Rebecca de Alfred Hitchcock

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Rebecca (1940) é o primeiro filme produzido nos EUA de Alfred Hitchcock. É também um dos seus melhores filmes, rivalizando com Janela Indiscreta e Um corpo que cai. O filme também lhe garantiu seu único Oscar (de melhor filme). A história é uma adaptação do romance homônimo de Daphne Du Maurier, a mesma escritora que serviu de fonte para outro clássico hitchcockiano, Os Pássaros.

A trama gira em torno de uma jovem mulher (interpretada por Joan Fontaine), a qual nunca é nomeada, e o viúvo Maxim (Laurence Olivier), que tenta recomeçar sua vida após a morte de sua primeira esposa. A jovem é uma moça simples e ordinária, sem nenhum talento ou atrativos especiais, que vive como dama de companhia de uma rica senhora. Ela conhece o viúvo De Winter enquanto passa férias ao lado de sua senhora no sul da França. Ambos se tornam próximos e rapidamente se apaixonam e se casam. O matrimonio significa uma mudança significativa na vida da personagem, já que De Winter é um homem muito rico e importante. A tranqüilidade de sua vida despojada e sem ornamentos é profundamente transformada com a mudança para Inglaterra e o início da sua nova rotina na propriedade de Manderlay, a gigantesca mansão onde viveu Maxim com sua primeira esposa.

Este movimento marca a primeira reviravolta na narrativa do filme. Enquanto o primeiro terço do filme, no sul da França, é cheio de luz, com muitas tomadas ao ar livre, criando um ar de serena alegria, típico daquele animo de casais recém-apaixonados, em Manderlay a fotografia vai se tornando cada vez mais acinzentada. A alegria vai cedendo à opressão ameaçadora. Isso porque que surge a poderosa presença de um terceiro elemento no relacionamento: Rebecca, a primeira senhora De Winter. Uma presença que se faz sentir apesar da sua ausência, afinal ela está morta. Porém, consegue afetar com uma tremenda energia a consciência de todos que vivem em Manderlay. Na casa tudo gira em torno das lembranças e dos rastros deixados por ela. Esta presença-ausência paira como uma sombra sobre o novo casal.

Com a chegada da nova esposa, todos não param de compará-la com a primeira senhora daquela casa. Enquanto Fontaine representa uma mulher sem encantos, de fraca personalidade, quase impercebível, a Rebecca fantasmagórica é sempre (re)apresentada como uma pessoa forte, uma mulher que possuía uma beleza sem precedentes, uma personalidade dominadora e marcante, que conseguia cativar a todos. Este contraponto vai lentamente subjugando e dobrando as forças da nova senhora. Não deixa de ser revelador o fato de que enquanto todos lembram o nome de Rebecca, a marca da sua subjetividade, a nova esposa é tratada apenas como a senhora de Winter, ou seja, não há espaço para uma subjetividade autônoma, uma subjetividade que pudesse rivalizar com o Eu poderoso de Rebecca. O contraste entre as duas esposas de Maxim não passa despercebido pelos demais personagens do filme. Há sempre um sentimento de perplexidade e incompreensão: como Maxim pode se envolver com uma mulher tão apagada após ter perdido Rebecca? Enquanto uma consegue fazer sentir a sua presença mesmo na sua ausência, a outra não é capaz de se fazer sentir, mesmo estando verdadeiramente lá. Como descobrimos ao longo do filme, é exatamente essa fraqueza que tanto agradou a Maxim quando ele conheceu a moça.

Porém, este traço desperta o ódio mortal de outra pessoa: Senhora Danvers, a governanta da casa. Ela estava profundamente conectada (e apaixonada) com a falecida Rebecca, e não consegue aceitar o fato de Maxim tentar substituí-la e abrandar a força dos rastros que ficaram naquela casa. Por isso, ela trabalha ativamente para tentar sufocar a nova esposa, garantindo a presença fantasmagórica de Rebecca por toda parte. Boa parte da tensão do filme gira em torno do conflito silencioso travado entre as duas mulheres para decidir quem irá se impor sobre aquele mundo.

O que acaba se revelando ao longo do filme é toda uma teia complexa que captura a todos em torno da figura de Rebecca. Maxim, subjugado pela figura feminina de sua primeira esposa (uma mulher irascível, que desafia a ordem patriarcal que ele tenta estabelecer, capaz de ridicularizar o matrimônio e buscar livremente atender aos seus desejos íntimos) busca expulsar a sua presença indesejável trazendo uma nova mulher, sem aquela força e aquele brilho, incapaz de se impor sobre aquela casa. Danvers, por outro lado, luta para garantir a prevalência de Rebecca, para assegurar sua memória e sua eterna presença, meio que reatualizando constantemente o objeto de sua paixão. E a nova esposa deseja apenas se livrar daquela presença fantasmagórica que a domina e a paralisa.

Rebecca aparece, assim, como o centro de uma estrutura que captura toda a ação dos personagens, o que organiza e enclausura as possibilidades de ação, garantindo uma estabilidade ao universo de Manderley. Ela é aquele signo que assegura o sentido aos personagens do filme, e com isso paira como a única presença que nunca poderá se ausentar. É nesse ponto que o filme provoca uma terceira reviravolta, representada por uma fotografia mais sombria e escura, quando o corpo de Rebecca é encontrado no mar. Com isso, torna-se possível imaginar uma superação daquela presença fantasmagórica que domina os moradores de Manderlay.


Entretanto, isso acaba se revelando bastante ilusório. Não entrarei em detalhes da trama, mas basta dizer que é a força de Rebecca que garante a própria existência daquele lugar. E na sua ausência toda aquela estrutura desaba. A possibilidade de escorraçar definitivamente a memória assombrada daquela mulher acaba provocando a completa dissolução de Manderlay. O filme parece ter um final feliz, afinal o casal supera as últimas tormentas e escapa ileso da destruição da propriedade. Porém, as marcas deixadas pela força de Rebecca perduram na imaterialidade do signo. O signo é aquilo que substitui o objeto na sua ausência, que garante a (re)apresentação, assegurando o sentido do mundo, do texto que explica o real. Na iminência de se perder este signo, os personagens precisam encontrar meios de recuperá-lo. Seja a loucura de Danvers, que se imola frente ao risco de encarar o absurdo da não-presença do seu objeto de desejo, seja na fantasmagoria dos sonhos da jovem esposa, como fica claro na abertura do filme, Rebecca continua lá, assegurando o eterno retorno à ordem de Manderley.


Referência

Consultei dois sites com alguns comentários interessantes sobre o filme, os quais me inspiraram em algumas passagens. Vale a leitura:

Emily Britton, The Omnipresence of Rebecca De Winter in Hitchcock’s Film Rebecca em http://www.associatedcontent.com/article/16528/the_omnipresence_of_rebecca_de_winter.html?cat=38

Robin Wood, Rebecca: the two Mrs. De Winters em http://www.criterion.com/current/posts/170

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2 Comments to “Rebecca de Alfred Hitchcock”

  1. Rebeca Dias disse:

    Interessante filme’ Rebeca… Faz jus ao nome, mulheres com personalidade forte… rs’
    Uma dos tantos fans de Hitchcock…

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