A Copa do Mundo de 2010, escrevo perto de seu fim (uma temeridade, vai saber o que vai acontecer nos dois jogos restantes), foi quase um não-acontecimento, tão desprovido de fatos singulares que foi. As partidas foram marcadas pela regularidade dos sistemas defensivos, pelas vitórias suadas e brigadas, pela reduzida importância do lance genial e do brilho individual. Mesmo os principais artilheiros da competição, por enquanto Villa e Sneijder, não realizaram nenhum lance especialmente antológico. A final expressa adequadamente o que foi toda a competição: dois times eficientes, mas de maneira nenhuma singulares. Houve, porém, um lance que salvou o evento da completa modorra: o não-gol da Inglaterra contra a Alemanha, aquela bola que cruzou a linha do gol, mas equivocadamente não foi validade pelo árbitro da partida. O erro reintroduziu no jogo, ainda que brevemente, algo que parece cada vez mais ausente: o imprevisível, o caótico, o imponderável. Vale a lembrança: a Alemanha vencia o jogo por 2 a 0, numa das melhores exibições da competição. Porém, a Inglaterra, repetindo o desempenho sem brilho de seus jogos anteriores, conseguiu diminuir a diferença. Logo em seguida, num lance de habilidade de Lampard, a bola cruzou a meta alemã, o que seria o empate da partida. O lance não era especialmente complicado, mas o juiz e seu auxiliar não enxergaram o gol, num erro simples, bobo talvez, mas que desequilibrou toda a harmonia da partida. O empate, provavelmente, traria o equilíbrio morno que a Inglaterra buscava impor. Com o erro, entretanto, o vento soprou a favor da Alemanha, que venceu a disputa por 4 a 1. Além disso, há que se acrescentar outro elemento para compreender melhor a importância do lance: muitos anos atrás, na copa de 1966, um lance muito parecido já havia ocorrido. Era a final da Copa, a Inglaterra jogava em casa e buscava seu primeiro título mundial contra a mesma Alemanha. A partida terminou empatada no tempo regulamentar. No início da prorrogação, a Inglaterra chutou a bola no travessão e repicou na linha do gol, provavelmente sem ter cruzado a linha. O juiz, porém, validou o gol que não existiu, abrindo caminho para a vitória inglesa. Dois lances separados por um longo intervalo de tempo, mas que se comunicam na sua potência desestabilizadora, numa espécie de devir intempestivo, singular e precioso. Não é de espantar que o lance tenha provocado uma intensa onda de críticas. Estas se levantavam contra a insistente possibilidade do erro em transformar o ritmo “natural” da partida, contra a sua condição essencialmente “injusta” e ameaçadora. Ora, para reforçar ainda mais a regularidade do futebol, dizem, é necessário introduzir mecanismos de controle mais eficazes: imagens de televisão, chips dentro da bola, sensores de todo tipo, etc. Tudo para garantir uma aplicação mais precisa das regras, evitando que qualquer elemento ameace o justo curso do jogo. Estes mecanismos introduzem uma nova lógica de aplicação da regra, na qual a utilização de fartos mecanismos flexíveis e moduláveis, que permitam a cada instante (ou pelo menos, a cada instante decisivo) a verificação da norma. Seria muito interessante inserir estes discursos numa lógica mais ampla, qual seja, o das mutações mais amplas do mundo contemporâneo, em especial no esgotamento da sociedade disciplinar, como trabalhado por diversos autores (Foucault, Deleuze, Negri e Hardt, etc.). Porém, não é exatamente isso que me interessa aqui. O que gostaria de chamar a atenção é como o erro apresenta uma profunda conexão com outra coisa que é fundamental para o futebol: o lance genial. Ambos são pura e simplesmente singularidades, manifestações poderosas da irregularidade, que podem introduzir uma diferença na mesmice do jogo. Acredito que seria um sério equivoco enxergar uma positividade no segundo e apenas uma negatividade no primeiro, pois ambos introduzem uma potência nova ao que está em curso. Existe uma poderosa metáfora do futebol que enxerga nele uma espécie de língua, que pode se manifestar como prosa ou como poesia. Em qualquer um dos casos, o futebol pode ser jogado como uma língua (e uma literatura) maior ou como uma menor. Como dizem, as línguas maiores são línguas de poder. São línguas de forte estrutura homogênea (estandardização) e centradas em invariantes, constantes ou universais. É preciso definir as línguas menores como línguas de variabilidade contínua. Uma língua menor só comporta um mínimo de constante e de homogeneidade. Mais e mais, o futebol é jogado na sua dimensão maior, o que importa é a eficiência da repetição, dos mecanismos que garantam o controle do jogo e de suas imprevisibilidades. O risco precisa ser minimizado e evitado. Por isso, um lance como o não-gol inglês é tão interessante. Numa copa marcada pelos sistemas defensivos estáveis, pelo prefiro jogar uma partida extremamente feia e vencer do que jogar bonito e perder (frase de Robben, dois dias antes da final), são erros como este que, na exigüidade dos grandes lances, permitem a pura manifestação de um futebol menor, e com isso o retorno da diferença no que não para de se repetir.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.