Super 8 de J. J. Abrams

2

Depois de assistir ao Super 8, do diretor americano J. J. Abrams, não pude evitar de lembrar do conceito de pastiche. Este foi elaborado por Fredric Jameson, um dos mais renomados críticos da cultura marxista ainda em atividade, e conheceu incrível sucesso nos meios acadêmicos. Era uma forma de entender a arte na passagem da modernidade para a pós-modernidade, especialmente do ponto de vista do cinema. Para reconhecer a presença desse conceito, basta citar, como exemplo, uma coletânea como O cinema dos anos 80, organizada por Amir Labaki. Praticamente todos os artigos do volume partem ou passam pelas ideias de Jameson para explicar o cinema produzido na década de 1980. Ainda que de forma menos intensa, o conceito continua em circulação, servindo como chave interpretativa para um bocado de coisas. A ideia é muito simples, talvez por isso encontre tanta ressonância. Jameson defende que o pastiche é uma forma de imitação de estilo, porém não é qualquer tipo de imitação. Ele o distingue, por exemplo, da paródia. Esta seria uma imitação crítica, que se apodera do estilo imitado de forma a ridicularizá-lo, abrindo caminho para a criação de um novo estilo. Por isso, a paródia foi algo próprio da arte moderna, não encontrando mais ressonância na contemporaneidade. Já o pastiche é a imitação desprovida desse espírito crítico, é a imitação de estilos mortos, a fala através de máscaras e com as vozes dos estilos do museu imaginário, sem o impulso satírico, sem o riso. Isso significa que na pós-modernidade existe uma espécie de esgotamento, no qual os artistas não conseguirão (sic!) mais inventar novos estilos e mundos – é que todos estes já foram inventados; o número de combinações possíveis é restrito; os estilos mais singulares já foram concebidos. Nesse sentido, Super 8 parece justamente mais um caso de pastiche. Lá estão todos os elementos dessa forma de produção artística: as crianças aventureiras, o misterioso acidente, a conspiração governamental, a presença de um monstro alienígena, a paixão atrapalhada do protagonista, a cidadezinha do interior, etc. O filme parece um palimpsesto de referências e homenagens, propriamente um filme nostálgico (ah sim, os filmes nostálgicos são a manifestação por excelência do pastiche na perspectiva de Jameson, tais como American Graffitti, Chinatown, O conformista ou mesmo Guerra nas Estrelas, todos nominalmente citados no artigo famoso do crítico). Também não é difícil acompanhar o desenvolvimento da trama, afinal segue cuidadosamente o esquema tradicional desses filmes de aventura. As crianças presenciam um acontecimento misterioso; este desencadeia uma série de fatos assustadores, inclusive com a presença de uma criatura monstruosa, e instaura o caos na pequena cidade; o monstro toma conta da cidade e pânico se espalha; pra piorar a paixão do protagonista é capturada pela criatura; porém a bravura dos jovens heróis, junto com o apoio de alguns personagens secundários, é grande o bastante para superar as dificuldades e vencer a ameaça, salvando a cidade e garantindo o final feliz. Todo mundo consegue imaginar isso, afinal é um estilo consagrado no cinema americano. Caso o filme fosse apenas isso, seria um filme bem pouco interessante, nada além de um grande pastiche que serve apenas como exemplo para validar a reflexão de Jameson. Porém, existe algo que provoca uma inversão importante nessa construção. Há um filme dentro do filme. O verdadeiro motor da narrativa, a meu ver, não é a trama pastiche já mencionada, mas o esforço das crianças em produzir um pequeno curta para participar de um concurso de filmes de horror. E o tema desse filme é dos mais significativos, um filme de zumbi. Não há nada que seja mais imitado, repetido e copiado, ad nauseam, do que este. Mais do que isso, é um filme de zumbi misturado com um filme noir, outro campeão de cópias e a fórmula por excelência dos filmes nostálgicos. Ou seja, a combinação que possibilita a repetição do número máximo de clichês cinematográficos. Sendo assim, o pequeno filme seria um pastiche dentro do pastiche? Creio que não. Há uma espécie de ironia bastante crítica que sustenta essa produção dentro da produção. É como se o filme dissesse, sim isto é um clichê, uma cópia desprovida de vida ou originalidade, justamente porque isso é coisa de crianças, uma espécie de vontade de retornar ao universo infantil e seu imaginário marcado por esses gêneros fílmicos. A cópia dentro da cópia acaba subvertendo o esquema do pastiche, dotando o filme de um senso crítico bastante imprevisível, lembrando aquela forma de paródia tão apreciada por Jameson. Mas, uma paródia especial, uma paródia do próprio pastiche. E a homenagem deixa de ser uma mera repetição, para tornar-se a crítica dessa repetição vazia, que aparece agora como uma forma infantilizada de criação cinematográfica. Se isso é uma postura consciência do filme, não dá pra saber. O que posso dizer é que é justamente nesse gesto que ridiculariza a si próprio que o filme ganha sua maior vitalidade e interesse. E ao final, o filme dentro do filme ganha vida própria, aparecendo nos créditos como o negativo do próprio filme, como a própria paródia dessa vontade de repetição que marca a produção e a reflexão sobre o cinema na contemporaneidade. Não precisa ser nenhum gênio para perceber o quanto a própria formulação jamesoniana se tornou um pastiche de si mesma, sendo também repetida ad nauseam para explicar uma infinidade de coisas. Ainda que incidentalmente, Super 8 é um grande filme, na medida em que mostra o vazio dessa crítica que (também) insiste em só se repetir.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “Super 8 de J. J. Abrams”

  1. Muito bom seu texto, meu caro. Essa relação com o pastiche faz todo o sentido dentro dessa postura assumida de referencialidade. Mas por mais que essa carga de referências seja muito gostosinha, acaba por tirar um traço de originalidade que o filme poderia ter. Tudo é muito tirado de uma série de referências que a gente carrega das próprias imagens de cinema (juvenil). De qualquer forma, é uma experiência deliciosíssima de se ver.

    • Leandro disse:

      Sim, também achei uma experiência bacana proposta pelo filme. O que me parece interessante na ideia do pastiche é justamente a subversão dele no filme dentro do filme. Acho que isso mostra bem como a própria noção de pastiche acabou virando um pastiche de si própria, repetida a exaustão.

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.