O mais novo filme da franquia Planeta dos Macacos, The rise of the Planet of the Apes é uma tentativa de reinício da série. Reinício nos dois sentidos. O primeiro, e mais coerente, o de contar uma nova história, mas mantendo-se fiel aos elementos centrais desse universo. O segundo, infelizmente, não tão coerente, o de reiniciar uma lucrativa franquia, já com a previsão de novas sequências. Nesse novo filme, a trama se desenrola em torno do surgimento dos primeiros macacos humanizados, que acabam se insurgindo contra o cativeiro imposto pela humanidade. O que chama atenção no filme – para além das entediantes cenas de ação, correria, saltos e lutas que tomam conta da narrativa a partir da metade final da história –, é justamente a reflexão sobre essa humanização dos macacos. Tudo começa com as tentativas de um cientista, Will Rodman, para encontrar a cura para o Mal de Alzheimer. Para isso, ele investe seus esforços numa espécie de terapia genética, tentando criar um vírus capaz de regenerar as células cerebrais, combatendo a doença e recuperando as funções cerebrais. É bastante relevante a escolha desse dispositivo genético como ponto de partida do filme. O que se passa é um verdadeiro esforço de transformação da própria animalidade do humano. A terapia genética aparece como uma técnica capaz de ultrapassar a condição animal, por conseguinte sujeita a deformações ou falhas, em favor de um novo estado de existência, um estado não-animal, portanto livre das deficiências que são próprias ao estado animal. No entanto, o campo de testes dessas práticas, pelo menos inicialmente, não é exatamente o corpo humano das cobaias, mas o corpo puramente animal dos macacos. E acontece algo bastante surpreendente, a nova técnica não só é capaz de regenerar as células cerebrais, mas realiza uma modificação completa no funcionamento cerebral dos macacos saudáveis. Eles se tornam mais inteligentes, capazes de desenvolver e dominar uma linguagem complexa e completa, aprender a manejar uma incrível quantidade de conhecimentos, mas também se organizar politicamente. Ainda que muitas espécies de macacos consigam, naturalmente, manejar parcialmente essas capacidades, os animais alterados vão muito além, rivalizando com a capacidade humana de organização e planejamento. Se a tradição filosófica ocidental sempre reservou ao humano a exclusividade da linguagem e principalmente da política, afinal nunca houve quem pensasse numa polis de animais, pode-se dizer, por conseguinte, que o vírus dá inicio ao processo de humanização dos macacos. As experiências científicas, ao mesmo tempo em que pretendem superar as deficiências animais dos humanos, possibilitam uma situação na qual a animalidade mesma dos macacos acaba domesticada em convertida em favor de sua humanização. Nesse caso, a terapia genética aparece como uma importante expressão das antropotecnologias, aquelas que são destinadas a dar forma, domesticar, modelar ou (e preferencialmente) dominar a própria animalidade constitutiva da espécie. O problema é que a mesma antropotecnologia que fora pensada como uma forma de aprofundar a cisão entre humano e animal, acaba se tornando uma verdadeira ameaça à condição humana do homem. A primeira coisa que os macacos humanizados percebem é o estado de sujeição ao qual foram colocados pelos homens. E contra essa condição, começa uma insurgência. Porém, a verdadeira ameaça não é propriamente a revolta dos macacos. Eles desejam apenas abandonar o mundo dos homens. A ameaça é a própria técnica de humanização, a terapia genética. O vírus que possibilitou o ingresso do animal na ordem do humano opera uma curiosa inversão no interior da própria humanidade, se tornando uma espécie de praga devastadora dos homens. Nesse sentido, o filme acaba se tornando a expressão bastante eloqüente de um discurso escatológico que enxerga no processo de humanização a própria possibilidade de anulação da existência humana. Como explica Fabian Ludueña, a politização da vida que deu origem ao devir histórico do animal humano, com suas complexas antropotecnologias que se estenderam até dominar completamente o ambiente, tornando-o progressivamente mais técnico, inevitavelmente artificial e humano, só pode conduzir a uma única via de saída, a extinção massiva do Homo sapiens, seguido pelo desenvolvimento de um novo ecossistema de vida que prescinda completamente dele. É na esteira desse mito-político que toda a trama do filme se organiza. Por isso, a revolta dos macacos aparece como uma espécie de distopia crítica, que se ergue contra uma espécie de fé messiânica nas possibilidades de superação da animalidade humana. Sabendo quais são, no interior do universo fílmico do Planeta dos Macacos, os desdobramentos dos acontecimentos que acontecem nessa obra (a plena dominação da Terra pelos macacos, que se tornam uma espécie de sucedâneo da comunidade política humana), percebe-se a coerência crítica da reflexão proposta nessa nova obra. Pena que ao invés de insistir nesse tema, o filme seja obrigado a repetir fórmulas comuns dos filmes de ação, com toda chatice que encontramos nas sequências de explosão e violência.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

6 Comments to “Planeta dos Macacos: a origem (The rise of the Planet of the Apes) de Rupert Wyatt”

  1. A parte da ação, acredite, em comparação aos outros filmes que sairam esse ano se torna o que podemos dizer, uma das mais bem construídas ou pelo menos uma das bem mais plausíveis desse ano. (tiro por mim por que fiquei empolgado pra caralho).

    Mas o real foco desse filme é essa questão do borde final do homem e do debate maravilhoso sobre a humanização/hominização que acontece ao decorrer da trama e a importancia que tem os personagens de Franco e Felton para Cesar.

    Além das inumeras referencias para a franquia original (seguindo os passos de Star Trek) o filme ganha pelo debate, a ação nesse filme talvez seja o reflexo da hominização do personagem, que por ter conseguido ser uma evolução literal, tinha que existir uma atitude simbolica de revolução …

    Abraços champeis!

    • Leandro disse:

      João, concordo com você. As cenas, quando comparadas com outros filmes, são muito bem feitas. Mas ainda acho um pouco chatas. E claro, há um sentido de revolução nelas. O problema é que a forma está totalmente dissociada do conteúdo nesse quesito. Não há nada de revolucionário na forma como a revolta é conduzida. Parece com muitos outros filmes do gênero. Com a única diferença que agora são os macacos que lideram a revolta. Enfim, apesar disso, achei o filme interessante.

  2. Acho que sou um dos poucos que não gostaram desse filme. Acho o desenvolvimento de Caesar muito bem trabalhado na história, mas todos os personagens humanos e suas motivações deixam a desejar por um roteiro óbvio, previsível e mal trabalhado. Daí, acho que o Andy Serkis é o maior mérito do projeto, muito embora o que o circunda e as voltas que o filme dá para chegar na revolução dos primatas são todas muito didáticas.

    • Leandro disse:

      Rafael, concordo com você quando diz que o filme é um pouco didático. Ainda assim, acho que a discussão proposta pelo filme é bem encaminhada. O maior problema é a obviedade das cenas de ação. Isso sim me incomodou um pouco. É um filme entre o regular e o interessante, mas poderia ter sido muito pior.

  3. Esqueci de comentar que para um blockbuster ter esse comportamento “revolucionário” mesmo que breve, soa como um grande choque, um outro ponto que tinha me esquecido de comentar.

    E vendo a franquia original e depois lembrando desse filme, só comprova uma tese já conhecida … que o novo filme é o retorno do que era mais fascinante dos filmes originais … o debate impar sobre a humanidade.

    Abraços champeis!

    • Leandro disse:

      Concordo com você. O novo filme retoma um tema bem interessante. Acho que é isso que salva o filme e evita a simples reprodução do que já tinha sido feito. Um abraço.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.