Reality, a Grande Ilusão é o novo filme do diretor italiano Matteo Garrone, o mesmo que dirigiu Gomorra. Se na sua obra anterior, a narrativa girava em torno de processo de fragmentação das vidas marcadas pela ação da máfia italiana, em Reality o foco recai sobre a fragmentação da existência de um homem comum, Luciano, por conta do seu sonho de uma vida outra. O protagonista é um peixeiro que vive com sua esposa e filhos em Nápoles, numa região pobre da cidade. Para sobreviver, além de cuidar de sua peixaria, Luciano aplica pequenos golpes na vizinhança. Nada muito grave, mas que lhe ajuda a ganhar um dinheiro extra e escapar dos apertos mais duros da pobreza. Parece que Luciano leva uma vida tranqüila e estável, satisfeito com seus próprios horizontes. Porém, essa estabilidade começa a esvoaçar quando o protagonista acredita ter a chance de participar de um reality show na televisão italiana. A situação tem início a partir de um fato banal. A filha de Luciano pede ao pai que participe do teste de seleção para o Big Brother italiano. Ainda que ceticamente, ele decide tentar a sorte. Desde a primeira entrevista de seleção, a perspectiva de alcançar uma vida nova, abandonar a peixaria e a pobreza e passar a viver colhendo os frutos do sucesso midiático, começa a modificar o comportamento de Luciano. Ele passa a viver como se já estivesse dentro da televisão, todos os seus gestos são pensados como a simulação de uma nova vida, na representação de um personagem. Não mais o golpista que engana alguns vizinhos, mas o bom-moço capaz de convencer a seleção do programa de que é a pessoa certa para entrar no show. Por isso, além de interromper suas falcatruas, ele tenta provar constantemente que é uma boa pessoa. Começa com pequenas ações bondosas e caridosas, até chegar ao limite extremo, doando os bens de sua casa para os vizinhos mais pobres. A confiança de que entrará no programa está inteiramente depositada na crença de que sua simulação se confundiria com a própria realidade. Porém, rapidamente esse esforço de ser-outro se transforma num grande delírio. Luciano perde inteiramente contato com sua vida e com sua família. Ele é tomado por uma espécie de paranóia, como se todos os lugares estão tomados por espectadores que acompanham todos os seus passos. Esse delírio arruína a solidez em que vivia. Sua mulher precisa afastá-lo de casa para evitar que ele simplesmente se desfaça de tudo que é deles. Ele abandona seu trabalho e tenta vender sua peixaria. Toda essa loucura delírio advém da remota (e nunca realizada) possibilidade de entrar no programa e de mudar de vida. Luciano tenta abraçar integralmente o dispositivo midiático, o simulacro como modo de existência. É essa perspectiva de recomeçar, de mudar aquilo que se é, que transtorna o protagonista. A chance de entrar no reality-show estimula em Luciano um forte desejo de se desterritorializar, de abandonar a solidez da vida comum e vivenciar novas experiências. O problema é que essa vontade de não ser mais o que se é já nasce capturada e aprisionada pela irrealidade da existência midiática. Luciano não tenta transformar a realidade de sua vida, mas apenas simular uma nova vida, numa existência encarcerada pelas câmeras (imaginárias) do reality-show. Desde a primeira cena do filme, observamos que se trata de uma narrativa fabular. E aos poucos, vamos compreendendo que, como toda fábula, há um forte sentido moral no filme. O sonho de ser-outro é visto como algo trágico. A vontade de abandonar a solidez da vida não carrega em si uma potência capaz de transbordar e exceder a fragilidade da simulação. E o confundir a simulação com a realidade se assemelha à loucura e ao delírio. No final, a fábula se transforma numa narrativa triste e ressentida: Luciano adentra (imaginaria ou realmente, não há como saber) no estúdio onde acontece o programa e pode contemplar a irrealidade daquela simulação, convertendo-se enfim no seu próprio delírio. O sentido dessa fábula não escapa muito da constatação de que a realidade não está no desejar ser-outro, mas na conformação da existência com a realidade do mundo. Por isso, há uma espécie de necessidade de escapar desse desejo de ser-outro que está por demais preso nas tramas midiáticas. Num mundo onde o desejo e a imaginação são converteram em simulacros, só resta a resignação diante da brutalidade da própria realidade.

O Artista de Michel Hazanavicius

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No centro da trama de O Artista existe uma reflexão sobre a inovação. Esta aparece na resistência de um consagrado ator do cinema mudo diante do surgimento dos primeiros filmes falados. George Valentin consolidou uma carreira de sucesso no cinema dos anos 20, dominando com maestria a gramática de um cinema sem fala, no qual o jogo corporal era fundamental para a construção do sentido da cena. Porém, sua posição de estrela é ameaçada com a introdução de novas técnicas cinematográficas. O som não é apenas uma mudança tecnológica na forma dos filmes, mas uma profunda reorientação na forma mesma de atuação e manifestação artística. O corpo perde seu papel privilegiado na construção do sentido, sendo ultrapassado pela fala e seus discursos. Aquele que dominava a gestualidade do cinema mudo se depara com a ameaçadora necessidade de reaprender as regras da arte. Valentin percebe a ameaça, mas incapaz de reagir diante dela, escolhe o caminho mais simples: a recusa. Para isso, investe todos seus recursos na produção de um novo filme mudo, acreditando que sua figura estelar bastaria para atrair o público e o sucesso. O problema de Valentin é que ele não percebe o quanto sua posição de estrela é fulgaz, compondo apenas uma pequena peça na engrenagem de uma indústria cultural em plena formação. Seu estúdio pode facilmente dispensá-lo. A nova tecnologia cinematográfica é acompanhada pela criação de novas estrelas. A recusa diante da inovação não significa um gesto de resistência, mas simplesmente a anulação de qualquer potência criativa do artista. Descartado pela indústria e abandonado pelo público, o grande George Valentin começa a se transformar num astro do passado. É nessa perspectiva que o filme pode ser visto como uma bela metáfora sobre o atual estágio dos embates em torno da cultura do compartilhamento que se formou na internet. Ela também aparece como uma grande inovação tecnológica, capaz de afetar não apenas a forma de produção artística, mas também o conteúdo desses artefatos culturais. Só que nesse caso, o mais significativo é a forma como essa transformação afeta os próprios pilares da indústria cultural. Os grandes conglomerados tradicionais de conteúdo são desafiados por novas empresas, ligadas à internet e ao compartilhamento de informações, que passam a controlar parcelas significativas dos ganhos que normalmente eram aferidos nos direitos autorais de filmes, músicas e livros. Basta ver a divulgação recente dos lucros estrondosos que foram alcançados por sites como o megaupload. Diante dessa inovação tecnológica, vemos também inúmeros artistas que se portam como profetas do passado, se manifestando contra a livre circulação da cultura na internet. Da mesma forma que o desesperado Valentin, esses artistas vociferam contra as novas formas de produção e circulação, lembrando sempre o quanto isso ameaça a “verdadeira” arte e como isso poderá num futuro próximo matar a literatura, a música ou o cinema [1]. São como velhas engrenagens de uma máquina que já está parando de funcionar, mas insistem em prolongar o máximo da agonia dessa velha forma de fazer arte. Nesse gesto, o que conseguem é apenas esvaziar as possibilidades de luta e de abertura de outros caminhos para a produção cultural. É claro, pode-se facilmente colocar uma objeção nesse argumento. Nesse caso, precisamos recuperar outra figura importante do filme, a nova cara do cinema falado, Peppy Miller. Ela também se torna uma estrela do cinema, substituindo as velhas figuras do cinema mudo, que se recusam ou se mostram incapazes de se adaptar ao novo mercado. Por que, então, ela não é apenas uma nova engrenagem no maquinário da indústria cultural, tão substituível quanto as peças anteriores? Sim, ela pode até ser, mas no interior desse maquinário que se abrem novas possibilidades de resistência e inovação. A captura nunca é completa. O desdobramento final do filme segue justamente nessa direção. É Peppy que consegue dobrar as estruturas da indústria cultural e realizar uma espécie de ligação entre o passado e o futuro do cinema, possibilitando o retorno de Valentin às telas do cinema. Esse retorno não assume a forma de uma mera transposição do velho, num gesto inautêntico e vazio. Na realidade, o que acontece é uma verdadeira transformação da forma de fazer cinema, possibilitando um dobrar, ainda que temporário, das rígidas regras de produção industrial. Nada mais atual. A cultura do compartilhamento, com suas possibilidades de superar, ainda que momentâneas, os rígidos controles da indústria cultural, é o campo de luta por excelência da arte contemporânea. É nesse campo que as possibilidades de inovação e transformação se manifestam com mais vigor e força. Por isso, que o lamento nostálgico daqueles que querem apenas reviver o mundo moribundo dos direitos autorais é tão nefasto e empobrecido.

[1] Sobre esses lamentos, não custa lembrar a incrível resposta que uma escritora espanhola recebeu quando disse que pararia de escrever por causa dos seus livros compartilhados na internet. O texto em português, você encontra aqui, recomendo a leitura: http://calopsitaescapista.wordpress.com/2012/01/28/957/

Sobre os protestos contra o SOPA e o PIPA

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Dia 18 de janeiro de 2012 foi a data escolhida para a realização de protestos globais contra a aprovação do SOPA (Stop Online Piracy Act) e do PIPA (PROTECT IP Act) nos EUA. Ambos os projetos de lei visam a elaboração de dispositivos legais que atuem no combate à pirataria e a livre circulação de artefatos culturais pela internet. O grande problema é que para combater tais práticas as leis garantiriam amplos poderes de controle e fiscalização sobre a internet. Esse controle possibilitaria a retirada de sites ou serviços no caso de suspeita de colaboração na transmissão de arquivos sem o pagamento dos direitos intelectuais. Até mesmo sites que não realizam diretamente o compartilhamento de arquivos, como o twitter, facebook, youtube, google, amazon, etc., poderão sofrer punições e represálias segundo as medidas previstas nos projetos de lei. Medidas simples, como por exemplo, usar um trecho de uma música num vídeo caseiro, ou utilizar uma imagem numa obra artística, também poderão sofrer punições. Por isso, a aprovação dessas leis significaria um duro golpe na liberdade de circulação e criação da internet. O usuário doméstico será o mais afetado, mesmo aquele que não realiza atividades consideradas ilícitas ou pirataria. É contra esse risco que foi realizado o protesto, no qual inúmeros sites e serviços bloquearam voluntariamente o acesso aos seus conteúdos durante o dia 18. Este blog participou dessa ação e também bloqueou o acesso aos seus textos em protesto contra a aprovação das leis. Vale lembrar que no Brasil existe um projeto de lei semelhante, conhecido como AI5-digital e sua aprovação também poderá implicar em grandes restrições da liberdade de circulação na internet e no direito de compartilhamento de informações e ideias. É igualmente importante a organização e o protesto contra a aprovação dessa proposta nacional.

Para mais informações sobre as leis americanas, recomendo o acesso aos seguintes links:

http://www.derechoaleer.org/2011/11/infografia-otra-vez-sopa.html

http://meganao.wordpress.com/2012/01/13/entenda-os-problemas-do-sopa-para-o-brasil-e-o-mundo/

http://www.youtube.com/watch?v=K3ORTCseHD8

http://www.trezentos.blog.br/?p=6642

http://movethatjukebox.com/anti-sopa/

Trabalho Interno de Charles Ferguson

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Um tipo comum de documentário é aquele que transforma uma tese em imagens e enredo, utilizando o maior número de recursos retóricos e argumentativos para provar um ponto e convencer o espectador. O que sustenta esse tipo de filme é a crença na possibilidade de mobilizar as pessoas em prol de uma causa ou para alertar das necessidades de mudanças na realidade. A preocupação com o convencimento e com a ação, geralmente, é muito maior do que aquela dispensada à forma ou ao exercício fílimico propriamente dito. É muito mais fácil convencer alguém de algo usando uma linguagem simples, bem conhecida e padronizada, do que fazer o mesmo com inovações estéticas e com a experiência do estranhamento. Essa opção cinematográfica não é essencialmente ruim, há muitos filmes “tradicionais” e interessantes, lembro rapidamente do The Corporation ou de O Abraço Corporativo. Colocaria nessa lista até mesmo os primeiros filmes de Michael Moore, ainda que sua fórmula já tenha se mostrando bastante desinteressante nos últimos trabalhos. O grande problema é que um documentário de tese só se vale pela sua própria tese e quando ela se mostra furada, superficial ou pouco produtivo, o filme acaba perdendo qualquer valor. É justamente isso que ocorre com Trabalho Interno, do direto sueco Charles Ferguson. O filme trata de “explicar” a crise econômica de 2008 e provocar uma reflexão sobre os motivos políticos que tornaram possível tal situação. O melhor do filme é seu caráter didático, que consegue equacionar com clareza toda a intricada rede de negociações que tornou possível a criação de uma gigantesca bolha especulativa em torno de derivativos e empréstimos pessoais. Sem dúvida, é uma exposição simples e clara do funcionamento dos mercados e da lógica do capitalismo financeiro. Isso, porém, não sustenta o filme, é apenas um elemento utilizado para demonstrar a tese do diretor. Segundo o filme, a economia americana do pós-guerra era vigorosa e eficiente, capaz de garantir o bem-estar da população e controlar a especulação desenfreada. O governo tinha mecanismos para regular a economia e não existiam gigantescos conglomerados financeiros capazes de abalar o sistema (e o bem-estar da população). Por isso, a economia americana não enfrentou nenhuma (isso mesmo, nenhuma) crise até a década de 1980. As coisas só saíram do rumo quando o governo começou a ser conquistado pelos lobbistas e pela influência do mercado financeiro, dando início a uma liberalização da especulação financeira. Na década de 1980 essa política ainda era tímida, mas nas duas décadas seguintes a coisa saiu completamente do controle: o governo foi totalmente dominado pelos grandes especuladores (inclusive através do ingresso de vários desses especuladores em cargos centrais do governo americano), o que possibilitou a criação de uma legislação totalmente flexível e livre. O resultado: a especulação subverteu o sistema, as fraudes se tornaram comum e um pequeno grupo de indivíduos começou a se enriquecer às custas da sociedade americana. Os grandes vilões, segundo o filme, são estes indivíduos que esqueceram qualquer noção de bem-comum e adotaram estratégias predatórias de enriquecimento, que prejudicavam e colocavam em risco o funcionamento de suas próprias empresas, pois sabiam que o governo sempre viria socorrê-los. É como se o governo americano sempre tivesse funcionado como uma ferramenta de proteção social, capaz de controlar o espírito predatório e egoísta das pessoas através de uma rígida legislação financeira. Foi esse governo protetor que trouxe prosperidade e desenvolvimento social durante várias décadas. No entanto, essa instituição foi lentamente corrompida pela potência negativa do dinheiro e pelo desejo de enriquecimento rápido. O poder dos especuladores foi se entranhando na própria política, desfazendo os mecanismos de proteção social. Acontece, portanto, uma inversão, o governo se transformou no seu oposto, ao invés de garantir o bem-comum, ele se torna apenas mais um mecanismo para sugar e privatizar a coisa pública em favor de uma pequena casta de privilegiados. O dinheiro aparece como um tumor, como o motor da corrupção e decadência da sociedade. Diante de ideias simples, o filme chega a conclusões igualmente superficiais: para proteger a sociedade de novas crises é necessário reconstruir um governo forte e atuante, capaz de recuperar seu antigo sentido de proteção social e controlar os interesses particulares. A solução da crise atual acaba se tornando uma simples questão de voluntarismo político, um grupo de políticos bem intencionados e capazes de resistir ao poder do dinheiro e pronto, a especulação poderá ser recolocada nos eixos. A tese do filme resolve todos os problemas com oposições simples: o bem e o mal; a justiça e a corrupção; a regulação e a desregulação; o bem comum e os interesses predatórios, etc. O simplismo desses binômios permite uma fácil identificação do espectador, ele pode sair do cinema reconfortado, afinal não há maneira de se identificar com o lado negativo (por sinal, o pôster do filme resume bem essa forma de identificação, ele diz que if you´re not enraged by the end of the movie, you weren´t paying attention). Esse procedimento, porém, perde de vista qualquer tipo de reflexão mais sistemática ou estrutural, a crise se torna apenas uma questão moral, culpa de pessoas malignas e desalmadas. A crítica do filme não passa de uma oca reflexão, incapaz de equacionar adequadamente a complexa e tensa relação de poder que estrutura a política global, da qual a crise econômica é uma das manifestações mais agudas. Apesar disso, é uma reflexão sedutora e muito eloqüente, é muito fácil e agradável pensar a política em termos morais, não incomoda e nem obriga a pensar muito no assunto. Talvez por isso, o filme apareça como um dos mais fortes candidatos ao Oscar de Documentário deste ano.

 

Nos últimos anos, ainda que de maneira tímida, começaram a surgir os primeiros filmes que tentam refletir sobre as relações entre a internet e a sociabilidade contemporânea. Entre esses, temos alguns bem famosos, como o A Rede Social, e outros de menor repercussão, como Os Famosos e os Duendes da Morte ou Nome Próprio. Apesar das profundas diferenças, vemos neles um esforço comum de refletir sobre a íntima relação estabelecida entre a internet e a produção das subjetividades contemporâneas.

Nesse sentido, o documentário Catfish aparece como uma das mais interessantes contribuições para a reflexão sobre esta temática. O tema do filme (ou documentário, cabe ao espectador decidir se acredita naquilo como uma ficção ou um registro documental) é o relacionamento singular estabelecido entre Yaniv Schulman, um fotógrafo de Nova York, e Abby, uma pequena artista que vive no interior do Michigan. Os dois se conheceram através do Facebook, quando começaram a trocar algumas fotos e pinturas. Aparentemente, a garota se interessou pelas fotografias de Yaniv e começou a se comunicar com ele com o intuito de pintar quadros a partir delas.

Porém, logo a coisa foi ganhando outra direção. Yaniv passou a interagir com a família da garota, conversando com sua mãe (Ângela) e, principalmente, com sua irmã mais velha (Megan). Progressivamente, o interesse do rapaz se desloca da amizade com a criança e se concentra na relação estabelecida com Megan. Não é muito difícil de imaginar o que ocorre: os dois começam uma espécie de “namoro” à distância.

O filme acompanha o desenvolvimento desse relacionamento e a crescente expectativa de um encontro “real”. Só que existe um grande problema. A coisa toda não passava de uma grande invenção. O filme alimenta ao máximo o mistério, mas eventualmente o espectador esbarra com a revelação aterradora: nunca existiu uma Abby pintora, nem uma Megan apaixonada por seu amigo de facebook. Era tudo invenção de Ângela.

A segunda parte do filme gira em torno das investigações de Yaniv, que acabam revelando toda a mentira. Por isso, ele decide partir para Michigan e confrontar pessoalmente a pessoa que bolou tudo aquilo. No final das contas, Ângela é uma mulher de meia idade bastante insatisfeita com sua vida, que decidiu inventar uma espécie de nova personalidade virtual para aliviar suas frustrações. Ela inventou toda a história, criou vários personagens, alterou características e ações das pessoas que realmente existiam. Tudo para conquistar a atenção do ingênuo fotógrafo de Nova York. Infelizmente, a intensidade da experiência acabou desfeita com tanta rapidez quanto havia começado.

Essa possibilidade, ao mesmo tempo radical e efêmera, de reinvenção de si próprio, é o grande tema abordado pelo filme. Radical na medida em que Ângela utiliza um amplo conjunto de mecanismos para reconstruir sua própria personalidade. A coisa é muito maior do que a mera criação de um perfil falso no facebook. Ela inventa novos personagens que interagem e afirmam suas individualidades através dos espaços virtuais. É realmente impressionante acompanhar o detalhamento e o cuidado que ela utilizou nesse exercício de ficcionalização de si própria. Parece que nada lhe escapou (ou quase nada, afinal uma hora Yaniv acabou encontrando uma falha na trama).

Porém, ainda que as possibilidades de reinvenção sejam quase ilimitadas, há também uma fragilidade muito grande nesse processo. Não há uma espécie de lastro ou ponto de sustentação capaz de garantir a fixação dessas novas individualidades. Os personagens inventados por Ângela funcionam apenas na virtualidade da internet. Quando tudo é descoberto, acontece um desmoronamento daquele mundo de possibilidades, e resta apenas o retorno à pobreza do mundo “real”, com suas limitações e fixidez.

Essa oposição entre a fixidez e o deslocamento, entre uma personalidade estável e outra plástica e indefinida, permeia o discurso do filme. E é esse o grande aspecto da obra, na medida em que ela permite refletir um pouco sobre dois modos distintos de subjetivação. De um lado, encontramos aquela maneira típica da modernidade, na qual as singularidades se convertem em indivíduos, principalmente por meio do ingresso em diferentes espaços institucionais: a família, a escola, a indústria, etc. Todos esses lugares funcionavam de maneira conectada e a formação da personalidade funcionava necessariamente através da passagem por diferentes pontos desse grande dispositivo que chamamos de sociedade disciplinar.

Um ponto estruturante desse processo era o registro, talvez o mais importante mecanismo de determinação das particularidades individuais. Desde a mais tenra idade, quando a criança adentra ao espaço escolar ou de qualquer outra instituição, ela é marcada e catalogada, assumindo papéis estáveis e reconhecidos por todos: este é o bom aluno, aquele é o encrenqueiro, aquele outro é o deficiente, etc. Estas marcas não são restritas do ambiente escolar, mas circulam por outros espaços (inclusive no espaço íntimo, afinal o que era a escrita de diários ou cartas senão uma forma de registrar e exercitar a própria individualidade?). A sanha registradora é uma das marcas de nossa modernidade. Ela funciona como suporte de uma série de longos exercícios disciplinares. No final das contas, o indivíduo acabava se confundindo com os próprios registros, ganhando uma identidade e uma fácil apreensão do seu lugar no tecido social.

O que vemos na contemporaneidade é um processo bastante distinto. Existe uma espécie de reorganização dos processos de subjetivação. Como dizem, os cercados que costumavam definir o espaço limitado das instituições foram derrubados, de modo que a lógica que funcionava principalmente dentro das paredes institucionais agora se espalha por todo o terreno social. Por conseguinte, a indefinição do lugar de produção corresponde à indeterminação da forma das subjetividades produzidas. As instituições sociais imperiais podem ser vistas, assim, num processo fluido de geração e corrupção de subjetividade.

Não existe nada que evidencie com mais clareza esse processo de geração/corrupção de subjetividades do que o não-lugar do mundo virtual. Se antes era apenas através de lugares sociais fixos que se organizava o processo de individualização, agora a coisa funciona por meio de lugares dinâmicos e moduláveis. Este ganho de movimentação, porém, é acompanhado também por uma acelerada dissolução. Isso revela o caráter inerentemente líquido das subjetividades contemporâneas. É também uma maneira de compreender a forte crise institucional que atravessamos (a crise da escola, a crise da família, a crise dos partidos e sindicatos, a crise do mundo público, etc.).

Nessa nova configuração, é a própria estrutura dos registros que acaba modificada. Eles se encontram mais presentes do que nunca, mas agora precisam acompanhar a mobilidade dos processos de subjetivação. O que obriga a criação de mecanismos cada vez mais moduláveis e onipresentes. Uma das principais manifestações desses registros flexíveis são as redes sociais. É através delas que as subjetividades surgem, se manifestam e se corrompem, num processo contínuo e ilimitado. Hoje posso inventar um novo personagem, utilizá-lo ao máximo e quando cansar basta descartá-lo.

Estas duas maneiras de subjetivação não são excludentes e nem antinômicas, mas estão em constante tensão, deslocamentos e disjunções, possibilitando tanto o reforço dos processos de governança da vida contemporânea, quanto a abertura de novos espaços de resistência e de criação. É Ângela que sente todo o mal-estar criando por esse movimento. Ela não consegue realizar uma transição entre os processos virtuais e os processos “reais”, sofrendo com essa impotência. Seu desejo de libertar-se das amarras institucionais (no caso dela, a família), vivendo uma existência repleta de novas experiências, só pode se realizar através das suas identidades digitais, porém estas estão sempre em risco de rápida dissolução. Nesse confronto, ela encontra-se numa situação de paralisia e de apagamento. Por sinal, é essa posição de apagamento que justifica o título do filme: catfish é o famoso bagre, um bicho que serve apenas para manter outros peixes em bom estado de conservação. Ângela busca na internet uma espécie de escapatória dessa sua condição de bagre (por sinal, quem diz isso, no filme, é seu marido). É isso que transforma a trama do filme em algo muito triste e até meio angustiante.

Diante desse cenário, é muito forte o apelo da recusa, numa espécie de elogio do real e sua autenticidade humana. É como se a única possibilidade de existência é aquela dada pelos dispositivos de subjetivação da modernidade, como se aquele mundo que está acabando fosse a melhor maneira de conduzir nossas vidas. Se Ângela estivesse mais preocupado em viver sua própria vida, sem as ilusões da internet, ela certamente sofreria muito menos. Essa leitura reacionária (no sentido menos forte da palavra, de retorno ao que passou) é bastante forte, basta ver a freqüência dos discursos celebrativos dos bons tempos da família estruturada, da escola disciplinar ou da organização política em moldes partidários. Parece tudo muito bonito, mas no fundo esses dispositivos de subjetivação não passam de um maquinário de intensa produção de bagres.

Isso também não significa que a liquidez contemporânea possibilite a completa ultrapassagem dos mecanismos de controle tão presentes na modernidade. Muito pelo contrário. O controle nunca foi tão onipresente e intenso, porém é no interior desse maquinário que podemos encontrar novas possibilidades de dobra e de subversão. Do ponto de vista político, as novas potencialidades de resistência já começam a se tornar bastante visíveis. Basta observar o papel das redes sociais na organização dos movimentos revolucionários no Egito (uma pequena observação: alguns observadores contemporâneos continuam insistindo na tese de que as redes sociais não são capazes de auxiliar na ação política, é a tese da revolução não será twitada. Esse é um bom exemplo daquela visão reacionária que falei acima). E do ponto de vista ético, isso passa necessariamente por uma reflexão sobre as técnicas de si e os dispositivos de comunicação virtual. As possibilidades de ficcionalização de nossas próprias subjetividades implicam em relações muito diversas consigo próprio e especialmente com o outro (na medida em que o eu pode ser constantemente relativizado e reinventado, é noção mesma do outro que ganha um novo sentido).

No fundo, as duas coisas sinalizam para uma mesma situação: para o bem e para o mal, as redes sociais e os dispositivos virtuais estão no centro de qualquer experimentação do comum na contemporaneidade. É por meio deles que se torna possível a criação de novas práticas de compartilhamento e de convivência, mas é também neles que as práticas de governança e os dispositivos biopolíticos se reforçam e intensificam. Por isso, é tão importante refletir sobre o tema, buscando maneiras de ampliar esses espaços de encontros comuns.

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