Pequena Miss Sunshine

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Pequena Miss Sunshine conta a história de Olive, uma garotinha que sonha em participar de um concurso de beleza infantil. O problema é que ela não é exatamente ajustada ao modelo típico desses concursos. Por isso, ela ensaia diariamente com seu avô a coreografia que pretende realizar na disputa. Sua família, tampouco, é a típica família de classe média americana. Seu pai tenta emplacar um projeto de auto-ajuda que é sistematicamente rejeitado pelo mercado motivacional. Seu tio é um notório especialista em Proust, mas perdeu seu emprego e tentou cometer o suicídio após um infortúnio amoroso com um de seus alunos. O avô é um dependente químico e não tem nenhum juízo. O irmão fez um voto de silêncio, motivado pelas suas leituras de Nietzsche. Finalmente, sua mãe tenta conduzir os conflitos familiares, mas não obtém muito sucesso. É toda essa trupe que embarca numa longa viagem, dentro de uma Kombi amarela velha e detonada, para que Olive possa alcançar seu tão sonhado objetivo. O interessante do filme, além da sua história cativante, é a maneira como constrói uma crítica do discurso motivacional e normatizante que permeia nossa sociedade. Olive é uma garota um tanto atrapalhada, um pouco gordinha, bastante infantil, nada de excepcional. Em suma, alguém em completa contradição com o modelo de subjetividade que é produzido pelos concursos de miss sejam aqueles voltados para mulheres, sejam aqueles voltados para crianças. Essa contradição é revelada pelas ações e palavras de seu pai, mesmerizado pela lógica de seu próprio projeto, o livro “nove passos para o sucesso”, recheado de idéias de superação, sucesso, obstinação, realização pessoal. Esse discurso é eficaz no seu objetivo, qual seja, a criação de uma normatividade do sucesso pessoal que pode ser alcançado por qualquer um, desde que se esforce o bastante para tanto. Aqueles que não o alcançam, portanto, são os únicos culpados pelo seu próprio fracasso. A crueldade dessa lógica é muito bem retratada na cena da lanchonete logo no início do filme, quando Olive pede um sorvete, mas seu pai logo a lembra que aquilo engorda e as candidatas a miss não são gordas. É esse discurso, que nem mesmo o pai de Olive consegue realmente seguir, que molda nossa subjetividade dentro de certos modelos, orienta nossa ação e seduz nosso desejo. O peso de não se enquadrar é forte demais e deve ser abraçado individualmente. Esse é o discurso dos “amoladores de facas”, tão disseminado, tão onipresente, é aquele discurso que tem uma intima comunhão com o ato genocida, pois é um discurso que retira “da vida o sentido de experimentação e de criação coletiva. Retira do ato de viver o caráter pleno de luta política e o da afirmação de modos singulares de existir. Os amoladores de faca são genocidas porque entendem a Ética como questão da polícia, do ressentimento e do medo. Não acreditam em modos de viver, porque professam o credo da vida como fardo ou dádiva”[1]. A normatização motivacional, o modelo do sucesso, esquadrinha nossos atos mais íntimos, introjetando em nossas ações uma vida esvaziada e vazia. No entanto, em Pequena Miss Sunshine, a inocência de Olive consegue dobrar a própria lógica da normatividade, escapando desse olhar domesticado e que consegue apenas julgar e enquadrar o que vê dentro de modelos fixos e sufocantes. Olive subverte o espírito do concurso de Miss e do discurso motivacional, mostrando tudo o que eles guardam de ridículos. Sua coreografia, completamente descabida e destoante de todo aquela encenação, desconstrói o modelo ultra-sexualizado de infância que é construído pelas pequenas candidatas a miss, levando-o ao extremo. Quando ela pratica tal ato, mostra a força da experimentação autêntica. Esse ato deslocado, não enquadrado, é capaz de esvaziar a força dos “amoladores de facas”, desarmando sua lógica e sua força. O problema é que nunca é fácil seguir esse caminho…

[1] L. A. Baptista, “A Atriz, o Padre e a Psicanalista – os Amoladores de Facas” em A cidade dos sábios. São Paulo: Summus, 1999, p. 49. Link para o texto em pdf – http://www.slab.uff.br/textos/texto95.pdf

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3 Comments to “Pequena Miss Sunshine”

  1. osrevni disse:

    Esse filme é maravilhoso. Definitivamente, a melhor comédia americana em décadas!

  2. Rodrigo Pereira disse:

    Oi, me chamo Rodrigo…
    gostei muito do seu blog, coloquei o link no meu blog com chamada de seus posts, ligando os dois.
    Gostaria de saber se tu autoriza!

    grande abraço…

    se quiser ver como ficou o link é esse:
    http://nemtudosobretudo.blogspot.com/

  3. Leandro disse:

    Diego,

    Concordo com você, o filme é genial!

    Rodrigo,

    Sem problemas, pode linkar meu blog no seu. Agradeço o interesse.

    Abraço

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