Primeiras Rosas

0

Primeiras Rosas é uma adaptação coletiva da obra Primeiras Estórias de Guimarães Rosa. O trabalho, organizado para comemorar os 25 anos da Cia. Pia Fraus, foi elaborado por quatro diretores diferentes, que realizaram uma leitura particular de quatro contos presentes no livro. Alexandre Fávero, da Cia. Teatro Lumbra, adaptou As margens da Alegria; Miguel Vellinho, da Cia. PeQuod, adaptou A terceira margem do rio; Carlos Lagoeiro, do Teatro Munganga, adaptou O cavalo que bebia cerveja; finalmente, Wanderley Piras, da Cia. da Tribo, adaptou Seqüência. Cada versão trabalhou com uma linguagem cênica particular. O que há de comum é o trabalho com o teatro de animação, e a vontade de realizar uma leitura particular da obra de Rosa. A peça não tenta recriar o texto literário no palco, não há longos trechos do livro recitados pelos atores, nem mesmo o enredo dos contos foi adaptado com rigorosa fidelidade. Esse é o primeiro aspecto positivo da peça, ao abrir mão de uma fiel submissão ao texto original, a potência criativa dos diretores pôde trabalhar livremente, criando uma obra bastante cativante, que adapta o universo de Guimarães Rosa para uma linguagem imagética, própria ao teatro. E isto é feito por meio de soluções muito diversas, cada conto é construído numa forma muito particular. As margens da Alegria trabalha com o teatro de sombras, perfeito para construir o imaginário de uma criança que começa a explorar as formas do mundo. Seqüência é feita com teatro de bonecos tradicional, contando a história de um vaqueiro que segue sua vaca fugitiva, numa exploração repleta de acontecimentos. É a versão mais lúdica e divertida, talvez por isso sirva como fio condutor entre as demais estórias. O lado lúdico é completamente suspenso na versão da “Terceira Margem do Rio”. Esta mistura atores com o teatro de bonecos, na verdade, o pai é um boneco, enquanto os demais membros da família são todos atores. Este recurso acentua a incompreensibilidade do ato de partida do pai. Ao final, o tema da loucura e do sacrifício se materializam numa cena bastante chocante, quando o boneco envelhecido do pai reaparece ao filho que já resta sozinho à margem do rio. O último conto é o mais genial. Abandonando completamente o texto original, “O cavalo que bebia cerveja”, narra a vida de Giovânio ainda na Itália da época da guerra. A adaptação utiliza bonecos e atores, mas os recriam através de imagens digitais, captadas no palco. Este recurso cria um clima opressivo e estranho, próprio ao tempo de guerra, no qual a família de Giovânio tenta viver com um mínimo de tranqüilidade. Porém, rapidamente todo o horror da guerra é materializado nas imagens de bombardeios que devastam todo o ambiente. O que vemos, portanto, é a estória que antecede a estória de Rosa, retratando o sertão devastado da Europa que Giovânio conheceu antes de chegar ao sertão brasileiro. É nesta adaptação que toda a potência das imagens teatrais atingem o espectador, mostrando quão acertada foi a escolha de recriar livremente o universo de Guimarães Rosa. A visualidade do trabalho, que deixa de lado aquela presença textual tão acentuada em muitas adaptações literárias, produz um espetáculo forte e cativante, que prende a imaginação – imaginar nada mais é do que ver imagens – com uma força toda particular. Esse talvez seja o grande segredo das adaptações: assumir o risco de criar em cima do que já existe, abandonar aquela postura cheia de reverência que nutrimos em relação ao canônico e inflá-lo com a potência do novo. Este risco é assumido com toda seriedade pela Cia. Pia Fraus, criando um espetáculo cheio de vida e poesia.

Temporada: 16 de abril a 5 de julho de 2009.

Teatro SESI/SP

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.