Sobre a vida acadêmica

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“Uma famosa romancista é convidada por alguma universidade para dar uma palestra. Sua visita coincide com a visita do professor X, que lá está para dar uma palestra sobre (digamos) as moedas hititas e o que elas podem nos revelar sobre a civilização hitita
Num impulso, a romancista comparece à palestra do professor X. A platéia tem apenas seis outras pessoas. O que X tem a dizer é interessante, mas sua fala é monótona e há momentos em que ela sente sua atenção se desviar. Ela chega a dar uns cabeceios.
Depois, ela puxa conversa com o professor que convidou X. X, ela descobre, é muito estimado entre seus colegas acadêmicos; mas enquanto ela está alojada em um hotel de luxo, X está acampado no sofá da sala de seu hospedeiro. Embaraçada, ela se dá conta de que enquanto ela faz parte de uma ala modestamente florescente da indústria do entretenimento, X pertence a uma ala negligenciada e desprestigiada dentro da academia: resquícios dos maus parasitas acadêmicos dos velhos tempos que não trazem nem dinheiro nem prestígio.
A palestra dela, no dia seguinte, atrai uma grande platéia. Em suas observações preliminares, ela compara a cálida recepção a ela com a fria recepção a X (…). A disparidade lhe parece vergonhosa, diz; em que se transformaram as universidades?
No jantar em sua honra, depois da palestra, ela se surpreende ao descobrir que o reitor, longe de se incomodar com suas observações, ficou satisfeito. Toda controvérsia é boa controvérsia, ele diz a ela (…). Quanto a X, esses acadêmicos da velha guarda não estão tão mal como ela parece pensar. Gozam de estabilidade no emprego, de salários substanciais, e em troca de quê? De conduzirem pesquisas que no esquema geral das coisas equivalem a não mais que hobbies de antiquários. Onde, senão nas universidades públicas, eles conseguiriam uma situação tão vantajosa?
De volta a sua casa, ela escreve ao professor X, relatando sua conversa com o reitor. X responde: Não devia se sentir mal, diz ele, não me lancei aos estudos hititas para ficar rico ou famoso. Quanto a você, diz ele, você merece tudo o que receber, você tem a centelha divina…”
(J. M. Coetzee, Diário de um ano ruim, p.196-197)
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3 Comments to “Sobre a vida acadêmica”

  1. Thiago F. disse:

    Ser X ou não ser, eis a questão. Vou procurar o livro, muito bom texto. Não escrevem mais? Poxa!

  2. Cristian Korny disse:

    sob a ótica desse reitor não haverá mais progresso científico, pois esse progresso é feito justamente de pesquisas que antes de seu tempo pareciam não levar a lugar nenhum, isto é pesquisa, é sem propósito aparente no presente, mas no correr dos tempos se descobre a utilidade delas, quem acredita que se possa controlar e dirigir seus resultados de antemão não passa de um ludibriado, e nada mais:O)

  3. Leandro disse:

    Cristian, o livro do Coetzee é muito bom, foi de lá que retirei esta citação. Se puder, tente dar uma lida, vale a pena. Um abraço.

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