Simpatia

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A proposta da peça Simpatia, com roteiro de José Rubens Siqueira e direção de Renata Melo, é contar a “história de gente comum que contêm os grandes temas, as coisas importantes da vida”. Essas histórias foram construídas por meio de depoimentos femininos, mostrando a “valentia”, o “heroísmo” e os esforços dessas mulheres para se inserirem na “sociedade de Mercado sem se render à desumanização da Lei do Mercado”. Esse tema surrado do uso pode resultar numa grande peça, numa bela história, quando retomado em nova chave, dando um novo sentido, um novo significado. No entanto, essa escolha pode causar grandes problemas quando não se consegue escapar do clichê, insistindo em idéias pré-concebidas e temas recorrentes. O texto de Siqueira, infelizmente, acaba realizando a segunda possibilidade. O texto é composto de fragmentos de histórias, repetindo a exaustão certas imagens e concepções comumente associadas ao mundo feminino, construindo um discurso excessivamente piegas e normativo. O ponto de apoio de grande parte das narrativas é o espaço privado. É a preocupação com a família, com a maternidade, com o casamento que dão contorno à vida dessas mulheres. O trabalho aparece também, mas sempre como algo que problematiza o universo privado, que força o abandono do lar, do marido, da família. Tudo isso contado da forma mais batida possível: a moça que foi violentada pelo parente e foi expulsa de casa, as amigas que fofocam sobre seus problemas conjugais e sexuais, a senhora rica que foi abandonada pelo marido (no caso, ele se suicidou) após a falência, o problema do marido alcoólatra, etc. Uma infinidade de cenas que remetem ao velho clichê do universo feminino, é acima de tudo disso que se trata Simpatia. Vale dizer que o título expressa um péssimo duplo sentido. Remete tanto a compaixão que a peça busca inspirar no seu público quanto aos recorrentes “pequenos rituais para conseguir coisas boas ou prevenir ruins”. É isso mesmo, a boa e velha mandinga. Pois é, um sem-número de narrativas versam sobre o papel das simpatias na vida dessas mulheres, na conquista de seus sonhos e na superação das dificuldades de suas vidas. Curiosamente, há uma historieta que satiriza a coisa toda da simpatia, criando uma situação completamente absurda, no entanto essa é encenada por um ator. No final das contas, as simpatias se somam ao amontoado de chavões que nosso imaginário social constrói quando pensamos no universo feminino, reificando papéis e quase que naturalizando determinadas relações de gênero. Bem, apesar disso tudo, há um ou outro momento que consegue criar algo bacana, especialmente duas cenas bem no final do espetáculo: uma que traz uma senhora angustiada pela progressiva perda de sua sanidade e outra sobre a relação entre uma senhora, seu cão velho e seu filho. Duas histórias sobre velhice que poderiam ser muito melhor exploradas. A montagem também é toda muito bem feita, boas atuações, um cenário cheio de truques, enfim resultado de um belo investimento e patrocínio. Pena que isso, por si só, não faça as coisas ficarem mais interessantes.
Em tempos, acabei de descobrir que a belíssima peça “Últimas Notícias de uma história só” vai reestreiar no dia 02 de abril, no Teatro Augusta. É excelente e imperdível, especialmente se estiver num horário mais acessível (da última vez era exibida no pior horário para quem depende de transporte público, meia noite).
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One Comment to “Simpatia”

  1. vagner disse:

    Para ganhar no jogo do bicho Conte 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,9,8,7,6,5,4,3,2,1 em seguida repita: Bruxos e bruxinhas assim que esta simpatia eu publicar,acertarei a milhar do primeiro premio do jogo do bicho hoje

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