Sobre educação III

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Marcelo Coelho, colunista da “Folha de São Paulo, escreveu dois comentários sobre o filme “Entre os muros da escola” – um deles no caderno “Ilustrada” de 08/04/09; o outro no seu blog – que me forçaram a refletir sobre uma questão que vem me incomodando nos últimos tempos. Coelho elogiou bastante o filme, mas o que me interessa não é exatamente sua opinião a respeito dos méritos desse excelente filme. O colunista, a partir de sua leitura do filme, articula certa visão da escola contemporânea muito disseminada. Ele enxerga no filme um nítido retrato da falência de um determinado modelo escolar, a escola república pública e laica francesa, ou seja, o modelo quase universal de escola pública na sociedade ocidental. O fracasso da instituição aparece, segundo ele, na forma como o professor François lida com seus erros e insucessos cotidianos, como trata de maneira autoritária e distanciada seus alunos. Com isso, sua “falta assustadora de flexibilidade e de afeto destrói por dentro aquele sistema educacional organizadíssimo – e cego para as necessidades de cada ser humano, aluno ou professor”. A falência escolar força os personagens escolares a “sobreviverem como podem, sofrendo e se irritando, numa atividade cujo sentido e cuja alma se perderam. Perderam-se há tanto tempo, que ninguém mais lembra que deveriam existir”. Marcelo Coelho, portanto, enxerga um nítido processo de desagregação de um espírito escolar, de uma alma da escola, ligada ao afeto e às necessidades humanas mais básicas. Se a escola de hoje perdeu esse sentido mais profundo, certamente a escola do passado era um lugar muito melhor. Esta idéia aparentemente banal possui uma ressonância incrivelmente forte nas práticas dos educadores e políticos que atuam em torno da instituição. Na essência, essa idéia está imbricado a certo espírito utópico atribuído ao ambiente escolar: é a crença de que a escola é um dos pilares da transformação social, a instituição capaz de instilar no corpo social todo o ordenamento necessário para a formação da boa sociedade. Por isso, a decadência da escola está relacionada com a dissolução social, a violência e a desigualdade. Essa idéia, como deve ser fácil de imaginar, tem como contrapartida a crença de que é também pela transformação dessa escola corrompida que será operada uma verdadeira transformação no governamento do corpo social, ou seja, a nova escola será responsável pela criação de uma nova sociedade, mais equilibrada, harmônica e justa. Nesse sentido, é muito instrutivo o artigo de Cristovam Buarque no “Le Monde Diplomatique Brasil” de abril/09. O senador e ex-ministro da educação defende algumas medidas que permitiriam a recuperação da crise global que enfrentamos. De maneira muito sintética, ele defende a adoção da política do educacionismo: o investimento pesado na construção de escolas, no seu aparelhamento, na capacitação de professores, na bolsa-escola, etc., que teriam um efeito similar ao das políticas keynesianas, mas com efeitos sociais muito mais positivos. Isso se justifica, segundo seu ideário, pois o edudacionismo é o único movimento “revolucionário” que pode substituir o modelo capitalista de sociedade, através da “igualdade no acesso de cada pessoa à educação de qualidade, tendo em vista sua emancipação e capacidade de participação em um projeto libertário, pessoalmente e coletivamente. No lugar da visão de desapropriar o capital do capitalista e passá-lo às mãos do trabalhador, por meio da máquina do Estado, o educacionismo propõe levar o filho do trabalhador à mesma escola do filho do capitalista, por meio da escola pública”. Como ele mesmo explica, a crise atual é fruto de um “modelo civilizatório” que destrói as fontes naturais do mundo e cria uma sociedade desigual e injusta, por isso o único caminho é “uma revolução na mentalidade, só possível pela educação de qualidade para todos (…), que potencializaria o uso do cérebros humanos de toda a humanidade e enriquece o mundo com a ampliação do capital conhecimento em escala global”. A escola decadente, responsável pelas mazelas sociais, é irmã da escola revolucionária, aquela capaz de iniciar a grande cura social que o mundo tanto precisa. De comum, há um espírito fortemente utópico em relação ao projeto escolar, a crença de que a escola ocupa um lugar central na construção do social. Essa perspectiva utópica nubla o fato de que a escola é uma instituição alojada no centro do processo de disciplinarização e assujeitamento do homem moderno, processo que, ainda que esteja em profunda crise em nossa contemporaneidade, foi responsável pela conformação disso que entendemos por sociedade capitalista. O modelo escolar é, assim, uma construção histórica, vinculada a formação de uma racionalidade governamental muito específica e, portanto, modelado segundo certa lógica de poder e de criação de um determinado tipo de sujeito. Essa característica está tão intimamente alojada na instituição escolar que não é possível simplesmente reformá-la para criar algo melhor ou mais libertário. A escola moderna, a nossa escola, sempre funcionou segundo os mesmos mecanismos disciplinares, o sentido da ação escolar não se perdeu, o que aconteceu é que os mecanismos disciplinares já não são tão centrais na constituição do sujeito contemporâneo quanto no passado. Da mesma forma, acreditar que é possível criar uma nova escola, libertadora e capaz de revolucionar a sociedade capitalista é ignorar a própria dinâmica de funcionamento da instituição escolar. É aqui que entra meu grande incomodo. Essa perspectiva utópica, essa crença na possibilidade transformadora da escola, se imiscui na prática cotidiana de todos aqueles que lá atuam, criando uma expectativa que nunca vai se realizar, uma visão catastrófica do ambiente escolar e de tudo que o circunda. Essas expectativas alimentam todo um jogo de verdades que define e explica tudo que acontece no ambiente escolar, a própria idéia de “fracasso escolar” só pode existir quando atrelada a uma determinada concepção de sucesso, de projeto, de ação transformadora. É o pilar do autoritarismo escolar, da ação negadora, do fechamento de possibilidades, de toda violência que a escola cria e recria. É a raiz do fracasso do estudante, do fracasso do professor, do fracasso dos agentes escolares, do fracasso da instituição. Isso fica mais evidente no trabalho cotidiano, quando essas profecias auto-realizadoras justificam todo tipo de ação violenta e desmedida, que alimentam o imobilismo e engessam a ação coletiva. O projeto escolar, vinculado à criação de uma sociedade disciplinar, está cada vez mais esvaziado, por isso a grande questão é pensar o que fazer a partir desse ponto. Será que o melhor caminho é tentar reatualizar esse projeto? Insistir em vincular a escola a um projeto utópico de construção do social? Ou começar a refletir sobre o papel da escola numa perspectiva menos esperançosa, abandonando as expectativas de governar e recriar o social a partir da escola? O projeto escolar, seja aquele que imaginamos no passado, vivenciamos no presente, ou planejamos para o futuro, continuará reproduzindo sempre o Mesmo. Talvez seja hora de abandonar essa utopia escolar em prol de uma “desutopia”, ou seja, “um vazio de projeto, que nada tem a ver com um desencanto pós-moderno ou qualquer volúpia niilista, mas antes com a ousadia de sustentar um espaço de abertura, de indeterminação, um pleno de possíveis, uma crise a partir da qual múltiplas virtualidades possam ser atualizadas”[1]. Deixar o Mesmo e procurar algo diferente, ainda que para isso seja necessário abandonar a própria idéia de escola.



[1] Peter Pál Pelbart, Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 88.

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