Dia e Noite é uma das animações mais interessantes que a Pixar já fez (e até mais interessante que o próprio Toy Story 3, apesar deste também ser muito bonito). Apesar da sua simplicidade, é um curta de cerca de 6 minutos, a animação é muito bonita e guarda um forte sentido ético. O filme começa com o despertar de um personagem bem esquisitinho, uma espécie de fantasminha transparente. A escuridão que lhe cerca é contrastada pela luminosidade de sua barriga, que funciona como uma janela que dá acesso e visibilidade ao mundo (a simplicidade na construção do bichinho é contrastada com a riqueza de detalhes da animação desse mundo). É através dos seus movimentos que o mundo também entra em movimento, vemos cenas da natureza, uma cachoeira, alguns animais, paisagens tranqüilas e repletas de sossego. Porém, no seu caminho, a criatura encontra um ser misterioso. Na aparência, ambos são muito parecidos, mas seus corpos dão acesso a dois mundos completamente distintos: um é o dia, o outro é a noite. Eles se olham e conseguem apenas enxergar a alteridade de si próprios. O outro é o estranho e o incompreensível, por isso a primeira reação de ambos se limita a um esforço de anulação daquilo que é estranho na manifestação do outro. Eles se agarram, se batem, se jogam, mas a força não é capaz de aproximá-los. A diferença permanece irredutível. É difícil imaginar uma representação fílmica mais simples e clara, mas também intensa e poética, dessa percepção do outro como algo incompreensível e ameaçador. As duas criaturas tomam consciência de uma espécie de fissura, não há possibilidade de se tornar o outro, nem de reduzir a sua estranheza para um plano comum. Assim, é a partir dessa consciência que elas buscam um novo caminho para se relacionar. Só que agora não mais buscando a anulação da diferença, mas a partir de uma experiência de compartilhamento, num com-sentir a alteridade do outro. É por isso que o curta é atravessado por um forte sentido ético: a possibilidade de uma experiência comum não nasce da anulação da diferença e nem do encontro com um idêntico, mas num esforço de abertura para a alteridade, para aquilo que é irredutível e inalcançável no outro. Isso significa que o fundamento de qualquer relação a dois, e em especial daquilo que chamamos de amizade, se localiza nessa impossibilidade de fusão do outro com o eu. E a cena que ilustra isso é belíssima: as duas criaturas se abraçam e lentamente o dia se torna noite e a noite se torna dia. O eu vira outro, mas no mesmo movimento o outro vira eu e a identificação, capaz de anular a diferença, dura apenas um breve lapso de tempo, apenas para afirmar uma nova diferença. É nesse jogo de deslocamentos, de diferença em diferença, que ganha algum sentido o gesto de compartilhamento de experiências. É por isso que poucas vezes o cinema conseguiu fazer um elogio da amizade com tanta intensidade como nessa breve animação.

Tropa de Elite 2 de José Padilha

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Tropa de Elite 2 é um filme que permite múltiplas leituras. É possível enxergar o filme como a mais bem acabada manifestação cinematográfica de uma tese muito disseminada em tempos recentes, qual seja, a compreensão da política como um fenômeno essencialmente moral. Esta tese funciona a partir de um nexo explicativo: a corrupção como o grande cancro da sociedade brasileira. Tudo que está errado no Brasil é culpa da falta de escrúpulos e da ganância solidamente disseminados pelo tecido social, partindo de seu topo (os políticos), esparramando-se numa espiral descendente até o rés do chão. Nesta perspectiva, a possibilidade de redenção é resultado do mais simples voluntarismo: precisamos de pessoas integras e capazes de se afastar da sujeira da corrupção, o que por si só possibilitará a consolidação de uma sociedade mais justa e igualitária. Na falta dessas pessoas justas, o Brasil continuará reproduzindo sua catástrofe sem fim. É fácil perceber como esta tese funciona a partir do filme de José Padilha. A trama se passa 15 anos depois do primeiro filme, agora o Capitão Nascimento não é mais um membro do Bope, pois se tornou Coronel e Sub-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. No seu novo papel, ele pretende acabar de uma vez por todas com aquilo que sustenta (na sua opinião) a violência no Rio de Janeiro: o tráfico de drogas, liderando uma grande ofensiva, com apoio do governo do estado, de políticos e da mídia, contra o crime organizado. Sua postura incorruptível e sua obstinação, apoiados pela violência eficaz de sua equipe, conseguem resultados fabulosos, capazes de desbaratar a influência do tráfico nas favelas cariocas. A esperança de Nascimento era que sua ofensiva fosse suficiente para desarticular os interesses escusos criados entre as autoridades policias e os traficantes, resolvendo também o problema de corrupção do Estado carioca. Entretanto, rapidamente esta esperança se esvai. A corrupção sistêmica encontra outro espaço de manifestação, através das milícias que tomam conta do território agora livre dos traficantes. Assim, o Coronel Nascimento encarna um sentido trágico: todas as suas ações só conseguem piorar a situação, aumentando a violência urbana e a corrupção. O filme pode ser resumido na tomada de consciência da trágica condição do homem de bem numa sociedade imunda. Tudo e todos estão envolvidos, de alguma maneira, naquela realidade brutal e imoral e Nascimento descobre, da pior maneira possível, os laços que unem as milícias urbanas com os políticos: a violência é a melhor fábrica de votos. Quanto mais as milícias avançam, mais os lucros e os votos são revertidos àqueles que a apóiam. É contra essa íntima afinidade entre política, corrupção e violência que Nascimento vai erguer toda sua força. Ele toma consciência de que sua luta não é mais contra o crime organizado. Agora sua luta é contra o sistema e toda estrutura que o sustenta. E quase como um Quixote moderno, Nascimento tenta subverter o sistema. É claro que ele não consegue. Pode até destruir uma ou outra peça, mas no final tudo se reorganiza e o sistema segue funcionando. Nessa perspectiva, a possibilidade real de uma vitória reside num movimento duplo: de um lado, a vitória dos homens de bem, uma tomada de consciência geral que parte do lado da sociedade civil, capaz de transformar aquela política podre em algo purificado; do outro, a defesa irrestrita de uma ação justiceira, capaz de desatar o nó da política através da força e da violência, contra todos os estratos corrompidos da sociedade. A figura trágica de Nascimento, portanto, encarna o espírito de transformação: é necessário a formação de uma comunidade de sujeitos que assumam sua moralidade para superar o problema estrutural do Brasil. Essa tomada de consciência funciona por meio da catarse da violência, em especial na cena apoteótica, quando Nascimento espanca o corrupto com toda brutalidade que marcou sua luta anterior contra o mundo do crime. Não é difícil perceber como essa moralização da política corteja perigosamente com um discurso fascista, que serve apenas para reproduzir um maquinário de violência cada vez mais eficaz e totalizante. É a partir disso, que enxergo uma possibilidade de leitura bastante diferente do filme. Tropa de Elite ajuda sim a refletir sobre o problema estrutural da política contemporânea, mas este problema não tem nada a ver com corrupção e nem com moralismo. Na realidade, o que está em jogo é a conversão da política num estado de exceção permanente, que resulta em dispositivos que transformam todos os viventes em vidas nuas, ou seja, existências despojadas de todo estatuto político (e com isso desprovidas de qualquer direito ou garantia), mediadas apenas pela violência dos dispositivos do poder soberano. A figura por excelência dessa vida nua sempre foi o refugiado, aquele indivíduo que perdeu suas garantias por ter se tornado um expatriado, sem os direitos fundamentais do homem (todos ancorados na noção de cidadania). No mundo contemporâneo, porém, a condição do refugiado é muito mais larga, se confundindo com o criminoso ou, mais recentemente, com o terrorista. Estes indivíduos, existindo a margem da vida política, são absolutamente matáveis, afinal existem enquanto “vidas que não merecem ser vividas”. E o papel dos homens de bem, como Nascimento, é justamente o de estabelecer a mediação destes indivíduos com o poder soberano. As operações do Bope são, sobretudo, operações contra essas vidas sem valor, que podem ser exterminadas a qualquer momento. A cena inicial do filme, quando os homens comandados por Nascimento invadem o presídio para conter uma rebelião, exprime isso com rara eloqüência. Isso tudo não é muita novidade, o que é novo e merece ser destacado é a maneira como o filme desvela a ampliação ilimitada dessas vidas nuas. Estes não estão mais localizados apenas na base da sociedade, nos grupos mais desfavorecidos, mas na sociedade em seu conjunto. A violência produzida nas margens repercute no centro, formando uma espiral ascendente que pode colocar qualquer um na condição de vida matável. É na medida em que a ação governamental faz uso de suas prerrogativas excepcionais, através da ação do Bope de combate ao tráfico ao longo da primeira metade do filme, que novos micropoderes podem brotar, de maneira cada vez mais difusa, como as milícias e todo o suporte policial que a sustenta. Esta difusão cria uma ordem descerebrada, na qual a violência segue atrás de alvos cada vez mais indistintos. Nesse sentido, a luta contra o sistema é propriamente a validação e a continuidade desse mesmo sistema, pois é através dos mecanismos políticos que se produzem os dispositivos que possibilitam tudo isso. Afinal, a operação da política contemporânea funciona numa esfera global a partir da articulação do discurso midiático, dos interesses eleitoreiros e da ação do poder soberano. Dessa perspectiva, fica evidente que o problema central não passa nem perto de um combate à corrupção ou de uma moralização da política. Na realidade, o que precisa ser pensado é a maneira como a política, na contemporaneidade, se confunde cada vez mais com o funcionamento desse maquinário de violência e guerra, que reduz a sociedade a um mero corpo biopolítico à mercê da soberania governamental. Como explica Agamben, o estado de exceção, hoje, atingiu exatamente seu máximo desdobramento planetário. O aspecto normativo do direito pode ser, assim, impunemente eliminado e contestado por uma violência governamental que produz um estado de exceção permanente, pretendendo, porém, ainda aplicar o direitoNão se trata, naturalmente, de remeter o estado de exceção a seus limites temporal e espacialmente definidos para reafirmar o primado de uma norma e de direitos que, em última instância, têm nele o próprio fundamento. O retorno do estado de exceção efetivo em que vivemos ao estado de direito não é possível, pois o que está em questão agora são os próprios conceitos de ‘estado’ e de ‘direito’.

PS: Vejo uma afinidade temática entre Tropa de Elite 2 e o filme italiano Gomorra. Ambos ajudam a refletir sobre o estado de exceção que configura a política contemporânea. Analisar conjuntamente as duas obras ajuda a refletir sobre o caráter global e estruturante dessa condição. Para quem estiver interessado, escrevi sobre o Gomorra aqui.

Encontros e Desencontros de Sofia Coppola

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Sou um grande fã dos filmes de Sofia Coppola. E dos seus filmes, meu favorito é o Encontros e Desencontros. A trama é muito bonita e a atuação de Bill Murray é memorável. Além disso, o filme elabora uma interessante reflexão sobre a amizade na contemporaneidade. O que estrutura a narrativa é uma espécie de crise existencial enfrentada pelos dois protagonistas, Bob Harris (o já mencionado Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson). Ainda que por razões muito diversas – afinal Bob é um homem de meia idade que vive num casamento longo e frio; já Charlotte é uma jovem mulher, recém-casada e recém-formada, que está apenas esboçando os primeiros passos em direção a uma vida adulta – ambos vivenciam uma profunda sensação de solidão. Sensação que apenas se agravou com a estadia em Tóquio. Presos num mundo estranho, com sua cultura particular (algumas das cenas mais engraçadas do filme tratam justamente da sensação de estranheza vivenciada pelos personagens quando interagem com os japoneses) e sua língua completamente desconhecida, Bob e Charlotte encontram-se desprovidos de amigos, de qualquer tipo de companhia capaz de compartilhar a existência. Forma-se uma situação na qual ambos sentem o mundo a partir de uma fissura de incompreensão e desentendimento entre si próprio e o outro, como se não existisse uma linguagem comum capaz de ultrapassar tal distância. Por isso, pode-se dizer que o grande tema do filme, já muito bem sinalizado no título original (Lost in Translation), é justamente a necessidade de superar esta dificuldade no estabelecimento de uma comunicação compreensiva entre subjetividades, ameaçada sempre pela incapacidade de tradução de si ao outro. A normalidade dos relacionamentos humanos seria marcada por confusões, causadas por erros de tradução, que mais afastam do que aproximam, inviabilizando a experimentação de uma amizade no seu sentido mais forte. Porém, e é isso que realmente torna o filme interessante, há uma abertura capaz de romper essa normalidade, qual seja, a possibilidade de um acontecimento (aquilo que não entra na ordem imediata das coisas), o que reabriria um espaço de convivênciacom-sentimento, ou seja, possibilitar a criação de um espaço próprio à amizade. Este acontecimento, obviamente, é o encontro fortuito de Bill e Charlotte, no bar do hotel em que estão hospedados. A empatia é imediata. É como se, após a longa privação de comunicação, fosse necessária uma compensação imediata. A partir desse ponto, o filme funciona segundo uma sucessão de situações nas quais ambos experimentam um conjunto de momentos doces, em total contraponto com o clima melancólico que acompanhava as ações prévias da dupla. A doçura deste encontro acontece na medida em que se torna uma experiência compartilhada, com-sentida por ambos. É uma relação que funciona através de uma suspensão, ainda que provisória, daquela incapacidade de abertura ao outro, é essencialmente uma experimentação de descentramento ou deslocamento. O relacionamento de Bill e Charlotte capta muito bem aquilo que Agamben falou a respeito da amizade: o amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na ‘mesmidade’, um torna-se outro do mesmo. No ponto em que percebo a minha existência como doce, a minha sensação é atravessada por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo. A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si. Esta amizade, porém, encontra-se sempre ameaça pela tensão erótica estabelecida entre os dois. Há um risco constante da conversão dessa amizade numa simples aventura amorosa, e consequentemente na perda dessa possibilidade de experimentar junto, de uma convivência alegre. A beleza do filme nasce dessa tensão, que nunca se resolve, sempre alertando ao espectador que a amizade é essa relação que nasce do acaso, do imponderável, e está sempre ameaçada, sempre no limite da sua própria anulação. A possibilidade de cultivá-la, portanto, permanece no plano do indefinido, do imponderável. É na duração incerta dessa experiência fugidia que se torna possível uma vivência menos fixa e determinada, acompanhada apenas pela alegria do bom encontro.

O texto que segue abaixo é resultado de uma discussão que realizei sobre os usos da tecnologia em sala de aula. Em dado momento do debate, um dos participantes defendeu o uso de câmeras para que os responsáveis pelos alunos pudessem acompanhar o trabalho pedagógico realizado em sala de aula. Não pude concordar com a ideia. Por isso, escrevi o texto abaixo para justificar a minha discordância. A versão que coloco no blog sofreu algumas modificações, mas ainda assim é um texto ligeiro e que apenas delineia algumas questões que me parecem relevantes. Também omiti qualquer referência que fazia aos demais participantes da discussão.

Bem, continuo enxergando o sistema de monitoramente como uma curiosa inflexão nas relações de poder que perpassam o ambiente escolar, o que está diretamente relacionado com mudanças nas formas de subjetivação instauradas pela ação institucional. Antes de tudo, é necessário um breve esclarecimento sobre o que entendo por relações de poder. Longe de pensar o poder como uma ação exclusivamente violenta, de dominação e controle, penso nele como um conjunto de procedimentos e práticas adotado para a condução das condutas alheias. Nesse sentido, o poder não é nada mais do que um tipo de relação entre os indivíduos que envolve esse agir sobre outras ações. Por conta disso, exercer um poder não se limita a um esforço de dominação (na realidade, numa relação de absoluta dominação nem mesmo existiria relações de poder), mas sim numa espécie de produtividade: seu exercício produz novas condutas e ações. Essa produtividade se manifesta naquilo que podemos chamar de práticas de subjetivação e dessubjetivação. Logo, não seria errado dizer que aquilo que chamamos de euinterioridade,alma, ou qualquer termo que se aplique, é um efeito direto dos jogos de poder que perpassam as relações humanas e o corpo social, tecendo uma rede extremamente complexa de micropoderes. Portanto, toda subjetividade é resultado de uma ação de poder, de uma maior ou menor violência, de um maior ou menor controle. Nesse sentido, é importante lembrar uma belíssima ideia formulada por um grande historiador português, Jorge Ramos do Ó. Segundo ele, o ideário da escola moderna era governar sem governar, de ampliar os poderes até aos limites mais distantes, ou seja, às escolhas de sujeitos autônomos. As práticas de governo (ou seja, o exercício concreto do poder, que doravante chamarei pelo termo governança) aplicadas pela escola, funcionam essencialmente a partir da constituição de liberdades reguladas, na qual os indivíduos interiorizam regras básicas de comportamento (disciplina), o que possibilita a constituição de sujeitos individual capazes de gerenciar sua própria liberdade. Em termos mais claros: a liberdade nasce a partir das práticas de adestramento e controle organizadas em torno da disciplina escolar. Isto tudo ajuda a compreender como a escola produzia um determinado tipo de sujeito durante a “era dourada” da sociedade disciplinar. Foi nesse momento que a escola era se constitui na peça central do maquinário de produção de sujeitos livres e habilitados para a ação no espaço público liberal. Por isso era tão importante a noção de liberdade: cada sujeito deveria ser capaz de moderar suas ações para agir com a responsabilidade devida, ser capaz de escolher seus governantes, realizar a sua rotina de trabalho (nada mais disciplinar do que bater o ponto diariamente, um hábito trabalhado diariamente na escola, com a chamada), enfim ser livre e útil para a sociedade. Esta época dourada, da qual não devemos carregar nenhum tipo de saudosismo, está se desfazendo. Basta lembrar de noções tão novas como trabalho imaterial, pós-taylorismo, ensino a distância, etc. Ora, qual é a grande novidade? Um processo de subjetivação no qual não é mais necessário a criação dessas liberdades reguladas, afinal de contas vai surgindo infinitos mecanismos capazes de controlar as ações necessárias para o funcionamento dos novos espaços produtivos (e não mais necessariamente espaços públicos). Os prazos, as metas, os objetivos, as tarefas semanais, tudo controlado por senhas individualizadas, por mecanismos de gestão infinitesimais. Veja o exemplo dos cursos a distância. Ele sintetiza muito bem a nova personalidade que está sendo gestada: o cumpridor de tarefas. O cursista não precisa criar uma rotina de trabalho diário, como na sala de aula tradicional. Ele pode usar seu tempo da maneira que lhe apetece, distribuir o trabalho de acordo com sua disposição e disponibilidade. Tudo que necessita é garantir o cumprimento das tarefas que foram dispostas. Isso significa que não é mais necessário o lento trabalho de introjeção dos mecanismos disciplinares: a conquista de uma rotina de estudos e reflexão, de um método de aprendizado estruturado segundo regras rígidas. Nada disso. Tudo se limita a seguir a organização do sistema, pois ele é que regula o trabalho. Semanalmente a plataforma do curso enviará atividades e instruções, as quais poderão ser realizadas de forma assistemática ou descontinua. A única coisa importante é o cumprimento de todas as tarefas. Dessa forma, acontece um deslocamento da disciplina: ela não é mais interiorizada, mas externalizada na forma de um sistema de controle. De forma pontual isso realmente não parece ter efeitos mais grandiosos. Porém, a longo prazo esse processo modifica a natureza mesma da subjetividade contemporânea. Apenas um exemplo: hoje o aprendizado acontece cada vez mais por meio de rotinas curtas, pouca concentração, leituras e tarefas múltiplas, leio um minuto e salto pra outra coisa, ai volto pra leitura, e por assim vai. Isso torna cada vez mais desnecessário a leitura de textos longos, a síntese se torna uma grande virtude. É nisso que entra a história dos pais poderem assistir as filmagens em sala de aula, exatamente nesse processo de desdisciplinarização que estou falando. A ideia da câmera é muito simples: o espaço escolar é colocado ao alcance de mecanismos constantes e contínuos de controle, nos quais qualquer um pode participar. Claro, poderíamos dizer que esse controle não será continuo, que pai nenhum ficará o tempo todo olhando através da câmera, serviria apenas para dar uma “olhadinha”, e isso não seria uma péssima ideia. Mas quem disse que o controle precisa ser exercido sempre? O próprio do panóptico era exatamente essa possibilidade de uma olhadinha. Quem está sob vigilância nunca terá condições de saber quem está olhando, quando está olhando e com que propósito. A câmera representa a radicalização do controle, que intensifica e generaliza de tal forma a disciplina, ultrapassando as fronteiras das instituições, tornadas permeáveis de forma que não há mais distinção entre fora e dentro, ao ponto de não ser mais necessário gastar energia com a disciplina: o aluno cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser utilizado para corrigi-la. O professor cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser corrigido. O conflito que necessariamente se estabelecia processo de disciplinarização se esvazia. O aluno não precisa mais introjetar uma regulação da sua conduta, pois estará constantemente posto em vigilância, mesmo que nem sempre alguém esteja lá olhando. É a lógica do BBB na sala de aula. Nesse sentido, vale mencionar novamente as ideias de Giorgio Agamben, a respeito dessa mutação na forma de subjetivação contemporânea: a subjetividade ocidental fora produzida a partir de uma série de dispositivos (entre eles, com claro destaque, os mecanismos de escolarização), que visavam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Entretanto, o que define os dispositivos com os quais temos que lidar na contemporaneidade é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivaçãoos quais não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Frente a estes seres espectrais, as próprias noções da modernidade começam a se esfacelar: a política, a separação de público e privado, a linguagem e a possibilidade mesma de educação. Como diz Michael Hardt, com todas estas transformações vivenciamos cada vez mais um déficit do político, o lugar da política foi desrealizado. Este fato torna possível a constituição de uma sociedade que começa a aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Num momento de transformação, no qual o velho vai se esfacelando, será que o melhor papel para aqueles diretamente interessados numa política educacional consistente, é justamente remar em consonância com essas novas formas de controle? Defendendo entusiasticamente essa conversão generalizada da sociedade em um corpo de delinquentes? Ou não seria esta uma excelente oportunidade para bolarmos novas formas de ação e subjetivação?

Não me abandone jamais de Kazuo Ishiguro

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Não me abandone jamais, do escritor Kazuo Ishiguro, cria uma rara e intensa distopia  literária. É difícil não ficar assustado e tocado pela história narrada por Kathy, uma cuidadora de 31 anos que está prestes a abandonar sua função e tornar-se, finalmente, uma doadora. Nessa posição terminal, a narradora-protagonista começa um longo e saudoso processo de rememoração dos seus anos de juventude. Num tom nostálgico, Kathy relata suas lembranças de infância no colégio interno de Hailsham, onde estabeleceu uma íntima amizade com Ruth e um amor meio platônico por Tommy. Em seguida, tenta entender como esse relacionamento foi arruinado após a partida dos três para o Casario, uma espécie de grande república estudantil que precede os treinamentos para a função de cuidador. Seu relato termina com um acerto de contas, a partir do reencontro dos três, com Kathy já na condição de cuidadora dos dois.

Estas lembranças são marcadas por uma mistura de esgotamento e resignação, como se o futuro já estive ausente do horizonte de Kathy. E pouco a pouco, fica claro que esse vazio está diretamente relacionado com a condição mesma de existência dos personagens. Isto porque Kathy, Ruth, Tommy, bem como todos os demais alunos de Hailsham e do Casario, são clones criados com um único propósito: servir de material para a ciência médica tratar e curar as pessoas normais. Por isso, todos se tornarão, eventualmente, doadores, ou seja, deverão doar seus órgãos para tratar as doenças dos humanos.

O papel dos cuidadores é garantir os cuidados mínimos – numa posição meio de babá, confidente e enfermeiro – para a sobrevida dos doadores. Com isso, alguns agüentam até quatro doações, uma espécie de condição quase heróica pela dificuldade e pelo sofrimento, mas grande parte não passa da segunda ou terceira doação. O cuidador acompanha seus doadores pelos hospitais do país (a história se passa no interior da Inglaterra em meados dos anos noventa. No universo da obra, a clonagem se tornou uma realidade no imediato pós-guerra, por isso não se trata propriamente de uma realidade futura, como numa ficção científica tradicional) num trabalho intenso e desgastante, no qual poucos agüentam muito tempo.

Por sinal, Kathy é uma cuidadora especialmente boa e eficaz, por isso cumpre um tempo recorde: mais de onze anos auxiliando inúmeros doadores. Ela sabe que seu tempo está perto do fim e fala disso com certo alívio, afinal todos que lhe são próximos invariavelmente acabaramconcluídos (é esse o termo que usam para tratar da morte provocada pelas doações).

Por esta razão, Kathy está cada vez mais próxima de uma condição terminal, agora num novo sentido, não apenas de encerramento de uma atividade longamente desenvolvida, mas sim o iminente fim da própria existência. Esta impossibilidade de seguir adiante marca profundamente a narrativa de Kathy. É como se ela só pudesse lançar seu olhar para trás, no passado idealizado e perfeito. Este ponto é fundamental para compreender a condição mesma desses seres, quase-humanos, sub-humanos. A eles não está reservado nenhum espaço de ação, são vidas absolutamente moduladas, controladas e desprovidas de opções. Como disse uma das professoras de Hailsham: suas vidas já foram mapeadas. Vocês se tornarão adultos e, antes de ficarem velhos, antes mesmo de entrarem na meia-idade, começarão a doar órgãos vitais. Foi para isso que todos vocês foram criados. Vocês não são como os atores que vêem nos vídeos, não são nem mesmo como eu. Vocês foram trazidos a este mundo com um fim, e o futuro de vocês, de todos vocês, já está decidido.

Essa existência exígua e limitada, obviamente, se torna um forte motivo de angústia e preocupação. Muitos ficam tentados a imaginar como seria se fossem normais, se não fossem apenas clones. O desejo de uma existência não-determinada aparece através da figura dospossíveis. Como Kathy explica lá pelas tantas, como todos nós havíamos sido copiados de uma pessoa normal, então tinha de existir, para cada um de nós, um modelo original tocando a sua vida. O que significava, ao menos em tese, que seria possível encontrar essa pessoa de quem fôramos modelados. E com isso, poderíamos ter uma leve noção de quem éramos lá no fundo e, também, quem sabe, que enxergaríamos parte do que a vida nos reservaria.

Nesse sentido, o que vai se configurando é uma situação na qual está em jogo a própria possibilidade de subjetividade. O que somos? Essa questão percorre todos os personagens ao longo da obra, talvez seja por isso que Kathy decide tão obstinadamente recuperar o seu tempo vivido: afirmar suas lembranças não deixa de ser uma afirmação limitada de si própria, de sua interioridade e sentimentos, da possibilidade mesma de um clone ter alma. De maneira análoga, Hailsham foi criada com o objetivo de demonstrar ao mundo humano que estes seres não são apenas um apanhado de órgãos, mas singularidades passíveis de subjetivação.

O grande objetivo da escola era demonstrar para o mundo que, quando criados num ambiente humano e culto, os alunos podiam se tornar tão sensíveis e inteligentes quanto qualquer ser humano normal. Para isso, os alunos viviam num ambiente agradável e voltado exclusivamente ao aprendizado e desenvolvimento das potencialidades individuais. Nada era mais importante do que a produção artística. Todo aluno era incentivado a produzir diferentes obras, que eram expostas e trocadas entre a comunidade. Além disso, havia uma espécie de grande prêmio para as melhores obras: eram selecionadas para a Galeria.

Ainda que os alunos não tivessem inteira consciência do que significava a Galeria, todos sabiam que era importante se esforçar e mostrar um interesse especial por estas atividades. A proposta dos idealizadores de Hailsham era mostrar ao mundo exterior, através dessas expressões artísticas, aquilo que aproximava os clones de uma humanidade normal: as emoções. O que estava em jogo era todo um esforço de humanização e melhoria das condições gerais dos clones, muito diferente do modo tradicional de criação destes seres. Em todas as demais instituições voltadas para esse fim (o livro dá a entender que existem inúmeras espalhadas por toda parte), reina a miséria e indigência absoluta: os clones eram tratados exatamente como eram vistos, como seres de segunda categoria.

Porém, apesar de todos esses esforços, novamente, continua existindo um limite que não pode ser transposto: a linha que demarca a separação entre a normalidade do homem e a condição sub-humana dos clones. Nem mesmo os idealizadores de Hailsham dispunham dos instrumentos necessários para a abertura de novas possibilidades de devires. Apesar de tudo, Kathy e seus semelhantes continuarão presos ao maquinário biopolítico que os gestou, serão sempre vidas que não merecem ser vividas, bem ao feitio da formulação de Giorgio Agamben. Afinal, é a matabilidade desses seres que possibilita a afirmação mesma de uma humanidade sadia e feliz, na qual o futuro se manifesta como um espaço de múltiplas potencialidades.

É dessa condição que nasce todo o horror da obra. Longe de ser apenas um texto de ficção científica, Não me abandone jamais é muito mais uma reflexão sobre a condição mesma de existência no mundo contemporâneo, no qual o estado de exceção se converteu em norma da política. Nesse sentido, os clones metaforizam uma cisão decisiva: aquela estabelecida de um lado entre os viventes subjetivados, com suas existências “livre” (atente que este livre precisa ser entendido com muito cuidado), indeterminadas e por isso lançadas num tempo irrestrito e aberto; de outro, os viventes mais e mais dessubjetivados, postos sob os desígnios do puro maquinário governamental, sem tempo, sem futuro.

É nesta cisão que se torna compreensível a ideia de vida nua, ou seja, despojadas de todo estatuto políticodestituída de garantias e seguranças, vidas que podem ser retiradas sem qualquer custo. Não é difícil imaginar quem são os clones na sociedade contemporânea: todos aqueles que de tão excluídos e desprovidos de qualquer coisa se tornam uma ameaça à vida política “normal”. Nunca é demais lembrar como o estado de exceção funciona a partir da constante fabricação de “inimigos”, de “terroristas”, de “cobaias”, etc. A grande questão é que esta cisão não funciona de maneira estanque e a humanidade de hoje, em função dos desígnios do poder, pode rapidamente se converter nos clones de amanhã. A grande inovação da biopolítica é justamente essa possibilidade de borrar estas divisões, abrindo a possibilidade cada vez maior de uma lógica totalizante sobre a vida e a morte, todos e cada um podem se tornar tais vidas nuas.

PS: A obra foi lançada no Brasil em 2005 pela Companhia das Letras. Também está sendo lançada uma adaptação fílmica da obra, que estreou no mercado internacional nesta semana e deve ser lançada aqui no início de 2011. No trailer parece que a adaptação é bastante fiel e interessante. Enquanto o filme não é lançado, recomendo vivamente a leitura da obra. Um livro genial e que já foi escolhido como uma das melhores obras literárias da década.

O Trailer do Filme:

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