Santiago de João Moreira Salles

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Uma das grandes contribuições do filósofo francês Michel Foucault é sua analítica do poder. Afastando-se do pensamento corrente, Foucault elaborou uma reflexão que enxergava o poder não apenas como uma instância repressora e proibitiva, mas também como uma ação produtiva. Ao invés de enxergar o exercício do poder como aquela ação que subjuga, domina e obrigado os sujeitos livres ao silêncio, Foucault vai pensar o poder como aquilo que produz isto que chamamos de sujeito, suas práticas e seus discursos. É o próprio campo de possibilidade do fazer e do dizer que é estruturado pelas relações de poder. Como ele nos explica, somos o que somos, pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, porque passamos por todo um processo de disciplinarização, de adestramento, de institucionalização, cheio de exercícios e confissões. Pode-se dizer, de maneira simples e breve, que o poder funciona através da ativação de um grande maquinário voltado para a produção de subjetividades, ou seja, a conversão de singularidades individuais em sujeitos autônomos e disciplinados. Nesse processo, um mecanismo fundamental é o falar de si. Nós, sujeitos moldados e adestrados, somos compelidos o tempo todo a falar, a manifestar nossas particularidades, nossas essências mais íntimas. Este ato pode assumir muitas formas, a confissão cristã, a psicanálise, o diário pessoal, os blogs, a escolarização, etc. É através desse colocar a si mesmo em discurso que procuramos atingir a verdade sobre nós mesmos, que nos afirmamos e que interiorizamos as relações de poder que nos perpassam e nos conformam. É por isso que Foucault insiste tanto na refutação do poder como uma instância repressora, ele não nos obriga a silenciar; na verdade ele nos faz falar, falar muito, constantemente. Poucas reflexões levaram tão a sério esta problemática do que o excelente documentário Santiago, de João Moreira Salles. Após realizar uma série de obras importantes, Salles decidiu retornar ao material de seu único filme não finalizado, o longo registrado que realizou em 1992 com o Santiago, o antigo mordomo da casa de seus pais. O que Salles pretendia originalmente era realizar um documentário a partir do interessante personagem que ele enxergava no mordomo. Porém, na hora da montagem a coisa não funcionou e o filme acabou abortado. O fracasso da tentativa original, felizmente, acabou resultando em algo bastante diverso: Santiago não é mais um documentário que visa à produção de um relato (auto)biográfico, mas sim refletir sobre a natureza mesma desse discurso e daquilo que o atravessa. Este deslocamento de perspectiva funciona a partir de um mecanismo simples e muito engenhoso: Salles coloca a si próprio como narrador do filme, comentando e analisando o processo que orientou a coleta do material e a tentativa fracassada de montagem do filme. Este narrador, porém, não ocupa uma posição transcendental, como uma espécie de entidade imparcial e que apenas narra uma ordem pré-existente e verdadeira sobre o material coletado. É exatamente o contrário disso. Vemos um narrador que interferiu ativamente no registro das entrevistas, conduzindo as respostas de Santiago, lhe obrigando a fazer certas poses, a repetir inúmeras vezes um depoimento para captá-lo da melhor forma possível, anulando toda sua singularidade em busca do personagem perfeito. Nesse sentido, a postura do documentarista é análoga a de um cientista que tenta dominar seu objeto de estudo, exercer sobre ele um poder e com isso produzir uma verdade sobre aquilo. É nesta objetivação de Santiago que se dá a sua subjetivação, ele assume pra si aquele papel, que não deixa de ser uma repetição do papel de mordomo que ele sempre exerceu enquanto trabalhava para a família Salles. E pouco a pouco vai se desnudando o jogo do poder, a sujeição de Santiago ao documentarista, que enfim poderia ter alcançado o verdadeiro personagem (como tentou no projeto original). A reflexão de Salles se torna uma crítica interessantíssima do fazer documental: no fundo, todo documentário não busca nada além disso: produzir uma verdade sobre o sujeito através desses jogos do poder. Por isso, o filme é uma espécie de (auto)crítica (Salles chega a dizer, em entrevista, que fez o filme para se curar), é a constatação de que o documentarista – como o padre, o psicanalista, o cientista e o professor – não faz nada além de tentar enquadrar dentro de suas grades conceituais, apagar as diferenças e as singularidades, a estranheza, tenta tornar compreensível e, portanto, domar a rebeldia daquilo que ele registra. É por isso que, como nos ensina Foucault, todo arquivo não é nunca um registro da vida, mas do poder, do poder que toca e molda a vida. A beleza do filme de Salles é justamente a de enfrentar esta questão, de assumir o quanto sempre esteve (e sempre estamos) comprometidos com o poder. O filme, assim, obriga uma reflexão decisiva: é possível criar documentários que escapem dos jogos de poder e da verdade? Por hora, parece que Moreira Salles não enxerga uma resposta afirmativa para tal questionamento (Santiago me possibilitou fechar uma porta, concluir um ciclo. O que penso sobre documentário está lá. Se abrirei novos ciclos, ainda não sei. Por ora, não tenho nenhuma vontade de abri-los). Isto, porém, não significa que não haja outros caminhos e creio que é possível refletir sobre isso a partir da obra de outro grande documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho. No entanto, isso já seria matéria para uma reflexão futura.

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4 Comments to “Santiago de João Moreira Salles”

  1. Luiz Carlos Garrocho disse:

    Uma boa colocação sobre Foucault. E interessante como você liga o poder de fazer falar com o documentário Santiago – que não vi e agora fiquei curioso.

    Somente uma questão: será que não estamos mantendo a psicanálise num lugar do qual ela já saiu, ao torná-la igual ao padre? Foucault não estaria muito mais apontando uma produtividade? Falo desta para além do bem e do mal… No sentido de que o poder produz subjetividades… Sim, seguindo a linha do seu texto… Mas, então, não estaríamos condenando?

    Acho que a psicanálise mudou muito e, hoje, pode ser uma ferramenta liberadora.
    Abraços

  2. Djabal disse:

    Gostei da sua reflexão, parece-me coerente com o que vimos do filme.
    Ao interferir no personagem a relação entre ambos se esclarece bastante e segue na linha do seu pensamento. Uma forma de liberdade, ao menos para mim, foi ver os papéis e as anotações que ele fazia, para salvar a sua identidade. Meticuloso, rigoroso e muito vasto, ele se encontrou ali. A leitura deles nos completará a 'persona'. E é algo impraticável mesmo. Um grande abraço e obrigado.

  3. Leandro disse:

    Olá Luiz,

    Agradeço o comentário e a leitura. Entendo sua preocupação com a psicanálise, especialmente após a leitura dos textos que me recomendou. Porém, não sei se enxergo essa saída liberadora. Na verdade, fui alertado por outro leitor sobre a existência de um falso-problema no meu texto, qual seja, a exterioridade do poder. Se existe algo de importante na obra de Foucault é sua insistência na impossibilidade de escapar do poder, de libertar-se do poder. Como ele nos ensina, exercer o poder nada mais é do que conduzir condutas. É a própria produtividade do poder que você menciona. Sendo assim, mais do que insistir no potencial liberador desta ou daquela instituição (ou na questão documental) seria mais proveitoso insistir nesta produtividade, no que este poder produz. Enfim, é algo que estou pensando, especialmente a partir do comentário que mencionei.

    Agradeço bastante a leitura e seu comentário. Volte sempre.

    Um abraço

    Leandro

  4. Leandro disse:

    Olá Djabal, fico feliz que tenha gostado do meu texto. Agradeço o comentário. Como disse no comentário anterior, estou repensando algumas coisas a partir do que escrevi no texto, na relação entre poder e liberdade. Espero tratar dessas questões novamente no futuro.

    Bem, volte sempre, é sempre bom ler seus comentários.

    Um abraço

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