São Paulo S/A.

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São Paulo S/A. conta a história de Carlos, um rapaz de classe média que consegue uma rápida ascensão financeira. A trama se passa no final da década de 50 e início de 60, portanto no meio do processo de industrialização acelerada de São Paulo, mudando radicalmente a paisagem social da cidade. É o grande momento das ilusões do progresso, época de ouro de uma classe média arrivista e profundamente imiscuída na ética do homem cordial. O filme retrata de forma impiedosa as aspirações e os desejos desse grupo social, mostrando o vazio que o norteava. O personagem principal parece ser o único com uma certa consciência desse vazio. Essa consciência lhe garante um papel bastante trágico, afinal sabe-se vazio, mas não tem nenhuma condição de superar sua condição. Com isso, Carlos é um sujeito amargurado, ríspido, desiludido, perdido. A única fuga é o envolvimento amoroso. Entretanto, esses relacionamentos rapidamente se mostram tão vazios quanto tudo o resto. A sua consciência parece tão aguda que nem a loucura surge como opção de fuga. Carlos sabe que é apenas um corpo dócil nas engrenagens da nascente sociedade industrial em São Paulo. Essa crítica já bastaria para tornar o filme interessante, um retrato de uma época que já não existe mais. Afinal, a sociedade industrial, em muitos sentidos, já foi superada. O emprego estável não é mais uma possibilidade real. A família, na sua acepção tradicional, encontra-se fragmentada, bem como qualquer tipo de laço social fixo. Na verdade, vivemos num tempo todo fragmentado, tempo de vidas fugazes, descartáveis, recicláveis. A angustiante vida burguesa, precisa como uma máquina, deu lugar a uma sociedade fluida, angustiantemente livre. Assistir ao filme nesse contexto permite uma leitura incrivelmente atual. Carlos é o prelúdio dessa sociedade fluida, fadada ao eterno recomeçar, recomeçar, recomeçar. Carlos não podia suportar a fixidez das engrenagens industriais, será que a fluidez de uma modernidade líquida seria uma opção menos angustiante? Essa é a questão que o filme me deixou…
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