Preciosa de Lee Daniels

2

Por Alain El Youssef

O filme Preciosa vem encontrando uma receptividade muito boa entre seus expectadores a ponto de ter sido indicado a seis estatuetas do Oscar, incluindo a de Melhor Filme. Classificado como uma “história de superação” por muitos, o longa narra a difícil vida de Clarieece “Precious” Jones, personagem que beira ser um Homo sacer em plenos Estados Unidos: além de ser negra, obesa, morar no Harlem, e ser semi-analfabeta, Preciosa conviveu desde o início de sua vida com os maus-tratos da mãe e os abusos sexuais do pai, que lhe geraram dois filhos, um deles com Síndrome de Down. Para piorar, ao longo do filme, a personagem descobre que seu próprio progenitor infectou-a com o vírus HIV durante as relações que mantinha com ela.

Com todos esses problemas, não é de se admirar que as discussões em torno do longa concentrem-se na própria figura de Preciosa, que só passou por sérias dificuldades ao longo de sua breve existência. Nesse texto, pelo contrário, gostaria de caminhar em outro sentido, buscando desvendar o âmbito político que está por trás dessa “história de superação”. A chave para compreender esse lado do filme reside, em minha opinião, na trajetória escolar de Preciosa e no conflito que sua mãe deflagra com o serviço de Assistência Social dos Estados Unidos.

Primeiro a trajetória escolar. Como dificilmente poderia deixar de ocorrer dentro do país símbolo do liberalismo, o sistema educacional público norte-americano é colocado em xeque pelo filme. Preciosa é apresentada como analfabeta por conta da péssima qualidade desse serviço: salas cheias e alunos que não respeitam o professor criam um ambiente no qual a personagem principal não consegue nem ao menos se expressar minimamente. Dentro dessa estrutura opressora, Preciosa vive isolada e não é capaz de desenvolver qualquer habilidade. Sua predileção pela matemática decorre unicamente do fato dela ter uma atração pelo professor da disciplina. Com as outras matérias, seu envolvimento é nulo.

Tudo isso muda radicalmente quando a personagem é expulsa da escola pública em decorrência de sua segunda gravidez – aqui novamente aparece o sistema opressor. A diretora responsável pelo seu afastamento recomenda, então, que a aluna se matricule em uma “escola alternativa” (a Each one teach one), uma espécie de ONG que atende estudantes com problemas de aprendizagem. Lá, recebendo um atendimento mais personalizado e íntimo, Preciosa começa a se soltar. Por estímulo de sua nova professora (voluntária), começa a escrever todos os dias e passa a abrir-se com as demais colegas até formar com elas suas primeiras amizades. Conseqüentemente, principia a vislumbrar um futuro melhor para si e para seus filhos.

Esse futuro, contudo, sempre esbarra nas atitudes de sua mãe, preocupada em manter a remuneração mensal que recebe da Assistência Social. Incapaz de solucionar os problemas de violência sofridos por Preciosa e também de reconciliá-la com sua genitora, o serviço é mostrado sob lentes extremamente negativas. O posicionamento da instituição – incorporada, sobretudo, pelo personagem de Mariah Carey – diante da situação delicada da personagem principal é completamente superficial, beirando o psicologismo barato. Em última instância, é como se a incompetência e a burocracia da Assistência Social norte-americana financiassem os atos de terror empreendidos pela mãe de Preciosa.

Tamanha crítica aos serviços públicos norte-americanos e a defesa da iniciativa privada como uma solução viável não é algo nem um pouco banal na atual conjuntura. Em pleno momento em que o presidente Barack Obama luta para universalizar o sistema público de saúde do país, fazendo uma ampla reforma que atinge diretamente as seguradoras privadas, Preciosa pode servir como argumento para os opositores da medida. Mesmo acreditando que a utilização política do filme dificilmente venha a ocorrer de forma direta, o longa certamente cumprirá a principal função que os mass media adquiriram desde sua criação: a divulgação incessante de valores (liberais) a ponto de torná-los verdades ou consensos. Por esses motivos, o resultado do Oscar ganha importância ainda maior, já que definirá de que lado a Academia encontra-se no que tange à reforma. Mas será que alguém duvida que Preciosa será um dos grandes vencedores da disputa?

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Preciosa de Lee Daniels”

  1. Thais disse:

    Ótima avaliação do filme!!! Você expos com louvor o seu ponto de vista.

    • Leandro disse:

      Thais, que bom que gostou. Só não sei se você percebeu que o texto é de um colega, foi uma colaboração dele pro meu blog. Os méritos são dele :)

      Bem, volte sempre e sinta-se a vontade para comentar quando quiser. Um abraço. Leandro

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.