Antes da Meia-Noite de Richard Linklater

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Antes da Meia-Noite é tanto um desdobramento, uma espécie de continuação, quanto um deslocamento daquilo que foi tratado nas duas partes anteriores da trilogia do diretor americano Richard Linklater. Se, como disse antes, os primeiros filmes tratavam do encontro amoroso, tematizado a partir de dimensão ambivalente de potência e risco, o novo filme continua refletindo sobre a condição amorosa, porém não mais do ponto de vista do encontro enquanto um acontecimento singular, portanto como algo que se realiza na suspensão da mundanidade, mas ao contrário, reflete sobre o amor na sua duração e na ameaça que esta representa para a experiência a dois. A trama acontece nove anos após o (re)encontro de Jesse e Celine em Paris, durante uma viagem de férias do casal pela Grécia. Agora não estamos mais diante de dois jovens enamorados, que experimentam uma descoberta diante de um outro misterioso e cativante. A potência da descoberta é substituída pela vivência da rotina e dos problemas cotidianos: filhos, contas, empregos, cuidados com a casa, amigos, viagens, brigas, etc. O risco de perder-se naquilo que há de desconhecido no outro é ultrapassado pelo hábito de estar diante de alguém cada vez mais familiar e previsível. Entre Jesse e Celine parece que resta apenas uma espécie de cansaço. A vida mundana, isso que chamamos de dia-a-dia, ou de cotidiano, transformou o estar-junto num entendiar-se mutuamente. Nesse sentido, a mobilidade que víamos nos filmes anteriores, quando o encontro amoroso resultava num impulso que transbordava o sujeito amoroso, possibilitando uma transformação (ainda que de forma arriscada) que ocorria pela simples presença do outro, parece suspensa ou imobilizada. Esse sentimento de imobilidade fica mais evidente na composição do filme, quando comparada com as partes anteriores. O que constituía o elemento central da trama era a perambulação dos protagonistas pela cidade em que se localizavam (Viena ou Paris), como se o que fosse próprio do apaixonar-se fosse o gesto do caminhar. Andar e conversar, movimento e amor. Agora, porém, o espaço de movimentação é muito mais restrito. Há ainda esse momento. Mas ele está interpolado por outros, no qual o movimento não se faz presente. Pode ser tanto na conversa em torno da mesa do almoço, ou ainda mais claramente, a longa briga no quarto do hotel. O não-movimento no espaço corresponde a uma dificuldade de se movimentar na relação, de continuar se transformando na presença do outro. A duração, assim, parece se constituir num lento esvaziamento de uma potência amorosa originária. O casal seria aquele que persevera no tédio, aniquilando na rotina toda a potência que lhe originou. Porém, no interior dessa relação arruinada pela crise, quando parece não restar mais nada daquela dimensão amorosa que unira o casal, abre-se um espaço para outra espécie de encontro: uma espécie de recomeço ou redescoberta. A duração que sufoca pode ser também a que reinventa o encontro (e nesse caso, a ideia de reinvenção é muito adequada, na medida em é por meio de uma encenação que o casal encontra um espaço para ultrapassar o próprio tédio). Em grande medida, a conclusão da trilogia de Linklater se revela uma aposta nessa possibilidade de afirmação do amor, de reafirmação da possibilidade do encontro perseverar na duração. Uma aposta que se reinveste de um sentido ético, recomeçar aparece como uma disposição para potencializar aquilo que fora esvaziada pela rotina. Nesse caso, a experiência amorosa aparece como a contraposição da própria vida (afinal é a vida, enquanto rotina, que ameaça a experiência amorosa de Jesse e Celine), naquilo que ela tem de mundanidade (a banalidade da rotina e suas infinitas repetições). A possibilidade de afirmar e reafirmar a experiência amorosa é também uma possibilidade de se lançar para além e contra a banalidade mesma da vida.

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Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol formam uma das reflexões mais interessantes sobre o encontro amoroso no cinema contemporâneo. A terceira parte da série, o Antes da Meia-Noite, traz algumas questões novas, introduzindo um elemento ausente nos filmes anteriores, a tensão que a duração introduz na experiência amorosa, por isso enxergo uma unidade temática mais forte entre os dois primeiros filmes. Essa unidade se constitui a partir da exploração do encontro amoroso a partir de duas dimensões ambivalentes: de um lado a potência que essa experiência introduz na existência individual; de outro lado, na mesma medida em que esse acontecimento introduz tal potência, há também uma espécie de risco, como uma força capaz de negar ou desestabilizar essa mesma individualidade.

A exploração dessa ambivalência se dá a partir do grau zero do encontro: uma situação puramente aleatória, como um lance de dados, no qual dois indivíduos, até então desprovidos de qualquer vínculo ou afinidade prévia, tomam consciência da presença do outro. É a partir da descoberta dessa alteridade que tem início o processo singular de cativar-se. A profunda estranheza é substituída por um interesse recíproco, um desejo de conhecer aquele ser que se apresenta diante de si. É esse movimento de desestranhar-se que é o tema do primeiro filme, o Antes do Amanhecer.

Jesse e Celine são dois jovens que, por razões opostas, viajaram pela Europa e agora estão voltando para casa. No trem, uma espécie de não-lugar, ou melhor, de um lugar de transição, de deslocamento, que leva de um espaço para outro, portanto num momento de suspensão da vida ordinária, que os dois se encontram. Os dois conversam, trocam algumas impressões sobre a vida e sobre relacionamentos no pouco tempo que resta da viagem. Ainda assim, esse breve momento é o suficiente para despertar um vivo interesse recíproco e, quando chegam a Viena, Jesse convence Celina a acompanhá-lo na sua última noite na Europa, perambulando pela cidade enquanto aguardam a hora do embarque no avião que o levaria de volta para casa, nos EUA.

Por apenas uma noite, os dois experimentam algo como uma suspensão completa da realidade ordinária, na qual os vínculos anteriores deixam de importar, substituídos pelo simples gesto de estar na companhia de um outro. É quando se desenvolve o jogo, tão familiar a todos nós, de transformação desse outro genérico num ser mais próximo, que se aproxima e se revela, compartilhando pequenas histórias e gestos. Os dois perambulam pela cidade enquanto fazem uma sucessão de perguntas, confissões, troca de memórias, ideias e afetos. Esse momento do estar-junto não traz nenhuma pretensão à grandiloqüência, nem uma espécie de idealização romântica.  Vemos apenas um casal que desenvolve aquela conversa banal e tola que somente os enamorados sabem sustentar.

Quando o dia amanhece, reintroduzindo a normalidade na vida dos dois, existe algo que resiste, uma potência de outra ordem, propriamente excepcional. O casal de estranhos, recém-apresentados, já não deseja mais se separar. Ocorre uma transformação profunda no modo como cada um enxerga o outro, já não é simplesmente um outro, mas um outro-eu. Essa transformação é a manifestação mais própria da condição de enamoramento, que traz em si mesma uma força capaz de simular, mesmo que seja uma simulação que se manifeste apenas no olhar dos apaixonados, a superação da cisão que marca e separa a unidade do eu diante do outro.

O mais interessante é justamente que esse movimento é operado num plano puramente imanente. O encontro de Jesse e Celine não traz em si nenhuma espécie de aposta mística, nem qualquer tipo de crença numa espécie de alma gêmea. São apenas dois estranhos que, por puro acaso, tiveram a chance de estar diante um do outro. É na facticidade do mundo que o encontro pode acontecer. Existe apenas isso, o falatório apaixonado, sustentando o estar-junto do casal recém-formado. É desse movimento que nasce a possibilidade mesma do ato amoroso. É também daí que advém o desejo de perdurar, de reativar constantemente o encontro amoroso, suspendendo a rotina e prolongando as trocas e o compartilhar da existência,.

O momento de despedida, quando Celine deve continuar viagem para Paris e Jesse voltar para os EUA, é marcado por essa necessidade, a do (re)encontro, capaz de lançar numa duração a potência que se afirmou no momento do primeiro estar-junto. Nesse caso, encontramos bem delineado, a dupla dimensão de afirmação e risco do encontro amoroso. É afirmação na medida em que traz consigo um efeito que transforma a existência individual noutra coisa, numa existência que anseia pelo compartilhamento.

Porém, há também o risco dessa potência ser negada, do estar-junto se encontrar inviabilizado, do (re)encontro não ocorrer jamais, impossibilitado pela distância e pelo tempo. Nesse caso, mais do que uma positividade, o encontro amoroso se converte numa fonte de tristeza e ressentimento. A face desse risco só é devidamente evidenciada no segundo filme, o Antes do Pôr do Sol, quando depois de nove anos, Jesse e Celine se reencontram.

Os dois não são mais tão jovens quanto no primeiro encontro, a vida descompromissada cedeu lugar a responsabilidades e compromissos. Jesse acaba de publicar seu primeiro romance, que fez grande sucesso ficcionalizando as memórias daquela noite ao lado de Celine. Ela se tornou uma ativista do meio ambiente e se encontra engajada em diversas ações para reverter os danos ao meio ambiente e seus impactos sociais. O (re)encontro acontece por conta desses compromissos da vida adulta, já que Jesse viajou para Paris a trabalho, na divulgação de seu livro. E Celine aproveitou a oportunidade para vê-lo novamente.

Nessa segunda vez, o tempo é ainda mais curto. A vida parece deixar ainda menos espaço para os enamorados, não há tempo para escapar da norma e dos compromissos. Por isso, o breve momento que lhes resta, novamente, se torna ocasião para o perambular pela cidade. É muito interessante essa reiteração do caminhar e do apaixonar-se. É como se o gesto próprio aos apaixonados fosse o movimentar-se, tanto pelo espaço físico da cidade, quanto pelo espaço afetivo da subjetividade, não existindo paixão que perdure sem a intensidade dos deslocamentos constantes (não é gratuito que na terceira parte da trilogia, no Antes da Meia Noite, a crise se avizinhe justamente no momento em que o movimentar-se é substituído pela paralisia do quarto).

Dessa vez, a conversa não gira tanto em torno da possibilidade de descobrir um completo estranho, mas num movimento de (re)descobrir o familiar no estranho que se ausentara por tantos anos. E mais do que isso. O que anima o falatório do casal é um rememorar da paixão que nascera tanto tempo antes, refletindo também sobre como essa paixão marcou e afetou a vida de ambos. Jesse e Celine parecem viver governados pela memória daquele encontro noturno, daquela breve estar-junto. E a dimensão irrealizada do encontro permanece atormentando os dois. O fato daquele encontro não ter se convertido numa duração assombra e machuca.

Esse é o grande risco do encontro amoroso: na medida em que se transforma numa forma de assombração (o fantasma não deixa de ser a imagem de uma memória que não se cansa de retornar ao presente), toda aquela potência afirmativa é substituída por alguma forma de triste ressentimento, ameaçando a existência mesma dos apaixonados. Jesse e Celine não deixam de se lamentar sobre o quanto esse ressentimento contaminou a vida de ambos, inviabilizando a própria experiência amorosa. O casamento de Jesse e os relacionamentos de Celine não parecem nada mais do que pálidos espectros que tentam rememorar a potência do encontro ocorrido nove anos antes.

O (re)encontro aparece, assim, como uma chance renovada de realizar o irrealizado. Nesse caso, isso implica em abraçar inteiramente o risco da experiência amorosa, deixando para trás todos os compromissos e responsabilidades da vida prévia, apostando numa espécie de ultrapassagem da própria existência. É por isso que a sequência final do filme é tão poderosa. Jesse precisa retornar para sua vida, seu casamento, seus compromissos profissionais e, principalmente, para seu filho. E a única forma de retornar para essa vida é descartar definitivamente a potência e o risco do encontro amoroso, deixando Celine para trás. Porém, ele recusa tudo isso, perde seu vôo e abraça definitivamente o risco do encontro. O encontro pode, assim, afirmar inteiramente sua potência, se realizando na duração da existência a dois.

Io e Te (Eu e você) de Bernardo Bertolucci

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Io e Te, o mais recente filme do diretor italiano Bernardo Bertolucci, é um filme pequeno, mas não num sentido negativo. É pequeno pela sua simplicidade e singeleza, aquele filme que não se enche de grandiloqüência para tratar do seu tema. Não há excessos, nem exageros. E a pequenez não é apenas uma questão formal, mas trata-se do próprio tema do filme, uma experiência de compartilhamento e aprendizagem entre dois jovens irmãos. O protagonista do filme é Lorenzo, um adolescente bastante introvertido e com dificuldades em se relacionar com as pessoas. Parece que seu mundo gira apenas em torno de si próprio, por isso resiste a se relacionar com os outros e quando não tem escolha, por exemplo quando precisa estar junto de sua mãe, reage com agressividade ou desinteresse. É como se a presença do outro representasse uma forma de ameaça para a integridade de seu mundo, o que não deixa de lembrar a famosa máxima sartriana, o inferno são os outros. Nesse sentido, para Lorenzo o melhor dos mundos é o do isolamento, o estar sozinho consigo próprio. É apenas nesse momento de solidão que o garoto parece encontrar espaço para existir da forma como deseja, numa condição em que lhe parece ser possível alcançar a plenitude de sua liberdade. É evidente que tal momento de completa solidão é difícil de ser alcançado, por isso a oportunidade de ficar sozinho por uma semana seria a materialização mais precisa de seu ideal de felicidade. E esta oportunidade surge quando sua escola organiza uma excursão de uma semana para uma estação de eski. Para sua família, o garoto inventa que viajará com seus colegas, mas o seu plano é bem diferente: esconder-se no porão de sua casa e passar todos esses dias vivendo apenas de acordo com sua própria individualidade. Lorenzo prepara tudo, compra seus alimentos preferidos, leva seu aparelho de mp3 com todas as músicas que gosta, separa alguns livros que pretende ler e carrega também seu computador. Tudo que ele precisa para passar o tempo de acordo com seus gostos, caprichos e vontades, sem precisar interagir com qualquer outra subjetividade, com qualquer ameaça à esta felicidade solitária. No princípio, seus planos funcionam como desejado. Ele consegue enganar sua família, se esconde no porão e começa a gastar seu tempo como lhe apraz. Porém, um acontecimento inesperado interrompe esse momento de solidão. A meia-irmã mais velha do garoto, Olivia, aparece na casa e entra no porão para recuperar alguns objetos que lá estavam guardados. Rapidamente descobrimos que a garota tem uma relação bastante conturbada com sua família, tendo brigado com seu pai por conta da mãe de Lorenzo. Por isso, ela foi banida de casa e rompido os vínculos com sua família. O fato de Olivia ter descoberto seu esconderijo se mostra, inicialmente, uma verdadeira catástrofe para Lorenzo. Tudo o que ele deseja é que ela suma o mais rapidamente de lá, deixando-o sozinho novamente. O problema é que Olivia está vivendo solitariamente uma imensa crise de abstinência e precisa de um lugar para ficar. A solidão, para ela, não aparece como uma positividade, tal qual para Lorenzo, mas sim como um fator desestabilizante e angustiante. Ela precisa de alguém que possa lhe ajudar. E na falta de outra pessoa, Olivia só econtra o apoio relutante de um irmão mimado e egoísta. É a partir desse conflito que o filme se transforma numa experiência de aprendizagem para ambos. Ele se encontra confrontado com a presença do outro naquilo que ele tem de mais ameaçador, a exigência de abertura à uma diferença irredutível e intransponível. E o risco desta abertura é que ela pode implicar num movimento de transformação de si próprio. Diante da dor de sua irmã, ele não pode mais se manter numa posição de exterioridade, de autocentramento. Ele é obrigado a apoiá-la da forma como consegue. Olivia também passa por uma experiência de aprendizagem, na medida em que precisa se reconciliar com seu passado e com sua família ausente, reatando os laços com um irmão que não via há muito. Nos dias em que passam dentro do porão, isolados do mundo, os irmãos criam um vínculo de de trocas sinceras e de apoio recíproco, num movimento de compartilhamento de uma forma de estar-no-mundo diferente daquela que ambos estavam acostumados. A existência solitária, ainda que por razões diversas, do ser-um é revertida num encontro à dois. Esse encontro se converte numa forte experiência amorosa, ainda que não completamente erotizada, que revelada a impossibilidade mesma de se afirmar enquanto uma individualidade monística e isolada. A potência da vida aparece na potência do encontro, que transfigura a subjetividade e o modo de existir dos dois. Quando a semana acaba, ambos saem do porão transformados por este encontro. E no caso de Lorenzo, essa transformação parece estar exatamente na descoberta do outro, da alteridade do mundo, por isso pode-se perceber que esta aprendizagem é a da dimensão ética do existir diante desse outro. Esta descoberta traz em si algo de pequeno, mas é propriamente essa pequeneza que traz as cores da vida (i colori della vita), como diz a canção que expressa em definitivo a potência desses encontros.

Joven y Alocada de Marialy Rivas

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O filme chileno Joven y Alocada é o trabalho de estréia da diretora Marialy Rivas e trata do universo adolescente de uma forma que não é tão comum. Não é raro vermos filmes que abordam a transição para a idade adulta ou de forma abestalhada, que não consegue pensar a juventude senão como uma etapa da vida boba e infantilizada. Outra abordagem comum é aquela absolutamente artificial do olhar adulto que não consegue compreender a juventude. Felizmente, o filme chileno consegue escapar dessas duas abordagens, refletindo com justeza sobre os dilemas de amadurecimento no mundo contemporâneo. O filme conta a história de Daniela, uma adolescente que no final da adolescência se depara com inúmeros problemas e precisa superá-los para ingressar na vida adulta. A garota cresceu numa família evangélica e sente grande dificuldade em se adaptar aos rígidos padrões morais que a sua mãe tenta lhe impor. Se não bastasse o fato de sua mãe ser bastante intolerante e desconfiada, que tenta de todos os modos controlar sua vida e seus hábitos, a jovem também precisa lidar com a expulsão da escola religiosa que freqüentava por conta de suas experiências sexuais. Daniela já não era virgem e encara a relação sexual com uma liberdade muito pouco aceitável para a moral evangélica na qual está inserida. A expulsão a impede de realizar o vestibular para ingresso numa universidade. Além disso, como castigo, sua mãe a obriga a trabalhar numa televisão evangélica, na esperança de que tal vivência aproxime a garota da religião e de sua família. Finalmente, para completar as agrurias da jovem, ela precisa lidar com a doença de sua tia favorita, que sofre de um câncer terminal. No meio disso tudo, a garota se dedica à escrita de um blog, no qual relata aspectos de sua intimidade: seus desejos sexuais, as relações com outras pessoas, as dúvidas religiosas e os dilemas da fé, as dificuldades de lidar com a mãe. Muito mais do que apenas um espaço de exposição e de publicização da intimidade, o blog aparece como o único espaço encontrado por Daniela para experimentar, com alguma liberdade, sua subjetividade. É por meio da escrita que ela constrói uma narrativa sobre si própria e tenta se encontrar no mundo, encontrando assim um espaço de formação e amadurecimento. Ao contrário do ambiente claustrofóbico em que vive – cheio de regras, no qual o sexo aparece como um pecado que merece as mais duras punições e na qual a interação com o outro só ocorre na base da desconfiança e do controle –, o ambiente virtual aparece para Daniela como um espaço de liberdade, ou melhor, de afirmação de um estar-no-mundo diverso. Seus textos lhe ajudam a questionar as verdades religiosas que lhe são impostas, como na cena em que ela rememora a destruição de uma imagem de santa na infância, mas também dos valores morais sobre o corpo. Nesse caso, a experiência pública da escrita inverte bastante o sentido, por exemplo, que a escrita íntima tinha como mecanismo de subjetivação. Se pensarmos, por exemplo, nos diários, no qual a escrita também ocupava um papel importante na construção da intimidade e dos sentimentos, a exploração e a experimentação tinham um sentido eminentemente individual. Eu exploro meus sentimentos para mim mesmo, sem compartilhar, dialogar ou discutir com o outro. Nesse caso, o alcance dessa experimentação era basicamente a operação de modificação de si próprio. No caso de Daniela e seu blog, como vemos no filme, a escrita íntima perde esse caráter individual e a interação com o outro se constitui no cerne da própria experiência subjetiva: os diálogos na caixa de comentários, o MSN e as redes sociais, tudo isso ajuda Daniela a se encontrar no mundo. E nessa busca pela transformação de si própria, ela pode também compartilhar experiências com o outro, produzindo uma experimentação acompanhada, não meramente individual. Isso ganha mais relevo na medida em que a escrita de Daniela ganha, em certa medida, uma dimensão corrosiva da moralidade sobre o corpo, a sexualidade e o relacionamento amoroso. Este aspecto fica claro a partir do envolvimento da garota com Tomás, um rapaz evangélico que pretendia casar virgem, e com Antonia, uma garota de espírito mais aberto. A escrita do blog se converte numa narrativa desse relacionamento particular, no qual a noção mesma de encontro a dois é questionada. Daniela conta e reconta suas experiências com a dupla para conseguir superar o dilema entre uma moral que proíbe e reprime e um desejo que pulsa e se afirma. Na impossibilidade de conciliar as duas dimensões (a moral e o desejo), seus textos servem como um auxílio para localizar o caminho próprio para o amadurecimento, reinventando a si própria no percurso. É por isso que o filme de Marialy Rivas consegue lançar um olhar sincero para a adolescência em tempos de internet. Sem fazer juízos de valor, a experiência de Daniela é retratada como uma busca pelo amadurecimento, num momento em que esse processo está cada vez mais relacionado com a interação na internet e as experiências que podem ser construídas nesse espaço. O frescor dessa visão supera em muito os possíveis defeitos que surgem numa primeira obra de uma jovem cineasta.

Moonrise Kingdom de Wes Anderson

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O novo filme do diretor americano Wes Anderson, Moonrise Kingdom, é uma preciosa reflexão sobre a pureza de um amor infantil, capaz de desarticular toda a rigidez normatizada do mundo adulto. Para isso, a trama se passa numa pequena e isolada ilhada da Nova Inglaterra dos anos 1960. Os protagonistas do filme são duas crianças, Sam e Suzy. Ambos vivem marginalizados no pequeno mundo dos adultos, configurando aquilo que é comumente chamado de criança-probema. Ele é um escoteiro órfão e não se adapta bem ao ambiente familiar do seu lar adotivo, alem de ser discriminado e ignorado pelos demais escoteiros. Ela é a garota introspectiva e isolada, igualmente inapta para se relacionar com a família e taxada como a filha “com dificuldades de comportamento”. A sensação compartilhada por ambos de estranhamento com a norma social parece que funciona como uma poderosa conexão recíproca. Após um breve e fugaz encontro, cada um enxerga no outro a possibilidade de vivenciar uma experiência de descoberta do mundo a dois, como se pudessem compartilhar o fardo do estranhamento, desligando-se de um mundo que não lhes pertence. E essa possibilidade de abandonar o mundo das normas e das inadequações se materializa na fuga. Após um planejamento minucioso, Sam elabora uma espécie de viagem de descoberta, a qual seria realizada ao lado de Suzy. Essa experiência, porém, não é aceita pelos adultos da ilha, provocando uma longa perseguição contra aquelas crianças que simplesmente se recusam a viver dentro das normas. É assim que aquela aparente inadequação se revela muito mais como uma expressão de um olhar infantil ainda aberto para a inocência mágica do mundo, para a pureza de um mundo sem tantas normas. Encontramos, portanto, uma contraposição radical entre as ações das crianças e dos adultos. No fundo, são esses que se mostram incapazes de vivenciar qualquer tipo de relação diante do outro, de compartilhar uma experiência ou de existência a dois. O casamento falido dos pais de Suzy, a vida solitária do policial, ou mesmo a frieza do líder dos escoteiros, tudo revela uma espécie de vazio ou de ausência na maneira como os adultos encaram o mundo. Não existe possibilidade nenhuma de encontro, de descoberta do outro. Já a fuga do casal de crianças é repleta de momentos de verdadeiro encontro, da descoberta alegre e recíproca do outro que está diante de si. Como sinceros enamorados, o casal consegue enxergar toda a potência de uma estar-junto, como na linda cena da música na beira do rio. Existe uma espécie de mágica nesse momento, a mágica que advém da excepcionalidade, daquilo que consegue dobrar a anomia de uma existência cheia de regras e normas. Contra a apática existência dos adultos que os rodeiam, Sam e Suzy parecem dispostos a levar ao limite a possibilidade de estar-juntos, produzindo a mais radical recusa da norma: a deserção do mundo ordenado. Esse projeto, entretanto, acaba sendo abortado e é ai que o filme opera um movimento final, bastante sensível e belo. Ainda que incapazes de realizar a completa negação daquele mundo, as duas crianças se mostram capazes de realizar uma dobra sobre a própria norma. O estar-junto se revela uma potência poética capaz de criar e recriar novas maneiras de existência, como na incrível cena do casamento. Afinal, este é talvez o ritual mais exemplar dessa existência normatizada, mas que é completamente subvertido pelos dois. Por isso, essa relação infantil se mostra o mais intenso caminho para a (re)descoberta da alteridade do próprio mundo.

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