Acabei assistindo A Fita Branca e Segredo dos seus Olhos, os dois principais concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, um seguido do outro. Apesar das profundas diferenças estéticas entre as duas obras, fiquei com a sensação de que existe uma profunda afinidade temática entre eles. No essencial, ambos os filmes abordam uma mesma questão, qual seja, o problema do mal no mundo contemporâneo. Não um mal metafísico, transcendente, alheio ao mundo humano, mas sim um mal imanente, difuso, muito próximo de nós mesmos. Em Segredo há um ato claro e evidente que introduz o mal na ordem do mundo: é o assassinato brutal de uma jovem professora, uma bela e apaixonada moça, fato que arrasta seu marido para uma situação de puro desespero. Porém, não é apenas sua vida que é profundamente abalada pelo caso, mas também a de Benjamín Esposito, o funcionário do tribunal encarregado das investigações do crime. Ambos começam a viver uma espécie de obsessão: uma obsessão por justiça, entendida apenas na sua dimensão punitiva. A violência cometida pelo assassino ganha uma força de reverberação, de contágio, que orienta as vidas que lhe estão próximas. Esta violência primeira se converte naquilo que Jurandir Freire Costa chama de hábito, “um veneno capilar que invade as rotinas”, que transforma a vida numa “compulsão à repetição”, marcada por uma “eficácia das moendas, que só sabe lidar com o mesmo, a roda do hábito, diante do diverso, emperra, se despedaça e fere de morte os que a põem em marcha”. O desejo de realização de justiça se torna apenas um desejo de reatualização das violências, da anulação do outrem, como se o mundo fosse regido por uma eterna lei do “olho por olho, dente por dente”. É nesse desejo de repetição que Freire Costa enxerga a manifestação do mal contemporâneo. Segundo ele, a partir da obra de Hannah Arendt, o “mal é o banal, pois transforma a ação humana numa seqüência calculável de eventos da qual a espontaneidade é expulsa”, é uma existência desprovida do imprevisto e da criação. É um mundo no qual o espaço entre o passado e o futuro, o espaço ético da ação humana, no qual nos posicionamos e atuamos no mundo, é eclipsado e substituído por um retorno exclusivo ao passado, sem futuro, sem presente. A primeira vista o agente do mal seria o assassino, aquele que introduz a violência na ordem do mundo, mas se fosse apenas isso seria algo muito tranqüilizante. O mal não está lá. Ou melhor, não está apenas lá. Ele se inflaciona, se espalha. Ele é banal e constante. É a violência convertida numa rotina, disfarçada de justiça. Um personagem secundário do filme, o colega de repartição de Esposito, sintetiza muito bem a força cotidiana desse mal. Ele diz algo mais ou menos assim: “uma pessoa pode mudar tudo, sua cara, sua casa, sua família, tudo, mas há uma única coisa que ele não pode mudar. Ele não pode mudar sua paixão”. É no imobilismo da paixão, no que ela tem de destrutiva e violenta, que se funda o hábito e se anula o espaço ético da ação. Nesse sentido, há uma contraposição entre a paixão e o amor, uma contraposição que abre uma brecha de redenção do mal cotidiano que doma a vida dos personagens. O amor é aquela ação que recria um espaço entre o passado e o futuro, um espaço de indeterminação e de criação, que substitui a violência pela palavra. Não é gratuito que na cena mais decisiva do filme – na qual se realiza a suma violência, a manifestação mais visível do mal – o que se passa seja um ato de absoluta negação da palavra, de qualquer palavra. Essa chave interpretativa também ajuda a compreender um pouco o problema colocado em A Fita Branca, mas lá há outros elementos que precisam ser destacados. Farei isso no próximo texto.

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8 Comments to “Segredo dos seus Olhos de Juan José Campanella: representações do mal contemporâneo I”

  1. Mariana Thibes disse:

    Eu acrescentaria ainda o Guerra ao Terror" nesse ciclo de repetição da violência. Lembrei da primeira cena do filme que diz que a guerra pode se tornar um vício a uma droga. Embora pior representado neste filme, acho que o tema também aparece.

  2. Leandro disse:

    Eu ainda não assisti o Guerra ao Terror, mas pretendo fazê-lo em breve. Obrigado pela dica e pela visita.

    Um abraço.

  3. NR disse:

    Estou louca para ver esse filme e Fita Branca!E vc só fez aumentar mais minha vontade
    Sinceramente "Guerra ao terror" só vou ver p/ ver se realmente mereceu o q levou p/ casa de Oscars mas ñ faz mto me tipo.

  4. Leandro disse:

    Natalia,

    Vale bastante a pena ver os dois filmes. Sobre o Guerra ao Terror, também não estou muito animado, mas tentarei ver em breve. Que bom que gostou do texto. Obrigado pela visita.

    Um abraço

  5. courgette disse:

    Este filme demonstra algo que a meu ver tem sido uma caracteristica marcante dos filmes argentinos, contar uma "boa história"sem tranformá-la em mais um tango trágico. Mas antes, transmiti-la como uma crônica que retrata a "psicopatologia da vida cotidiana", modo freudiano de demonstrar que de perto ninguém é normal – aspecto magistralmente explicitado por Guillhermo Francenella no papel de Pablo Sandoval, fiel escudeiro de Espósito, o juiz, brilhantemente interpretado por Ricardo Darín. Como alguem que conhece intimamente o pathos que o habita, Sandoval entrega a chave para encontrar o assassino da jovem professora de 23 anos, recem casada com um bancário que a ama de modo obsessivo. Eis o segredo que Sandoval desvela – “uma pessoa pode mudar tudo, sua cara, sua casa, sua família, tudo, mas há uma única coisa que ele não pode mudar. Ele não pode mudar sua paixão”. A paixão secreta, o pathos que cada sujeito carrega consigo secretamente, se deixa antever nos olhares flagrados pelas cameras.

  6. Leandro disse:

    Olá Lilany,

    Realmente, a questão da paixão é muito importante e muito bem retratada na trama do filme. O que achei interessante é a forma como esse controle da paixão sobre os personagens acaba resultando num ciclo de violências cada vez maior. Enfim, vou aguardar o seu texto sobre o filme, gostaria de ver como você vai desenvolver aquilo que mencionou no twitter.

    Um abraço e volte sempre

    Leandro

  7. Polycarpo disse:

    Leandro, escapando dessa primeira semelhança que a idéia mais ostensivamente circulante de 'paixão' parece ter com certa de idéia de 'amor' (eu temo que precisaria, para mim mesmo, dizer bem mais sobre essas conexões…) e recorrendo ao sentido etimológico do termo paixão (pathos), que remete à submissão de alguem a uma força que de certo modo lhe é externa e superior, encontramos todos os personagens do filme têm suas paixões expostas no enredo, paixões que se entrecruzam na trama.
    Longe de qualquer moralismo, a narrativa as expõe. E me parece muito importante que não as apresente desde uma perspectiva censurante e que até mesmo encene afirmativamente a vitória de uma paixão entretanto longamente sufocada, aquela em que os protagonistas afinal se encontram, como que numa superação de antagonismos tais quais, nesse caso, o ambiente profissional e o casamento. Terei de ver o filme de novo. Também "A fita branca" eu tive o prazer de ver.
    Leandro (e todos), ainda não li o texto para o qual vão nessa sequeência os comentários. De fato, este meu comentário parte de seu último comentário, de uma leitura apressada e meio descuidada que fiz dele e dos outros na linha.
    Abrassinté,
    Fico contente de enfim voltar a seu blog e de pela primeira vez entrar num diálogo nesse interessante espaço.

  8. Leandro disse:

    Polycarpo,

    Concordo com você. A ideia de paixão como algo que sofremos, que nos afeta e pode nos dominar é muito bem elaborada no filme. Por isso, o filme permite uma reflexão sobre a negatividade da paixão, especialmente quando contraposta em relação ao amor. Bem, depois podemos continuar a discussão. Um abraço e obrigado pela visita.

    Leandro

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