Rosas a crédito de Amos Gitai

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O novo filme de Amos Gitai, Rosas a Crédito, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, ocupa uma posição singular na sua filmografia, já que abandona a temática mais recorrente em seus trabalhos anteriores: a reflexão crítica da sociedade israelense. O deslocamento temático, no entanto, não significa o simples abandono das questões políticas, tão presentes nos filmes anteriores. A diferença agora é apenas o ângulo de observação. A história do filme se passa na França do pós-guerra e acompanha as desventuras de um jovem casal. Marjoline, uma moça que vive numa região rural da França, tem um casamento arranjado com Daniel, um rapaz que foi preso enquanto participava da Resistência francesa. Apesar das personalidades e origens sociais bastante contrastantes, o início do relacionamento é bastante afetuoso e intenso. Porém, logo as diferenças desfazem esta paixão. Marjoline é ambiciosa e materialista, deseja viver na agitação da cidade e conquistar o conforto da nova vida burguesa que começa a se anunciar. Já Daniel é dono de um espírito introspectivo e antiquado, deseja apenas continuar o ofício de sua família, o cultivo e a produção de rosas. Por isso, a vida na cidade não lhe agrada, e o que ele mais deseja é tempo para se dedicar ao seu grande projeto de vida: encontrar uma combinação capaz de criar as rosas mais perfeitas. Incapaz de se imaginar morando numa casa velha e isolada, Marjoline decide alugar um apartamento no centro de Paris, enquanto Daniel prefere permanecer a maior parte do tempo no campo, na casa de seu pai para conduzir seus experimentos. O apartamento, com cores fortes e com uma varanda que dá de frente para outros apartamentos, sintetiza com perfeição o espírito da burguesia ascendente encarnado em Marjoline: a falta de refinamento ou bons modos é substituído pelo exagero consumista, com seus objetos de gosto duvidosos e superficiais. O agente imobiliário que alugou o apartamento define muito bem esse espírito: a varanda, que permite a exibição do apartamento aos vizinhos, é a medida da felicidade de toda família. A nova sociabilidade funciona a partir de um regime de hierarquias no qual é a visibilidade do consumo que determina o lugar social ocupado por cada um. Um apartamento vazio se torna sinônimo de uma existência vazia. O problema é que encher a casa com mobílias extravagantes e com os modernos eletrodomésticos custa um bocado de dinheiro. Logo, o ideário consumista é acompanhado por uma exigência de crédito cada vez mais irrestrito. Enquanto Daniel permanece deslocado nesse novo universo, compenetrado apenas no estudo de suas rosas, encarnando um espírito de um tempo passado, Marjoline compreende muito bem qual é o caminho para realizar seus desejos: abraçar indiscriminadamente o crediário. O que ela demora a perceber, entretanto, é o potencial de captura das engrenagens do consumo. Cada desejo satisfeito serve apenas para criar novos desejos, uma cama exige um armário, um armário exige uma mesa, etc. E cada novo desejo é acompanhado por novas prestações e novas dívidas, num processo de crescente enredamento. A imersão de Marjoline no mundo do consumo é uma espécie de servidão voluntária, no qual o livre fluxo dos seus desejos é progressivamente ordenado por uma instância transcendental, reduzindo-os a uma unidade cada vez mais normatizada. Enquanto ela assume o espírito da nova sociedade, Daniel se prende no espírito do passado, ordenando seus desejos também a partir de uma instância transcendental (não omercado, mas a ciência), o que lhe afasta do mundo e de sua esposa, assumindo para si o mesmo desejo de servidão de Marjoline. Nos dois casos o que está em jogo é uma espécie de anulação, o desejo se reduz a uma repetição exaustiva, criando uma (im)potência cada vez mais triste. Chega um ponto que não sobra nenhum espaço para experimentação ou criação. E isto inviabiliza qualquer possibilidade de um encontro comum, compartilhado e coletivo. O erotismo alegre que marcou o início do casamento, quando bastava a imanência dos corpos para criar um espaço comum de desejo, acabou numa incompreensão mútua, a possibilidade do a dois foi substituída pela unidade da servidão. É nisso que reside o sentido político do filme, na medida em que insiste na importância dessa idéia de comum, de encontro comum. Mais do que um simples filme histórico, sobre um tempo que já passou, Rosas a Crédito guarda grande atualidade (vale ficar atento para a cena final, quando a câmera acompanha os passos de Marjoline e o espectador percebe que ela não está mais na Paris de meados do século passado, mas sim nas ruas da cidade contemporânea). Pensar em política, hoje, começa necessariamente por pensar numa ação que não alimente esses desejos de servidão, por conseguinte capaz de afastar os afetos tristes e reinserir uma potência afirmativa e criativa, fato que só é possível a partir da composição de experiências de encontros comuns.

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One Comment to “Rosas a crédito de Amos Gitai”

  1. admin disse:

    (Comentários importados manualmente)

    Carlos Alberto Mattos disse…

    O lado de arquiteto do Gitai parece abrir aqui um certo campo de reflexão, assim como na sua série de documentários “A Casa”.
    1 de novembro de 2010 11:47

    renatocinema disse…

    Fiquei instigado a descobrir essa obra. Valeu a dica.
    1 de novembro de 2010 14:12

    Leandro disse…

    Carlos,

    Esse filme eu não conheço, vou ver se encontro pra assistir. Fiquei bastante surpreso com o Rosas, o filme é muito bonito e a história é muito interessante. Parece que o filme foi feito para TV e seria uma pena se não entrasse em cartaz por aqui.
    2 de novembro de 2010 12:35

    Leandro disse…

    Renato,

    Assista sim! O filme é muito bonito, vale a pena.
    2 de novembro de 2010 12:36

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