Setembro de Woody Allen

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Setembro é um filme considerado menor dentro do conjunto da obra de Woody Allen. Por falar nisso, estou pra ver outro diretor tão tripudiado pela “crítica especializada” quanto ele. Ano após ano, filme após filme, sua obra é questionada, sempre com o argumento perfeito de que suas novas produções não guardam o mesmo brilho daquilo que fez no passado. Há tantos filmes ditos menores que fica até difícil imaginar quais são os maiores. Dito isso, é evidente que essa distinção é coisa de espíritos com pouca imaginação, e mesmo os filmes mais irregulares de Woody Allen ainda são mais interessantes que a imensa maioria da produção cinematográfica. Passemos ao filme. Setembro se passa durante um final de semana, perto do fim do verão (no final de agosto), na casa de campo onde Lane se recupera de um colapso nervoso e de uma tentativa de suicídio. Além dela, encontram-se na casa mais cinco personagens: Howard, um velho professor e o vizinho mais próximo da propriedade; Stephanie, a melhor amiga de Lane, que passa as férias de verão com ela; Peter, um publicitário que tenta escrever um romance e mudar de profissão, por isso alugou o quarto dos fundos para se concentrar na escrita, mas acabou se envolvendo com Lane; Diane, a mãe da protagonista, que veio visitá-la durante o final de semana acompanhada de seu novo marido, Lloyd. A ideia de Lane era transformar o final de semana num dos últimos momentos na casa, já que estava acertando os últimos detalhes para vender a propriedade e partir. Porém, a presença de sua mãe acaba provocando uma reviravolta nos seus planos. A personalidade das duas é absolutamente contrastante: Lane é tímida e frágil, lhe falta confiança e vitalidade, sente-se incapaz de conduzir sua própria vida; Já Diane é uma mulher cheia de força e coragem, uma pessoa viva e ousada, mas também bastante individualista e egoísta, incapaz de mostrar alguma compaixão com o sofrimento alheio. Essas diferenças acabam tornando a convivência entre mãe e filha em algo quase insuportável, especialmente para a fragilizada Lane. E há um fato adicional, que agravou profundamente o relacionamento das duas: uma tragédia ocorrida muitos anos antes, quando Lane ainda era uma garota, e fatalmente acabou envolvida no assassinato do amante da mãe. Esse acontecimento se tornou uma espécie de signo que legitimou duas posturas diante da vida. Lane nunca conseguiu se recuperar do acidente, se tornando uma figura amarga e triste, sempre se preparando para uma nova catástrofe. A tragédia funciona, assim, como justificativa para sua própria debilidade. Diana, por sua vez, simplesmente preferiu seguir em frente, continuar vivendo. Para ela, a tragédia se tornou apenas um fato natural da vida, por isso o melhor é manter uma postura de indiferença e afastamento, na qual a única coisa que vale é atender seus próprios impulsos. Para Lane a vivacidade de Diana é insuportável, ela não consegue enxergar na mãe nada além de uma mulher egoísta e cruel, que não consegue lhe dar nenhum apoio. E o contrário também é verdadeiro, apesar de sua postura quase cínica diante da vida, Diana não consegue suportar a fraqueza de sua filha. Assim, a tônica da relação só pode ser o ressentimento. E ressentimento não costuma dar bons frutos. O filme gira em torno desse motor, como se a tensão entre as duas fosse se espalhando, contaminando a todos os demais visitantes da casa, que se converte num palco onde não para de surgir novas pequenas tragédias. É Howard que sofre pela iminente partida de Lane, ele que se afeiçoou com o papel quase paterno de cuidar da jovem abalada; É Peter que sofre pela sua incapacidade de terminar o próprio livro, mas também por ter se apaixonado por Stephanie e não poder concretizar esse amor; E Stephanie também sofre, sofre pelo tédio e falta de paixão da sua vida burguesa. E claro que isso tudo acaba apenas debilitando ainda mais a pobre Lane, especialmente quando ela descobre a paixão de Peter por sua melhor amiga. Há apenas um personagem que sai quase ileso dessa crescente rede de afecções tristes, é Lloyd. É dele, inclusive, que sai a formulação mais precisa daquilo que poderíamos enxergar como uma espécie de possibilidade de existência ética no universo de Woody Allen. Ele é um físico e quando perguntado qual era sua especialidade, se tinha participado do projeto que elaborou a bomba atômica, ele responde que não, mas que participou de algo infinitamente mais perigoso. Seu interlocutor fica meio inconformado e lhe pergunta o que seria mais perigoso do que uma arma capaz de destruir a vida no planeta, ele responde que seu trabalho é provar o absurdo da existência, a não-existência de uma ordem transcendental capaz de proteger a vida humana ou garantir qualquer tipo de justiça suprema. O perigo do seu trabalho, logo, é que ele arruína aqueles valores morais que se sustentam em premissas transcendentais. Isso, porém, não significa uma espécie de vale-tudo, mas é como se ele insistisse numa ideia simples: diante do vazio não sobra nada além daquilo que é feito com a vida. É apenas o que fazemos dela que importa. E o que fazemos, sempre, é afetar uns aos outros. Talvez por enxergar as coisas dessa maneira, Lloyd seja o único que conseguiu se manter afastado daquela teia de ressentimentos, a forma mais triste de afetar e ser afetado, que enredou a todos os demais. Quando o final de semana acaba e todos começam a partir, Lane aparece novamente fragilizada e sofrendo. Mais uma vez, ela assume pra si uma figura ressentida, como se mais uma vez ela tivesse permanecido no papel de vítima da situação. Só que agora há uma oportunidade para recomeçar. Como Stephanie lhe diz, setembro está chegando e o verão está acabando, é hora de partir. Essa possibilidade de recomeçar, muitas vezes presente no universo de Woody Allen, é o que retira seus filmes de uma posição demasiadamente niilista ou desesperada. O interessante é como esse recomeçar sempre aparece no campo das potencialidades, mas nunca das certezas. Afinal, é apenas nesse espaço incerto e imprevisto que pode existir qualquer tipo de ética (a certeza é o caminho mais rápido para a moralização de qualquer coisa).

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5 Comments to “Setembro de Woody Allen”

  1. Luiz Santiago disse:

    Olá, Leandro, bom dia.

    Eu sou o Luiz, editor do blog CINEBULIÇÃO, e em um de meus tours pela rede, cheguei ao teu blog.

    Em primeiro lugar, parabéns pelo espaço, e especialmente, pelos textos. Só pude ler cinco textos, e como meu encanto em relação às tuas críticas alcançou nível de admiração, devo dizer que já estou seguindo seu blog, e o dicionei à lista dos meus blogs parceiros por aqui, a fim de acompanhar tua produção a partir de agora.

    Você também é historiador! Mais uma coisa que me deixou feliz. E pelo que li, é também um grande admirador do genial Woody Allen. Eu sou completamente apaixonado por esse cineasta (aliás, meu top 3 conta com dois dos cineastas que o próprio Allen admira: Bergman e Fellini). Esse mês de janeiro ele é o "Diretor do Mês" aqui no CINEBULIÇÃO.

    Quero parabenizá-lo (again) pelo blog, pelos textos, e por ser um professor desses que a educação precisa (digo isso porque vi o vídeo da colação de grau de 2009 – como vê, fuçei muito teu blog).

    Se topar, gostaria de fazer parceria entre o teu blog e o meu. A indicação você já tem por aqui. Queria conversar sobre troca de artigos…

    Ah, uma coisa: sabe o que ajudaria bastante um leitor novo por aqui? Um campo de busca. Se quiser, o que eu uso aqui no Cinebulição é pelo google, mas tem busca exata, diferente de uns bem ruins que eu já testei. Aí depois te passo o código html dele…

    Abraço, partner.

  2. Leandro disse:

    Olá Luiz, bem vindo ao blog. Fico muito contente em saber que você gostou dos textos e que pretende acompanhar meu blog. Não conhecia o seu site, mas vou dar uma olhada com calma lá.

    É verdade, sou professor sim! Trabalho numa escola municipal de São Paulo. É bom saber que somos colegas de profissão ;)

    Como seria essa parceria? Sou totalmente a favor de trocar textos, inclusive se quiser compartilhar algo que escrevi no seu site, sinta-se a vontade para fazê-lo, só me avise quais textos você deseja reproduzir lá.

    Você tem razão, falta um mecanismo de busca. Mas não se preocupe. Estou num processo de mudança, pretendo reinagurar o blog no WordPress, trabalharei nisso nas próximas semanas. Já estou com um domínio registrado e só preciso instalar as ferramentas no meu servidor. Quando o novo site estiver pronto, deixarei um aviso aqui. Lá colocarei um mecanismo de busca e tentarei organizar melhor as informações. Caso as ferramentas do WordPress não sirvam pra isso, ai te peço o código que você utiliza.

    Bem, volte sempre e sinta-se livre para comentar e discutir os textos. Um grande abraço

    Leandro

  3. Pedro disse:

    Parabéns pelo texto. Quando terminei de ver o filme, ainda fiquei um tempo pensando para entende-lo melhor. Depois que li sua analise, tive uma visão bem mais completa e mais explicada sobre a profundidade do filme. Agradeço e parabenizo, porque aliás, é difícil achar bons textos com conteúdo de resenha na internet com clareza.

    • Leandro disse:

      Obrigado, Pedro. Fico feliz que tenha gostado. Os filmes do Woody Allen sempre são muito interessantes. Escrevi sobre outros filmes no blog. Volte sempre. Um grande abraço.

  4. luiz cesar disse:

    Leandro
    Achei exelente a sua resenha.
    Parabéns.
    Abraço.
    Luiz Cesar

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