Texto escrito em parceria com

Alain El Youssef

Existem mortes legítimas? Em determinado contexto é válido o extermínio de civis para alcançar um objetivo maior? A resposta afirmativa a tais questões estrutura um número crescente de artigos, nos mais diversos meios de comunicação, sobre o conflito na faixa de Gaza. Bernard-Henry Levy é apenas mais um intelectual que adere entusiasticamente a tais teses. O autor, um renomado panfletário conservador francês, externou suas opiniões a respeito do tema no artigo “Extremismo é o pior inimigo palestino”, publicado na “Folha de São Paulo”[1] de 12/01/09 , e reproduzido rapidamente em um grande número de blogs e sites da internet. Nosso objetivo aqui é dialogar criticamente com o referido texto, visando desnudar o absurdo das teses supracitadas. Mais do que polemizar com um intelectual neo-conservador, o que interessa é entender a gênese de suas posições políticas.
De início, convém responder ponto a ponto seus comentários, adotando rigorosamente a mesma forma esquemática empregada pelo autor, para, longo em seguida, emitir uma opinião própria sobre esse horroroso acontecimento que choca até mesmo os olhos de quem está do outro lado do mundo – mesmo com a censura das imagens mais atrozes do conflito pela imprensa local.

1) O que chama a atenção no conflito não é a paciência de Israel, mas sim a forma unilateral com a qual o mesmo resolveu atuar. De acordo com todos os meios de imprensa internacionais, não foram os palestinos, em geral, nem o Hamas, em específico, que começaram a bombardear seu vizinho. Pelo contrário, foram os israelenses que, com o aval de seu principal financiador (os Estados Unidos), optaram por desbaratar qualquer resistência palestina, mesmo que para tanto fosse necessário a reocupação da Faixa de Gaza.
2) É claro que os mísseis Qassam e Grad não são inofensivos – se o fossem não seriam denominados mísseis. Mas querer comparar seu poder de fogo com o armamento israelense beira à sandice, mesmo que o comentário venha de uma pessoa que está longe de ser um “especialista em assuntos militares”. Se há algo que pode ser considerado bom nesse conflito – isso, se forçarmos muito a barra – é a baixa quantidade de mortes de israelenses que, no geral, têm a seu dispor uma aparelhagem defensiva muito mais estruturada que a de seus vizinhos. E se, mesmo assim, eles julgam essa uma “experiência fantasmagórica”, deveriam optar por um projeto político menos alinhados com a agenda de extrema direita que norteia as negociações entre Israel e os palestinos.
3) Ora, dizer que a morte de milhares de palestinos em decorrência dos bombardeios israelenses não configura um “‘massacre’ deliberado” é, no mínimo, menosprezar a inteligência dos leitores com uma fala que tenta se legitimar apenas pelo fato de ser enunciada. Trata-se, aqui, de uma tese que ignora completamente a lógica concreta dos acontecimentos cotidianos. Não há duvida que a ofensiva é um ato deliberado, e os custos humanos desta operação são bastante conhecidos. O que está em jogo é a legitimidade, ou não, dessa operação. Ainda que tomemos por verdade que o Hamas (como o Hizbollah) estaria instalando seus postos de comando e seus arsenais em lugares estratégicos como escolas, hospitais, etc, perguntamos: seria justo bombardear esses locais, matando milhares de vítimas usadas pela facção palestina como escudo humano, em troca da eliminação de algumas cabeças procuradas? Certamente, Levy responderia com uma sonora afirmativa. Esse é o ponto chave de sua reflexão, e da nossa também, por isso retornaremos ao tema adiante.
4) Não existe uma “diferença crucial” entre os ataques do Hamas e os do exército israelense. Sim, é verdade que a facção palestina abre fogo contra civis, mas é impossível ignorar que o outro lado não faça o mesmo. Aliás, para atingir os líderes do Hamas, os israelenses não pensam duas vezes antes de botar abaixo escolas e hospitais. De um lado, há “crimes de guerra” operados contra uma população civil inocente, de outro há “danos colaterais”. Essa diferença é um corolário direto daquilo que foi desenvolvido por Levy no ponto anterior. Há um estatuto diferenciado pois existe uma hierarquia de vidas em jogo no conflito. Vidas que valem alguma coisa e vidas que não valem nada.
5) Se não bastasse o que ocorreu após a criação do Estado de Israel, os israelenses continuam fazendo com que os palestinos deixem sua terra, suas famílias e seus pertences. Afastar as pessoas de tudo aquilo que conseguiram e de todas as relações que estabeleceram ao longo de suas vidas a custa de muito trabalho e esforço não é mais humanitário do que simplesmente jogar bombas sobre suas cabeças. Lançar vidas em direção a um rumo incerto (e quase sempre precário) não transforma os israelenses em agentes humanitários.
6) O mesmo que foi dito acima pode ser estendido para o caso da permissão de entrada dos comboios de assistência humanitária, bem como para a assistência realizada a alguns palestinos em hospitais israelenses. Cuidar de pessoas que passaram por tentativas de assassinato no minuto anterior não isenta a culpa dos seus aniquiladores, muito menos o conjunto de uma organização estatal. E vale lembrar que os “danos colaterais”, como aquele que atacou um comboio humanitário da ONU, já provocaram a interrupção das ajudas internacionais.

A questão de fundo, portanto, reside na hierarquia entre vidas de qualidade distintas. Existe uma motivação política nas atitudes dos dois lados do conflito. Tanto o Hamas quanto Israel defendem suas próprias agendas e buscam objetivos distintos. Historicamente a relação política na região foi marcada pela violência mútua, no conflito armado e na retaliação terrorista. Hoje é fácil apontar para a responsabilidade do Hamas como detonador da nova crise, mas isso é algo de um grande simplismo, como se fosse possível ignorar todas as violências prévias operadas para garantir a institucionalização do Estado de Israel. Ademais, um ponto que raramente é apontado pela mídia de “bom senso” é a violência cotidiana imposta aos palestinos. Estes, como se sabe, muitas vezes vivem em guetos e com muitas restrições aos direitos civis que são garantidos aos seus vizinhos israelenses.
Nesse sentido, o ponto fulcral do debate não está na necessária responsabilização do povo palestino pelo conflito, e muito menos na crença de que apenas estes devem tomar atitudes conciliatórias (i.e. abandonar qualquer tipo de resistência armada e buscar um diálogo fraterno com seus vizinhos… é fácil falar em fraternidade quando se tem pleno acesso à cidadania). Na realidade, qualquer sujeito de bom senso sabe que a conciliação só é possível quando se garantem as condições materiais mínimas para a cidadania, e que Israel nunca buscou posturas concretas que garantissem essas condições.
Portanto, para além das agendas políticas antagônicas, há uma questão muito mais delicada. É a construção de um discurso que autoriza um tratamento desigual entre palestinos e israelenses. A agenda política do Estado de Israel ganha sua legitimidade, justamente, nessa hierarquia de vidas. A defesa intransigente dos cidadãos israelenses é contrastada pelo baixo valor das vidas palestinas. É legítimo sacrificar civis desde que se consiga atingir a liderança do Hamas. Logo, é legítimo matar palestinos para proteger os direitos dos israelenses. Trata-se, aqui, da materialização mais clara do Homo Sacer. Este, como nos explica Peter Pál Albert, “é aquele que, julgado por um delito, pode ser morto sem que isso constitua um homicídio, ou uma execução, ou uma condenação, ou um sacrilégio, nem sequer um sacrifício. Subtrai-se assim à esfera do direito humano, sem por isso passar à esfera do direito divino. Essa dupla exclusão é, paradoxalmente, uma dupla captura: sua vida, excluída da comunidade, por ser insacrificável, é nela incluída por ser matável”[2]. É a vida na relação mais íntima com o poder. É o estado de exceção como o modelo da política.
Como se vê, o que está em jogo quando se toma o partido de Levy é a defesa de um modelo de política e de governo, um modelo que está profundamente entranhado em nossa realidade. A transformação de largas massas populacionais nestes Homo Sacer é um fenômeno de alcance global, é a própria lógica que organiza as estruturas sociais de nosso tempo. Não é difícil encontrar outros exemplos. A vida nua, despida de qualquer garantia contra poder soberano, o poder da vida e da morte, é o efeito dessa situação. E é graças à produção dessas vidas subjugadas, essas vidas em constante estado de exceção, que se pode garantir a cidadania, ainda que provisória, aqueles que não se transformaram em Homo Sacer. Não é, dessa forma, a “escura sombra” do Hamas que paira sob os palestinos, mas o infortúnio daqueles que foram enlaçados nas tramas do poder soberano. A questão fundamental é, portanto, imaginar formas de escapar dessa lógica. E não reafirmá-la, como o faz Bernard-Henry Levy.

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[1] O texto, distribuído pelo New York Times, foi publicado inicialmente no jornal “Folha de São Paulo” e rapidamente se espalhou por inúmeros blogs liberais, conservadores e da comunidade judaica, entre outros. No dia seguinte, ocupou destacado espaço no portal UOL. Para a versão na íntegra do texto, consultar http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2009/01/13/ult586u603.jhtm. Um texto publicado no mesmo jornal, mas que não alcançou a mesma divulgação, é uma dura crítica às posições de Israel da ativista Naomi Klein. Vale a leitura: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=israel-deve-ser-alvo-de-boicote-sancoes&cod_post=152891

[2] Peter Pál Pelbart, Vida capital: ensaios de biopolítica, p. 61-62.


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