Reflexões Futebolísticas I

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A principal impressão deixada pelo Campeonato Brasileiro de 2007 foi sobre a (in)pertinência dos pontos corridos como a fórmula ideal para disputas de futebol. Sempre defendi esse sistema como o mais justo, aquele que privilegia o time mais constante e mais organizado. No entanto, fui forçado a rever essa posição esse ano. Bem, os acontecimentos são conhecidos: o São Paulo disparou na liderança próximo ao fim do primeiro turno. Com isso, o clube foi campeão faltando ainda 4 rodadas, repetindo o resultado do último campeonato. Há inúmeras explicações para isso, creio que a força econômica do clube ajude bastante a entender essa vantagem sobre os demais. Por conta disso, comecei a vislumbrar a chance do campeonato brasileiro passar por um processo de europeização: a possibilidade da disputa afunilar cada vez mais em volta de alguns poucos clubes. São Paulo e Santos, por exemplo, desde o início da disputa por pontos corridos estão acostumados a ocuparem as primeiras posições. Isso é algo comum na Europa. Na Espanha, França. Itália ou na Inglaterra existe um rol de poucos times que se alternam na disputa do campeonato. Na França, o Lyon garantiu uma hegemonia sem precedentes. Na Espanha, a disputa quase sempre é alternada entre o Real Madrid e o Barcelona. Na Inglaterra, Manchester, Arsenal e Liverpool disputam com o arrivista Chelsea. A competição italiana também não conhece grandes disputas, resumindo-se quase unicamente ao Juventus, Milan e Inter. A disputa por pontos corridos é comum a todos esses campeonatos. Com efeito, esse sistema favorece poucos clubes, em geral aqueles com maior força econômica, diminuindo as casualidades inerentes ao futebol. Ao contrário dos mata-matas, no qual um time inferior pode contar com a sorte e o acaso para vencer a competição, os pontos-corridos valorizam a constância e o equilíbrio. E isso só pode ser conquistado com dinheiro. O curioso é que os defensores dos pontos-corridos quase sempre apontam para a justiça dessa forma de competição. Nessa perspectiva, vence sempre o melhor. Curiosamente esse é o mesmo lema daqueles que se opõem ao sistema de cotas para as universidades públicas. Em síntese, se o campeonato brasileiro continuar nesses moldes existirá sempre o risco dos clubes mais ricos (e organizados) assegurarem uma vantagem cada vez maior sobre os demais, criando uma disputa afunilada e injusta. Os mata-matas podem privilegiar a bagunça dos clubes, mas também garantem resultados inusitados. Qual é a graça de uma competição que depende apenas da previsibilidade entediantemente burguesa (e já peço perdão pelo termo… algo fora de moda atualmente…)?
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3 Comments to “Reflexões Futebolísticas I”

  1. mariana disse:

    Querido, acabei de ler seu post e gostei muito de toda essa sua reflexão sobre os pontos e toda essa complicação futebolística e percebo (com certo desespero) que começo a entender graças a vc.Ah, só para não deixar batido: “Agora quem dá bola é o Santos…”. Não fique bravo pq te gosto muito
    bitoquinha

  2. André Pijamar disse:

    Gostei muito do texto e da discussão trazida com o tema – reflete a sociedade como um todo, onde os únicos interesses que têm direito de serem defendidos são daqueles já privilegiados. O termo “burguês” deve estar fora de moda só porquee incomoda muita gente – no contexto atual, acho que ele é muito bem adequado…
    Sobre aa “justiça esportiva” – gosto do sistema de pontos corridos com rodadas suíças. Neste sistema, os melhores enfrentam os melhores e os piores enfrentam os piores a cada rodada, tornando o evento “mais difícil” para os que estão no topo e mais acessível para se recuperar. Duvido que seja implementado, de qualquer forma. Parabéns pelo bom texto e pelo blog!

  3. Leandro disse:

    Mari,

    Ainda há chance de redenção… é hora de virar são-paulina. Se é pra aprender sobre futebol, que seja com o melhor né :)
    Te gosto muito, bitocas pra você.

    André,

    Valeu mesmo pelo elogio. Concordo com sua opinião. Visite mais o blog.

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