Sobre educação

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A proposta desse ensaio é discutir o papel da escola no mundo moderno. Essa discussão me parece importante frente à idéia recorrente de crise desse espaço institucional. Para tal, recorrerei às reflexões de Hannah Arendt sobre o tema. Além disso, discutirei alguns temas e textos que julgo pertinente ao tema.

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Hannah Arendt aponta que o aspecto mais essencial da educação é a natalidade, ou seja, o cuidar do novo e daqueles que nascem para o mundo. Educar é introduzir o novo ao mundo e no mundo. É apresentar o novo para a tradição e o passado do mundo. O educador deve servir como um mediador entre o velho e o novo.

Nesse sentido, para a autora a escola é a instituição que deve estar situada entre a família e o mundo, introduzindo a criança no espaço público. Isso significa que a escola tem um papel qualitativamente diferente da família. Ainda que ambas devam se responsabilizar pelas crianças, suas preocupações são outras. Enquanto a família deve buscar o bem-estar e a proteção da criança, a escola está mais preocupada com o “livre desenvolvimento de qualidades e talentos pessoais”. Em outras palavras, a escola deve introduzir as crianças numa linguagem e em um conjunto de regras específicas, lhes capacitando para a ação política.

Entretanto, a escola não é o mundo e não deve fingir sê-lo. Sendo assim, a educação não pode desempenhar nenhum papel político, ou melhor, a ação educativa não pode ser política, já que essa esfera se reserva apenas àqueles que já são educados. Além disso, não se pode querer educar adultos, pois isso seria impedi-los da atividade política, tutelando suas ações. Essa separação é fundamental para entender a atividade educacional: “parece-me que o conservadorismo, no sentido de conservação, faz parte da essência da atividade educacional, cuja tarefa é sempre abrigar e proteger alguma coisa – a criança contra o mundo, o mundo contra a criança, o novo contra o velho, o velho contra o novo. Mesmo a responsabilidade ampla pelo mundo que é aí assumida implica, é claro, uma atitude conservadora. Mas isso permanece válido apenas no âmbito da educação, ou melhor, nas relações entre adultos e crianças, e não no âmbito da política, onde agimos em meio a adultos e com iguais. Tal atitude conservadora, em política (…), não pode senão levar à destruição, visto que o mundo, tanto no todo como em parte, é irrevogavelmente fadado à ruína pelo tempo, a menos que existam seres humanos determinados a intervir, a alterar, a criar aquilo que é novo.”

A educação é diferente da política porque nessa deve se estabelecer uma relação simétrica entre homens e naquela uma relação assimétrica entre homens e crianças. É nessa assimetria que se assenta o pilar da atividade educacional: a autoridade. Autoridade advinda da assimetria de experiências, de domínio de uma linguagem, de um estar no mundo mais longo. O professor só é professor porque sabe algo que o aluno não sabe. E está disposto a compartilhar esse saber com o aluno. Portanto, a educação só existe através e pela autoridade. E a mesma autoridade, que é central na educação, só pode ter efeitos perniciosos quando chega à política.

É também na autoridade que reside outro aspecto importante da educação: a responsabilidade pelo mundo. Como já foi colocado, o professor é o que é por possuir um conjunto de experiências que o distingue do aluno. Mas, isso só não basta. Este deve compartilhar suas experiências. É através desse ato que ele assume a responsabilidade pela conservação do mundo. Assim, ao partilhar o seu conhecimento, o professor introduz a criança no mundo, mas também abre caminho para essa renovar o mundo. Por isso que Arendt fala que a “educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

No entanto, uma das marcas do mundo moderno é, justamente, a ruptura com a tradição e o esfacelamento das autoridades. Há uma profunda quebra entre o passado e o futuro em nossa sociedade. Essa quebra foi progressivamente minando as bases de qualquer autoridade, igualando todos e tudo. A perda do senso comum é uma conseqüência direta desse processo. A educação não é uma exceção. A tentativa de transformar a educação em um instrumento da política, substituindo seu vínculo íntimo com a conservação da tradição, pôs em xeque a própria idéia de educar.

Ademais, a noção de responsabilidade também está se esvaindo, já que ela está intimamente relacionada com a idéia de autoridade. A perda dessa autoridade significa que ninguém é mais responsável pela vida de ninguém, todos devem se responsabilizar da mesma forma. Mas, isso não ocorre, e todos se abstêm desse cuidado para com o mundo. Logo, os adultos ao invés de introduzir o mundo às crianças, fazem o contrário. É como se todo momento ficassem dizendo: “Nesse mundo, mesmo nós não estamos muito a salvo em casa; como se movimentar nele, o que saber, quais habilidades dominar, tudo isso também são mistérios para nós. Vocês devem tentar entender isso do jeito que puderem; em todo caso, vocês não têm o direito de exigir satisfações. Somos inocentes, lavamos as nossas mãos por vocês.”

Em suma, os adultos recusaram sua autoridade. Desse modo, também recusaram a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças. Para a autora, a única forma de evitar essa desresponsabilização é divorciando completamente o âmbito da educação dos demais: “O problema da educação no mundo moderno está no fato de, por sua natureza, não poder abrir mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade nem tampouco mantido coeso pela tradição. Isso significa, entretanto, que não apenas professores e educadores, porém todos nós, na medida em que vivemos em um mundo junto à nossas crianças e aos jovens, devemos ter em relação a eles uma atitude radicalmente diversa da que guardamos um para com o outro. Cumpre divorciarmos decisivamente o âmbito da educação dos demais, e acima de tudo do âmbito da vida pública e política, para aplicar exclusivamente a ele um conceito de autoridade e uma atitude face ao passado que lhe são apropriados mas não possuem validade geral, não devendo reclamar uma aplicação generalizada no mundo dos adultos”

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As reflexões de Hannah Arendt, aqui apresentadas, são de 1968. Desde então, suas idéias só ganharam pertinência. Os problemas expostos, em seu texto, assumiram uma relevância crescente. As questões da perda autoridade e da responsabilidade são centrais nas representações e no discurso pedagógico. Tanto professores quanto pedagogos buscam refletir sobre o papel da educação e a forma como esta lida com a (in)disciplina. Para muitos autores essa questão está no cerne da crise institucional pela qual a escola passa.

Julio Groppa Aquino, por exemplo, coloca grande ênfase nessa questão. Para o autor, a autoridade é a amálgama das relações institucionais dentro da sala de aula. O problema é que esse elemento se encontra visivelmente abalado no mundo contemporâneo. Com isso, ocorre uma profunda desregulamentação das regras do espaço público e o prevalecimento das personalidades sobre os papéis sociais, especialmente no espaço escolar.

Diante deste quadro, parece inevitável que para a efetivação do ato educacional seja necessário a utilização de mecanismos que buscam (re)construir na escola um ambiente institucional, ou seja, organizado por “uma sucessão de rotinas, regras e expectativas próprias delimita e, ao mesmo tempo, faculta suas existências concretas. Sem tais elementos dispostos para ambos, a relação entre professor e aluno não poderia se efetivar a contento, ou sequer acontecer.”

No entanto, tais regras e papéis encontram-se dissociados da prática. A desregulamentação hodierna é de tal maneira acentuada que “(…) o fenômeno da autoridade deve ser compreendido como um efeito institucional sempre singularizado pelas condições concretas de sua consecução. Nessa perspectiva é necessário assinalar que o reconhecimento da autoridade do agente [o professor] não é uma reação automática, nem um dever ‘natural’ da clientela [os alunos]; ele precisa ser forjado na ação cotidiana, e sempre em ato.”

A conseqüência disso é que a autoridade precisa ser “sustentada continuamente por meio de práticas sociais contratualizadas, que a reinauguram sem cessar. Daí seu caráter de oscilação e, por extensão, de provisoriedade”. As dificuldades advindas dessa provisoriedade, entretanto, não legitimam o abandono da relação de autoridade. Na realidade, esta deve ser assumida como um postulado ético dentro da sala de aula.

Aqui vale a pena destacar alguns pontos da reflexão de Alfredo Veiga-Neto sobre a questão. Esse autor aponta que o elo entre a escola e a sociedade moderna é a disciplinaridade, ou seja, a capacidade de se autogovernar mais e melhor. Contudo, o autor percebe uma mutação profunda na sociedade, que abandonou seu abandonando seu projeto disciplinador. A interiorização da disciplina foi substituída pelo controle externo, contínuo e ininterrupto (essa distinção entre sociedade disciplinar e sociedade de controle merece, em outra ocasião, uma exploração mais detalhada).

A escola, que é entendida por muitos como a “grande fábrica” de subjetividades na sociedade disciplinar, nesse novo contexto social, começa a parecer obsoleta. No entanto, Veiga-Neto pensa de outra forma. O autor entende que nesse quadro a capacidade de autogoverno se torna ainda mais importante, já que seria a única forma de defesa contra práticas de controle e coerções externas, chegando a dizer que “mesmo que se consiga que em todas as escolas se ensinem os mesmos conteúdos (…), um trato diferente das questões disciplinares já poderá, por si só, gerar uma profunda desigualdade em termos sociais”.

Portanto, novamente, a autoridade deve ser pensada como um postulado ético dentro da sala de aula.

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O projeto da escola moderna em nosso mundo contemporâneo ainda é viável? Essa é a questão de fundo que motivou esse ensaio. A formação de novas subjetividades, os estudantes pós modernos – marcadas por um nexo totalmente diverso entre a cultura juvenil e a mídia global, o que produz uma experiência do tempo e do espaço acelerada e permeada pela alta tecnologia e a cultura de massa – exige uma relação toda diversa com a escola. O problema é que as escolas lidam com estes sujeitos pós-modernos da mesma forma que lidavam com as gerações anteriores. Para muitos autores, existe um verdadeiro descompasso entre essas práticas antigas e as necessidades dos adolescentes contemporâneos. Em vista disso, como pensar que “a aprendizagem volta-se inevitavelmente para o passado, não importa o quanto a vida seja transcorrida no presente”?

Logo, as mudanças na sociedade contemporânea trazem profundas implicações para o mundo escolar. Não é só uma questão técnica, ou seja, a escolar atualizar seus conteúdos, seus aparelhos tecnológicos, seus professores. Se fosse só isso seria fácil. Mas, o problema é muito mais fundo.

Como se sabe, a nossa concepção de infância e de criança foi historicamente construída, estando intimamente relacionada com o aparecimento da escrita e com o desenvolvimento de uma determinada concepção de escola. Não é possível pensar em infância sem escola, e escola sem o discurso escrito.

Porém, as mudanças sociais estão modificando nossa relação e nosso sentido de infância. Não é mais através da transmissão do discurso letrado, nem através da escola, que as novas gerações se subjetivam. A cultura de massa e os novos meios de comunicação são muito mais relevantes nesse processo. Ou seja, o papel da tradição, do ser inserido em uma experiência do mundo, não está mais no horizonte dessas novas subjetividades. Talvez nem seja mais possível entender essas novas gerações com conceitos de infância, criança, adolescente, adulto.

Por isso, penso que o desencaixe é muito profundo. Como apontei, as idéias de autoridade, responsabilidade e assimetria estruturam a escola moderna. Mas, como construir autoridade em um mundo no qual as experiências não contam mais? Qual é o sentido de educar nesse mundo? Acho que essas são as questões que todo educador deveria fazer.

De qualquer modo, gostaria de finalizar essa minha reflexão colocando que, apesar de soar contraditório ou incoerente, penso que ainda devemos defender com toda força o imperativo ético que Julio Groppa Aquino, lendo Hannah Arendt, nos lança. O professor não pode nunca abandonar sua responsabilidade: a natalidade, o cuidado com o novo, a transmissão de uma corrente de tradições. Ainda que essas tradições pareçam cada vez mais desconectadas das necessidades urgentes do cotidiano.

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