Pro Dia Nascer Feliz de João Jardim

9

O documentário de João Jardim, Pro Dia Nascer Feliz, muito mais do que tratar do ambiente escolar, trata do fracasso de sua representação hegemônica. A escolha da cena inicial do filme, um fragmento de um documentário de 1962 que relaciona o desvario da juventude de então com a falta de escolaridade, é fundamental para a compreensão dessa representação. O fragmento defende o papel da escola na construção da cidadania, da capacitação da juventude para o exercício dessa cidadania. O problema, porém, é que essa finalidade edificante não se realizou, fato provado pelas estatísticas de analfabetismo e de evasão escolar apresentadas em seguida. Essa é a tônica dos depoimentos que veremos ao longo do filme, como o fracasso desse projeto escolar domina a fala de quase todos os entrevistados. Por isso, apesar do material registrado ser bastante heterogêneo – começa numa escola pública do nordeste, passa por outra em Duque de Caxias, depois em Itaquaquecetuba (região periférica de São Paulo), até chegar numa escola privada de alto poder aquisitivo em São Paulo, momento que marca uma quebra no filme – há sempre a sensação de repetição de uma idéia matriz. A escola é sempre representada como um espaço em falta: de recursos, dos professores, de empenho, de interesse, de segurança, dos alunos, do governo, pedagógica, falta tudo. Sendo assim, o tempo predominante da fala é o futuro. A escola precisa ser reformada, transformada, melhorada, aprimorada. O que fica evidente é a distância entre uma projeção ideal e imaginada da escola e a “realidade” representada por todos, o que preenche essa distância é o discurso da falta, uma falta que move adiante, para um tempo indeterminado do futuro. Ainda que o conteúdo concreto da escola bem-sucedida (completa, que não está em falta) não seja claramente formulado nos depoimentos, fica evidente que é perpassado pela crença na capacidade da instituição escolar em modificar positivamente a realidade social daqueles que lá ingressam, bem naquele espírito de formação de cidadãos. Em grande medida, a violência que é recuperada nos depoimentos nasce da percepção mesma da impossibilidade dessa crença em se realizar. Há dois exemplos muito claros do fracasso dessa crença: o primeiro é o depoimento daquela moça que se “descobriu” com as poesias na escola, mas depois que terminou os estudos abandonou todos os seus planos; o segundo, ainda mais gritante, é quase ao final, quando um rapaz justifica os roubos que realiza, afinal não acredita na possibilidade da escola lhe garantir um futuro melhor. Ao apostar nos seus talentos transformadores, a instituição escolar entra cada vez mais numa crise de representação, na medida mesma em que os atores sociais não encontram respaldo prático para o investimento simbólico que lá depositam. A escola se mostra, quase sempre, muito mais incapaz de transformar qualquer coisa do que gosta de imaginar. Essa crise alimenta e potencializa todo tipo de violência, seja ela difusa ou não, praticada por todos (e não só pelos alunos, como quase sempre o problema é retratado), fato recorrente no cotidiano institucional. É importante destacar que o filme não realiza um procedimento rasteiro e tosco, no qual há uma identificação dessa falência apenas com a rede pública, como tão frequentemente vemos acontecer. Na realidade, a violência se instala lá mesmo onde acreditaríamos presenciar o modelo mais bem sucedido de experiência escolar: a caríssima escola partícula de São Paulo. Nesse espaço há um deslocamento da falta: deixa de estar situada na instituição como um todo, mas é introjetada individualmente, como um problema de consciência de cada um. É o modelo bem sucedido da escola como uma instituição disciplinar: converter a ação de transformação do social num problema de auto-regulação, de interiorização de normas e condutas. A violência não é menos presente nesse caso do que nos demais. Ela só muda de natureza, funciona noutro nível, mas está lá. E também coloca em funcionamento o tempo da escola como um tempo futuro. A interiorização das regras serve tão-somente para criação de um sujeito preparado para o mundo futuro. É impossível, para o espectador atento, continuar acreditando que o objetivo último da escola seja copiar o modelo de eficiência daquela escola tão cara. O que resta, então? Muito pouco. O filme revela muito bem como o discurso da falta anda em paralelo com o próprio fracasso de tão ambicioso projeto. Com isso, e nisso reside o grande mérito do documentário, o documentário ajuda a desconstruir essa representação tão dominante, ao demonstrar a necessidade de repensar nossas narrativas escolares. E isso começa pela substituição do tempo dessa narrativa, não mais um tempo futuro, mas um cuidado com o presente, menos ambicioso e grandioso. Pro Dia Nascer Feliz acaba exigindo um gesto de modéstia, afinal “quanto mais abrangente é o nosso modo de pensar, mais tudo parece escroto. Então o lema será este: pense nas coisas pequenas”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

9 Comments to “Pro Dia Nascer Feliz de João Jardim”

  1. Djabal disse:

    Estamos vivendo uma crise, parece que sem precedentes. A escolha é uma instituição que não conversa com o seu aluno.
    Há pouco tempo atrás vi "Entre os Muros da Escola" e o tema se repete. Um diálogo de surdos, na França também.
    Não sei como lidaremos com estas ilhas que são os alunos.
    Gostei muito do texto. Abraços.

  2. Leandro disse:

    Olá Djabal, valeu pelo elogio e pela visita. A crise existe e é realmente muito grande, mas sempre que estou em sala de aula eu penso naquilo que escrevi ao final do texto, nas coisas pequenas. Acho que é o que mais me ajuda a lidar com meus alunos. Volte sempre. Gosto muito do seu blog. Um abraço

  3. Ilan disse:

    Fiquei curioso para assistir "Pro Dia Nascer Feliz". Há uns meses assisti "Entre os Muros da Escola" e percebo, através do seu texto, que os dois filmes devem abordar questões similares, apesar dos países serem distintos em alguns aspectos mas nem tanto no que respeita ao sistema educacional. Parabéns pelo blog. Abraço.

  4. Marcão disse:

    A crise é bem velha já! E "convidar" a entrar, quem por gerações e gerações esteve fora desse "mundo ciilizado" não agudiza a crise, mas sim os seus sintomas.
    Ambos os filmes nos provocam em nossas crenças missionárias mais profundas… E me vejo tolo por em algum momento ter acreditado que a educação escolar resolve a crise que a criou e difundiu pelo mundo.

    Belos escritos Lê, mas não me ponha pra pensar a um dia do inicio das aulas!

  5. Leandro disse:

    Ilan, obrigado pela visita. Realmente, há muito em comum entre os dois, cruzar os dois ajuda bastante a pensar a escola contemporânea, nossas representações e expectativas a respeito dela. Vi que está começando o seu blog, ficarei de olho. Volte sempre. Um abraço

  6. Leandro disse:

    Marcão, valeu pela visita. Pois é, você está super certo, a crise é tão velha quanto a escola. Ficar pensando nela nas vésperas do retorno é sacanagem mesmo, hehe. Bom trabalho e volte sempre. Um abraço

    Leandro

  7. Laís Alegretti disse:

    O documentário é fantástico.
    Gostei da sua reflexão também. Achei particularmente interessante quando você comenta sobre o "deslocamento da falta".
    Temos um longo caminho pela frente!

  8. Bruno disse:

    Fala, Leandro, beleza?
    Revi este filme nesta semana, resolvi ler seus comentários. Muito boa análise!
    Uma curiosidade: de quem é a citação com que vc fecha o texto?
    Abraço

    • Leandro disse:

      Bacana Bruno, gosto muito desse filme. Então, tenho essa mania de citar sem as referências, e nem sempre lembro de onde tirei. Essa eu tenho certeza que foi de um romance, provavelmente um romance do Philip Roth, mas não estou certo. Vou tentar me lembrar e te aviso.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.