas oportunidades e sonhos. Acabou constituindo a típica família burguesa americana, cheia de frustrações e arrependimentos. E o pior, depois de longos anos de casamento, viu seu relacionamento ruir quando seu marido a trocou por outra mulher. É nessa condição bastante desagradável que Peggy é convidada para o baile de comemoração dos 25 anos de formatura de sua turma do colégio. Na festa, ela reencontra aqueles com quem dividiu a juventude e suas expectativas de futuro, relembrando os bons momentos que parecem irremediavelmente perdidos no passado cada vez mais distante. No meio dessa onda de rememoração, Peggy sofre uma espécie de colapso nervoso, desmaiando no meio da festa. Por razões misteriosas, quando ela recupera a consciência, subitamente não se encontra mais no presente, mas retornou àquele passado ainda aberto e indefinido que antecedeu sua formatura. É a partir dessa situação insólita que Peggy pode enfrentar a disjunção criada entre suas expectativas do passado e a (ir)realização do presente. O retorno à juventude, inicialmente, parece permitir a superação dessa distância, na medida em que ela pode agora corrigir os “erros” que cometeu e tentar dar outro curso para sua vida. Ela acredita bastante que a fonte de todas suas amarguras é seu fracassado casamento. Sua meta, portanto, é se afastar do jovem Charles e experimentar novos caminhos e envolvimentos afetivos diversos. Há um esforço deliberado de reingressar no mundo, de se abrir para novos convívios, como aquele que trava com Michel Fitzsimmons, uma espécie de beatnik do colégio. Ela enxerga o rapaz como a única alma crítica da instituição, um apaixonado por poesia e literatura que vive imerso na contracultura da década de 1960. Peggy nunca escondeu que tinha uma quedinha por ele, por isso sua chance era preciosa. E de fato, ambos aproveitam bons momentos juntos. A abertura para novos devires – a fuga daquela existência esvaziada e determinada – surge diante de Peggy. Ela pode desistir de todos seus compromissos, suas obrigações, seu futuro burguês. Pode até mesmo fugir com seu amante levemente amalucado. A viagem no tempo, até esse ponto, aparece como uma metáfora do acontecimento, aquele gesto que pode romper a ordem normal do mundo. Ainda que seja apenas um delírio de uma Peggy convalescente, ela pode tatear a chance de subversão do próprio ressentimento. Superar o irrealizável através de novos possíveis, de novas potências. Entretanto, essa possibilidade é recusada. A trama segue outro caminho e apresenta uma solução bastante pífia e um tanto triste. Ao invés de lançar-se no imponderável, Peggy compreende que cometeu um grave erro. Suas frustrações eram apenas sentimentos passageiros e veleidades. Ela amadurece e se reconcilia com seu passado: assumir seu destino e seguir seu verdadeiro amor. Por trás desse desenlace, vai se constituindo uma noção de temporalidade alicerçada exclusivamente sobre a continuidade. É como se o passado, o presente o futuro se manifestassem a partir de uma dobra sobre si mesmos, construindo um tecido oculto que organiza e orienta as ações humanas. Não há abertura, nem espaço para descontinuidades. O que faz Peggy ser ela mesma é a longa história construída nesses anos todos. Romper com isso seria o mesmo que negar sua própria subjetividade. O tempo perde qualquer oportunidade para manifestações do singular, transformando a história numa sucessão de situações sempre idênticas. No final, a narrativa de Peggy acaba da forma mais previsível possível, qual seja, ela retorna ao seu tempo e pode finalmente se reconciliar com seu próprio vazio.

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