Heleno de José Henrique Fonseca

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Heleno é um filme singular. A primeira vista, parece apenas mais uma cinebiografia (um dos gêneros mais em voga nos últimos tempos e quase sempre com resultados dos mais aborrecentes) de uma estrela rebelde, um daqueles jogadores que acabaram derrotados pelo próprio temperamento. Claro, o filme não escapa totalmente de ser uma narrativa de uma vida. Porém, ele é muito mais do que isso. Heleno é muito mais um elogio do futebol, ou melhor, um elogio de uma determinada forma de ver o futebol. Só por ser livrar do moralismo das cinebiografias, o filme já merecia todos os elogios. Mas, a forma bela e sincera que ele retrata o futebol, certamente, contribui para torná-lo um filme esplêndido.

A narrativa do filme não segue uma rigorosa cronologia, os vai e vens da vida de Heleno vão se entrecruzando de forma pouco didática. Um espectador que nada sabia sobre o jogador, como eu, não sairá de lá muito mais instruído. O que se descobre é que Heleno foi um grande jogador do Botafogo nos anos 40, mas também era um sujeito intempestivo, capaz dos gestos mais explosivos, das maiores desmedidas. É claro que toda essa potência irascível lhe trouxe os maiores problemas. Seus colegas de clube o detestavam, a imprensa o tratava como um jogador problemático e insubordinado, os dirigentes e os técnicos também não conseguiam engolir tantos exageros.

Para Heleno, porém, tudo isso pouco importava. Só existia uma coisa que o movia, a vontade de estar dentro de campo, de superar a tudo e a todos. O desejo de vitória, mas não qualquer vitória, nada de jogos covardes ou sem brilho, a potência de Heleno nasce de um desejo inesgotável pelo excesso, por tudo aquilo que extravasa a ordem natural das coisas, aquilo está para-além de qualquer disciplina.

Essa tensão entre potência e disciplina, entre a contenção de um esporte que se quer profissional e a vitalidade de um jogador que não aceita nada menos do que o constante transbordar é o que estrutura a narrativa de Heleno (e por essa razão, a opção não-cronológica é totalmente justificável. Não me parece que o filme estava preocupado em falar como Heleno viveu, mas em jogar com esses contrastes, com essas forças opostas). É como se na figura do jogador existisse um jogo entre duas pulsões inconciliáveis. Uma potência desejante e seu contrário, a impotência da disciplina.

Na ótica do filme, existe uma interessante recusa de qualquer dialética capaz de operar uma síntese entre essas forças tão diversas. Existe a vida e o seu contrário, é esse o jogo de Heleno. É esse o jogo do futebol. Não há possibilidades de um desejo disciplinado, de um brilho correto, de uma medida. A medida é ela mesma o poder se sobrepondo à potência. A existência de Heleno, portanto, é retratada como uma constante oscilação, com seus momentos de brilho, mas também com disciplina que contamina e enfraquece sua força desejante. A doença do jogador (sífilis) funciona como uma bela metáfora da negatividade que parece se apossar da própria vitalidade de Heleno.

No entanto, a força de Heleno é um estar-além da própria vida, ou melhor, disso que chamamos de vida, essa existência encarnada e aprisionada numa subjetividade, um pobre sujeito que abandona qualquer vontade de transbordamento. É como se o próprio desejo o movesse, situado num lugar muito distinto da subjetividade que está materializada no seu corpo de jogador. A excelência e o transbordamento não se conciliam com o sujeito. E nem a doença que enfraquece e prostra o corpo do jogador pode efetivamente deter essa pulsão. Não é a toa que um jornalista tenha dito que Heleno esqueceu que era apenas um jogador de futebol. Ele nunca fora apenas um jogador de futebol, ele é a própria potência do jogo, aquilo que move e contagia a tantos. Para além de si próprio, a existência de Heleno se confunde com a existência do jogo.

E a doença, sua derrota e final melancólico não podem refrear isso. Doente e fraco, parecendo um cadáver, um pobre ser ordinário, Heleno pôde, enfim, se desprender da impotência que sempre o assombrou. Ele retorna ao campo do jogo e pode finalmente jogar seu grande jogo. A cena final é de uma beleza sem igual. Heleno se reencontrando com seu desejo, com sua glória, com seu ser. O percurso do jogador não se converte numa parábola moralista, no poder-ser que fora desperdiçado pelo excesso e pelo desmedido. Ao contrário.

Sua existência se torna uma metáfora do próprio futebol. É como se o futebol fosse essa potência desejante, alegre, irrefletida e caótica. Um transbordamento contínuo, mas sempre ameaçado pelo seu contrário. A profissionalização, a disciplina, o jogo regular e tedioso. A potência alegre e a triste impotência. E assim como Heleno, ainda que a doença e a tristeza possam obscurecer esse brilho festivo, sempre pode emergir essa reconciliação intensa de uma potência que não quer ser nada além de força e movimento. Por essa razão que o futebol pode cativar e contagiar. Aquele que acompanha o jogo sempre pressente essa possibilidade de um acontecimento capaz de desmoronar a ordem triste e fraca da disciplina. Há sempre aquele momento fugaz no qual o futebol assume seu devir Heleno, sua recusa das regras e da rotina. É por isso que enxergo no filme, muito mais do que uma narrativa sobre uma vida, um grande elogio do futebol. Arrisco até a dizer que isso transforma a obra no elogio fílmico mais bonito que este esporte já teve.

A Copa do Mundo de 2010, escrevo perto de seu fim (uma temeridade, vai saber o que vai acontecer nos dois jogos restantes), foi quase um não-acontecimento, tão desprovido de fatos singulares que foi. As partidas foram marcadas pela regularidade dos sistemas defensivos, pelas vitórias suadas e brigadas, pela reduzida importância do lance genial e do brilho individual. Mesmo os principais artilheiros da competição, por enquanto Villa e Sneijder, não realizaram nenhum lance especialmente antológico. A final expressa adequadamente o que foi toda a competição: dois times eficientes, mas de maneira nenhuma singulares. Houve, porém, um lance que salvou o evento da completa modorra: o não-gol da Inglaterra contra a Alemanha, aquela bola que cruzou a linha do gol, mas equivocadamente não foi validade pelo árbitro da partida. O erro reintroduziu no jogo, ainda que brevemente, algo que parece cada vez mais ausente: o imprevisível, o caótico, o imponderável. Vale a lembrança: a Alemanha vencia o jogo por 2 a 0, numa das melhores exibições da competição. Porém, a Inglaterra, repetindo o desempenho sem brilho de seus jogos anteriores, conseguiu diminuir a diferença. Logo em seguida, num lance de habilidade de Lampard, a bola cruzou a meta alemã, o que seria o empate da partida. O lance não era especialmente complicado, mas o juiz e seu auxiliar não enxergaram o gol, num erro simples, bobo talvez, mas que desequilibrou toda a harmonia da partida. O empate, provavelmente, traria o equilíbrio morno que a Inglaterra buscava impor. Com o erro, entretanto, o vento soprou a favor da Alemanha, que venceu a disputa por 4 a 1. Além disso, há que se acrescentar outro elemento para compreender melhor a importância do lance: muitos anos atrás, na copa de 1966, um lance muito parecido já havia ocorrido. Era a final da Copa, a Inglaterra jogava em casa e buscava seu primeiro título mundial contra a mesma Alemanha. A partida terminou empatada no tempo regulamentar. No início da prorrogação, a Inglaterra chutou a bola no travessão e repicou na linha do gol, provavelmente sem ter cruzado a linha. O juiz, porém, validou o gol que não existiu, abrindo caminho para a vitória inglesa. Dois lances separados por um longo intervalo de tempo, mas que se comunicam na sua potência desestabilizadora, numa espécie de devir intempestivo, singular e precioso. Não é de espantar que o lance tenha provocado uma intensa onda de críticas. Estas se levantavam contra a insistente possibilidade do erro em transformar o ritmo “natural” da partida, contra a sua condição essencialmente “injusta” e ameaçadora. Ora, para reforçar ainda mais a regularidade do futebol, dizem, é necessário introduzir mecanismos de controle mais eficazes: imagens de televisão, chips dentro da bola, sensores de todo tipo, etc. Tudo para garantir uma aplicação mais precisa das regras, evitando que qualquer elemento ameace o justo curso do jogo. Estes mecanismos introduzem uma nova lógica de aplicação da regra, na qual a utilização de fartos mecanismos flexíveis e moduláveis, que permitam a cada instante (ou pelo menos, a cada instante decisivo) a verificação da norma. Seria muito interessante inserir estes discursos numa lógica mais ampla, qual seja, o das mutações mais amplas do mundo contemporâneo, em especial no esgotamento da sociedade disciplinar, como trabalhado por diversos autores (Foucault, Deleuze, Negri e Hardt, etc.). Porém, não é exatamente isso que me interessa aqui. O que gostaria de chamar a atenção é como o erro apresenta uma profunda conexão com outra coisa que é fundamental para o futebol: o lance genial. Ambos são pura e simplesmente singularidades, manifestações poderosas da irregularidade, que podem introduzir uma diferença na mesmice do jogo. Acredito que seria um sério equivoco enxergar uma positividade no segundo e apenas uma negatividade no primeiro, pois ambos introduzem uma potência nova ao que está em curso. Existe uma poderosa metáfora do futebol que enxerga nele uma espécie de língua, que pode se manifestar como prosa ou como poesia. Em qualquer um dos casos, o futebol pode ser jogado como uma língua (e uma literatura) maior ou como uma menor. Como dizem, as línguas maiores são línguas de poder. São línguas de forte estrutura homogênea (estandardização) e centradas em invariantes, constantes ou universais. É preciso definir as línguas menores como línguas de variabilidade contínua. Uma língua menor só comporta um mínimo de constante e de homogeneidade. Mais e mais, o futebol é jogado na sua dimensão maior, o que importa é a eficiência da repetição, dos mecanismos que garantam o controle do jogo e de suas imprevisibilidades. O risco precisa ser minimizado e evitado. Por isso, um lance como o não-gol inglês é tão interessante. Numa copa marcada pelos sistemas defensivos estáveis, pelo prefiro jogar uma partida extremamente feia e vencer do que jogar bonito e perder (frase de Robben, dois dias antes da final), são erros como este que, na exigüidade dos grandes lances, permitem a pura manifestação de um futebol menor, e com isso o retorno da diferença no que não para de se repetir.

Maradona by Kusturica

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O documentário de Emir Kusturica não faz uma narrativa objetiva e detalhista da vida do grande jogador argentino, mas um relato impressionista e emotivo, que enxerga uma forma de existência muito particular em Maradona. Para o diretor, a figura do argentino pode ser dividida em duas: de um lado, o extraordinário jogador, capaz dos lances mais geniais, o que lhe permitia um domínio completo do mundo criado entre as quatro linhas do campo; do outro lado, o sujeito normal, que tropeçou muito na vida e acabou dominado pelo vício e pela dependência química. A genialidade de Maradona, segundo Kusturica, está na possibilidade de anulação dessa normalidade, limitada e empobrecida, mesmo que por um breve intervalo de tempo, o tempo do jogo. É nesse tempo que Maradona se afirma, excede sua própria vida, consegue reinar absoluto, sem limites para sua potência: quando passava a linha do cal, Aí…, Aí mandava eu!. É um gesto de pura afirmação contra todas as soberanias, controles e poderes, contra tudo que produz a vida nua de todos os dias. O drama do jogador, porém, é que esta potência excessiva, uma potência dionisíaca, acabava sendo recapturada na normalidade da vida. É o drama do fim da partida, o fim da potência. Maradona fala bastante sobre isso, sobre o desejo de se exceder sempre, do gozo irrestrito desta força criadora, da poética da bola. É a vida que não cansa de demonstrar a impossibilidade desse desejo: sabe que jogador teria sido eu, se não tivesse tomado cocaína? Que jogador perdemos… fico amargurado, queria ter sido muito mais que sou… Queria… sim. Essa maneira de existir, contrapondo a pequenez da vida com a grandeza do jogo, do querer-ser sempre mais, é o que alimenta tanta devoção e admiração em torno da figura de Maradona. Ele, como nenhum outro, transformou o jogo numa estética, numa espécie de estética da existência, repleta de entusiasmo e energia, muito distante da fria e mesquinha normalidade. Isso que é raro e que o transforma numa figura particular e única. São poucos que conseguem inspirar essa potência preciosa com tanta intensidade como Maradona. Afinal, como ele mesmo diz, a bola nunca se suja.

Por falar em entusiasmo, uma das cenas mais bonitas do filme é quando Maradona canta a música La mano de Dios do argentino El Potro Rodrigo. Vale assistir: http://www.youtube.com/watch?v=skqSasWQc5c

 

O cinema neorealista teve uma grande influência na produção fílmica do pós-guerra. As obras italianas, por exemplo, de Vittorio de Sica ou de Roberto Rossellini, são as mais famosas e bem sucedidas do gênero. Porém, o modelo neorealista teve um alcance muito mais global, influenciando um grande número de diretores. Esse é o caso de O craque, do argentino José Antonio Martínez Suárez. A obra, lançada em 1960, é uma reflexão crítica dos efeitos do futebol nas populações pobres do nosso vizinho. É uma denuncia feroz contra os efeitos alienantes do futebol, mas também da sua mercantilização e da profunda corrupção de dirigentes, jornalistas e até esportistas. Esta postura não deixa de ser um lugar-comum, um tópico que vez ou outra é retomado, da reflexão futebolística. Por isso, guarda certa ingenuidade simplificadora. Porém, o filme consegue se desdobrar além desse ponto, construindo uma argumentação mais fecunda, qual seja, do papel do futebol como um maquinário de expectativas e sonhos. Como não podia deixar de ser em um filme inspirado pelo neorealismo, os personagens são os moradores pobres da periferia de Buenos Aires. O protagonista é Osvaldo, um jogador muito talentoso da terceira divisão do campeonato local. Sua habilidade chama a atenção dos dirigentes de um grande clube envolvidos na negociação fraudulenta da principal estrela de seu time. Eles enxergam em Osvaldo a “peça de reposição” perfeita. A negociação representa a grande oportunidade da vida do jogador e dos personagens que giram a sua volta. É a oportunidade de dobrar a própria miséria, ascendendo para um universo mais nobre e vivo. Esta chance acaba capturando todas as expectativas e sonhos dos personagens: Osvaldo almeja uma bela carreira, cheia de lances espetaculares capazes de cativar as multidões; Já seu pai, um imigrante espanhol, acalenta o sonho de juntar suas economias e retornar à sua terra natal para comprar as terras que outrora foram de sua família; Da mesma maneira, sua namorada e amiga de infância, que não suporta mais viver no meio da pobreza dos cortiços, espera a oportunidade de mudar para o centro da cidade, longe daquele sofrimento todo. A pobreza só pode ser superada graças ao talento do jovem jogador. Porém, rapidamente lhe revelam a outra face do futebol. A beleza e a emoção do jogo são substituídas pelas negociatas sujas, pela corrupção, pela mentira. Todas essas artimanhas sufocam Osvaldo, que sente dolorosamente o fracasso de suas expectativas. Quando chega o dia da sua grande estréia, um acontecimento fatídico termina com todas as ilusões. É o caráter fugidio dos sonhos gestados entre as quatro linhas que o filme revela. Osvaldo, junto com suas expectativas, é apenas uma engrenagem descartável de todo maquinário de fantasia do futebol. Osvaldo representa muito bem o caráter descartável de uma espécie de proletariado do esporte, aqueles jogadores que nunca brilharão, nem alcançarão um salário espetacular, que nunca concretizarão as expectativas depositadas no jogo. Nesse sentido, apesar das muitas mudanças operadas no futebol, o filme não deixa de ter uma mensagem muito contemporânea. A situação de muitos jovens aspirantes a grandes jogadores é totalmente análoga à de Osvaldo. Não encontrei dados mais recentes, mas em 2002, por exemplo, 82% dos jogadores registrados na CBF ganhavam no máximo dois salários mínimos mensais. Lembro-me bem de ter assistido uma reportagem recentemente com dados muito similares. A situação, como deve ser evidente, é muito pior, pois imagine o número de jogadores amadores espalhados pelo Brasil que sequer estão registrados na CBF. Osvaldo é a grande metáfora do sonho de ascensão social e sucesso midiático que está no centro das expectativas gestadas em torno do universo futebolístico. A grande crueldade deste processo, porém, é perceber que pouquíssimos irão realizar o “lance de craque”, aquele lance único, capaz de gravar no real a força imaginativa de tantas expectativas. Assim, na contramão das representações mais fortes do futebol, como um dos espaços privilegiados de ascensão ou democracia social, na medida em que privilegia o talento e a dedicação individual, o filme tenta discutir os efeitos de subjetivação que resultam desses discursos. A produção incessante de expectativas e sonhos não é um efeito secundário do maquinário futebolístico. Lançar um olhar para este aspecto é, certamente, o grande mérito do filme de Martínez Suarez.

Boleiros

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O futebol ocupa um lugar sem igual em nosso imaginário, não há nada que alimente tantas expectativas e que governe tanto nossos ânimos e emoções. Essa força imaginativa, como não podia deixar de ser, é repleta de lugares-comuns e idéias feitas, as mesas redondas quase idênticas que pipocam pela televisão aos domingos são exemplares nisso. Talvez seja isso que torne a presença do futebol no cinema ou na literatura algo tão complicado. Poucos são os filmes que o elegem como um elemento central de suas narrativas. Isso já torna o filme Boleiros, de Ugo Giorgetti, um filme digno de atenção. Mas seu interesse, na verdade, não se limita apenas à transformação do futebol em matéria cinematográfica. Giorgetti consegue retrabalhar os lugares-comuns, que permeiam nosso imaginário futebolístico, em uma teia de memórias animadas por uma profunda ligação afetuosa pelo esporte. Estas memórias são resgatadas na conversa de um grupo de velhos boleiros, já aposentados dos gramados, que se reúnem para lembrar os velhos tempos. Dessa conversa vai surgindo uma sucessão de episódios pitorescos – como o juiz corrupto que burla todas as regras; o jogador talentoso, mas que não consegue lidar com seus problemas pessoais; o técnico linha-dura que tenta disciplinar o jogador malandro; o jogador machucado que encontra sua cura nas mãos de um pai-de-santo – que vai recompondo as lembranças de um tempo que não volta, do tempo da bola e da grama, cercado pelas pulsões da multidão. É desse tempo que trata o filme, tempo ido, melancolicamente perdido para o presente. A alegria desse tempo é contrastada com a sensação de decadência da situação presente. Os corpos altivos dos boleiros no passado são contrapostos aos corpos idosos dos ex-boleiros. Essa contraposição cria um futebol que não é o futebol das grandes conquistas, das carreiras vitoriosas e multimilionárias, do glamour mundial, mas o futebol daqueles que já não brilham mais, que guardam um punhado de lembranças um pouco amargas, lembranças dominadas pela sensação da decadência do corpo envelhecido. É isso que faz a beleza do filme, desse olhar que acompanha algo que não lhe pertence mais, um olhar repleto de afeto e carinho, mas que não pode mais se realizar senão pelo olhar. Os boleiros de Giorgetti se tornam, assim, uma representação trágica do próprio esporte, uma representação daqueles que realizam uma entrega ardorosa de si, recebendo de volta apenas um punhado de lembranças dos dias gloriosos. Nesse sentido, os boleiros vivem ao extremo os dilemas de nossa relação com o corpo – num tempo em que o corpo é visto como matéria provisória, que exige um cuidado constante com a saúde, a força, a vitalidade da juventude, o corpo como uma expressão da subjetividade –, quando o envelhecimento é o maior pecado. Envelhecer é ser excluído da comunidade, da comunidade da potência e da vitalidade. Os boleiros olham para o passado lembrando seu tempo áureo, e o fazem com a certeza de que já não fazem mais parte daquele passado. O cuidado com o corpo, postulado ético central em nosso tempo, não pode evitar a decadência do tempo, esse é o grande dilema. O filme consegue, portanto, construir uma bela reflexão sobre essa exclusão, sobre o lugar da velhice e da memória em nosso mundo.

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