Arquitetura da Destruição de Peter Cohen

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Já escrevi antes – quando tratei do clássico de Murnau, Nosferatu - sobre a importância da obra de Roberto Esposito para compreensão da biopolítica moderna. O filósofo italiano, de maneira muito esquemática, defende que o fundamento primeiro da política na modernidade é a conexão entre duas categorias distintas, comunidade e imunidade. Para Esposito, a modernidade política começa com uma reflexão que buscou separar aquilo que era próprio da comunidade daquilo que a ela não pertencia. A metáfora da imunização é o que possibilitava essa separação, na medida em que caberia ao soberano a eliminação de tudo aquilo que funcionasse como uma ameaça à ordem estruturante da comunidade (a imunização é aquilo que garante a transposição do estado de guerra para o estado civil). Esposito percorre a obra de autores chaves para o pensamento político moderno, como Hobbes e Locke, demonstrando como sempre existiu uma tensão entre essas duas antinomias, o comum e o estrangeiro, o amigo e o inimigo, o súdito e o desprovido de proteção. A lógica imunitária, em algum sentido, permite uma aproximação com o conceito de vida nua, de Giorgio Agamben. O que funda a sociabilidade política é justamente a possibilidade de alguns serem desprovidos de qualquer garantia contra a violência soberana.

Essa presença biopolítica percorre toda a modernidade, e é apenas a partir da experiência nazista que as coisas se colocam em outro patamar. Como explica Esposito, “o regime nazista trouxe a biologização da política para um ponto sem igual. O regime nazista tratou o povo alemão como um corpo orgânico que precisava de uma cura radical, que consistia na remoção violenta de uma parte que já era considerada espiritualmente morta”. A lógica da imunização é levada ao seu limite mais extremo, no qual a cura se confunde cada vez mais com a morte. Para restaurar uma integridade perdida, é necessário extirpar imensas parcelas do próprio organismo. Esposito defende que o nazismo opera uma espécie de “decomposição da modernidade”, na qual o paradigma imunitário é substituído pelo da doença autoimune (por isso não é nenhum absurdo denominá-lo de biotanatopolítica). Isso significa a completa indistinção entre aquilo que precisa ser recuperado daquilo que pode ser destruído, pondo em funcionamento uma engrenagem de destruição sem fim.

Esse processo é o tema central do documentário clássico de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição. O filme é, talvez, a mais didática e clara exposição da lógica biotanatopolítica do nazismo. Para isso, o diretor analisa aquilo que lhe parece central para compreender a eficácia do nazismo: a articulação entre restauração estética e regeneração biológica. A tese central do filme é demonstrar como a construção de um determinado ideal artístico (a recuperação das formas clássicas, a idealização do corpo e da condição física da raça ariana, a pureza e a beleza, a ordem natural, etc.) funcionou como peça chave da construção de um imaginário voltado para a recuperação da raça alemã, que supostamente encontrava-se degenerada pela contaminação de elementos inferiores e nocivos. É esse imaginário que justificou todo tipo de violência tomada pelo governo.

Grande parte da argumentação do filme tenta evidenciar duas coisas. Primeiro, que o ideal estético nazista se apresentava na exata oposição daquilo que fora chamado de arte degenerada. Esta era qualquer coisa que prescindisse da “beleza” das formas clássicas e ordenadas, do culto ao corpo e do passado. Ou seja, arte degenerada é tudo aquilo que estava identificado com o modernismo artístico. Estas eram tachadas de doentias e ameaçadoras, manifestações dos corpos e mentes enfermos, da loucura e da incapacidade física, do câncer social que ameaçava a integridade do povo alemão. Era por meio dessas artes degeneradas que o bolchevismo e o judaísmo espalhavam suas influências nefastas sobre o organismo social alemão. Ato contínuo, o filme demonstra como o nazismo realizou uma transposição direta entre a arte degenerada e a degeneração física do povo alemão. As pesquisas médicas, exposições, discursos publicitários, propagandas políticas, tudo isso tentava demonstrar a existência de um processo crescente de enfraquecimento da ração alemã, com um número cada vez maior de pessoas debilitadas, com doenças psicológicas ou deficiências físicas.

Esses dois elementos justificaram tanto uma perseguição artística, com a proibição das artes consideradas degeneradas, bem como a perseguição desses artistas; quanto legitimaram práticas eugênicas adotadas durante a segunda guerra. É o próprio Hitler, em frase citada por Esposito, que expressa essa articulação: “A descoberta do vírus do judaísmo é uma das grandes revoluções desta época. A batalha que lutamos diariamente é igual aquela que Pasteur e Koch lutaram no século passado”. Essa lógica justificou diversos experimentos médicos, como a tentativa de esterilizar amplos segmentos da população alemã, ou mesmo a eutanásia compulsória daqueles que eram vistos como princípios de contaminação. E o ponto final desse processo foi aquilo que ficou conhecido como therapia magna auschwitzciense, ou seja, o esforço de extermínio de toda população judaica.

Nesse sentido, o grande aspecto de Arquitetura da Destruição é discutir como um determinado discurso estético desempenhou um papel central na intensificação e no funcionamento dos dispositivos biotanatopolíticos utilizados pelo regime nazista. Nesse sentido, a observação que abre o documentário é bastante adequada, no fundo o nazismo alimentou o sonho de criar, através da pureza e sacrifício, um mundo mais harmonioso e bonito. Essa tentativa de purificar tudo que era considerado decadente, degenerado, monstruoso ou simplesmente feio, justificou uma violência cada vez maior, cada vez mais irrefreável e ilimitada (nos seus dias finais, Hitler, já totalmente incapaz de qualquer ação efetiva, ainda acreditava ser possível restaurar a ordem de seu mundo perfeito, o que exigiria a destruição de todo povo alemão, fraco demais para levar adiante suas ordens).

Nesse sentido, o documentário recupera uma das inúmeras imagens poderosas presentes na obra de Walter Benjamin: o nazismo (e toda manifestação fascista) foi, sobretudo, uma tentativa de “estetização da política” e “todos os esforços para estetizar a política convergem para um ponto. Esse ponto é a guerra”. Se a modernidade teve início com uma reflexão sobre o estado de guerra, na qual a pacificação só era possível por meio da imunização do tecido social; a contemporaneidade foi profundamente marcada pela tentativa de remodelar, através da guerra, o próprio tecido social (É por isso que Negri e Hardt defendem que a guerra adquiriu uma condição ontológica na contemporaneidade). Muito mais do que uma condição excepcional e historicamente situada, o nazismo aparece como elemento decisivo para compreensão da política na contemporaneidade. O risco de um embelezamento violento do mundo não se desfez com a queda do regime nazista. Não é necessário refletir muito para identificar ecos disso aqui e ali.

 

Roberto Esposito é um filósofo italiano não muito divulgado por aqui. Sem traduções, sua obra ainda é pouco citada ou discutida, o que é uma grande pena. A reflexão de Esposito trabalha com o conceito de biopolítica de maneira bastante produtiva, dialogando com autores como Foucault, Agamben, Derrida, Negri e Hardt. Apesar de situar o surgimento da biopolítica no pensamento político ocidental a partir da modernidade, em especial na obra de Thomas Hobbes, o autor enxerga uma verdadeira ruptura, um ponto de descontinuidade fundamental, com a formação do regime nazista no início do século XX. Creio que um dos aspectos relevantes de seu trabalho é a tentativa de dimensionar com mais precisão a singularidade da biopolítica nazista. Para Esposito, o regime nazista “não nasceu de uma modernidade exasperada, mas da decomposição da modernidade”, através da substituição de uma espécie de “filosofia da história” por uma biologia capaz de substituir todas as transcendentalidades (história, partido, luta de classes, etc.) por categorias biológicas (raça, vida, degeneração, etc.). Ainda que a tradição biopolítica sempre utilizou metáforas vitalistas, é apenas no regime nazista que tais metáforas “se transformam em realidade, não no sentido de que todo o poder político passou diretamente para as mãos dos biólogos e médicos, mas que os políticos usaram os processos biológicos como critério para guiar as suas ações”. Como explica Esposito, é por isso que todas as principais ações de homicídio em massa foram orientadas por equipes médicas: “iniciando com a exclusão de bebês, seguida pelos adultos condenados a mortes “piedosas” no programa T4, estendida naquilo que foi chamada de “eutanásia” para os prisioneiros de guerra, chegando finalmente na monstruosa therapia magna auschwitzciense”. O papel da racionalidade médica, porém, não era apenas destrutivo. Na realidade, havia uma verdadeira obsessão pela cura do povo alemão, a cura da verdadeira Alemanha. O autor argumenta que, na mesma medida em que avançava o maquinário de destruição, a ciência médica também se desenvolvia a passos largos, “lançando uma poderosa campanha contra o câncer, restringindo o uso de amianto, tabaco, pesticidas e corantes, encorajando a difusão de alimentos orgânicos”. Esses dois movimentos, aparentemente tão contraditórios, encontravam seu ponto de contato na noção de degeneração. Esposito insiste bastante nisso, demonstrando o papel que esta noção ocupou em toda a reflexão teórica que sustentou o regime nazista. A ideia é bastante simples: o povo alemão estava sendo contaminado pela degeneração do outro (do não-humano, o decaído, o pestilento), por isso era necessária uma ação energética de cura. É assim que a biopolítica é levada ao seu limite, a biotanatopolítica. Ou seja, “é apenas matando o maior número possível de pessoas que seria possível recuperar [risanare] aqueles que representam a verdadeira Alemanha”. Nada expressa isso com mais eloqüência do que uma frase do próprio Hitler: “A descoberta do vírus do judaísmo é uma das grandes revoluções desta época. A batalha que lutamos diariamente é igual aquela que Pasteur e Koch lutaram no século passado”. O nazismo subsiste nessa cura pela morte, pelo extermínio de toda entidade que carrega em si o principio degenerativo que ameaçava a Alemanha. Um aspecto muito interessante destacado por Esposito é como os “circuitos semânticos” da noção de degeneração se fizeram sentir com mais força e precocidade em manifestações artísticas do que no campo teórico. É assim que ele assinala a presença da questão em diversos textos literários, em especial na obra de Bram Stoker (Drácula). Pode-se dizer o mesmo da linguagem cinematográfica, em especial no Nosferatu de Murnau. Como se sabe, o filme fora baseado na obra de Stoker, porém o roteirista tomou uma série de liberdades, modificando alguns aspectos centrais da narrativa original. Mais do que uma simples troca de nomes, Conde Orlok no lugar de Drácula, o filme de Murnau acrescenta um aspecto fundamental na trama: a vinculação entre o vampiro e o disseminar de uma peste. Não é necessário examinar em detalhes o enredo, afinal é bastante conhecido. Basta dizer que a viagem de Orlok rumo a cidade de Wisburg é acompanhada por uma trilha de mortes, enfermidades e loucuras. Por onde passa, Nosferatu deixa suas marcas de degeneração e morte. Ele encarna em seu corpo a marca da sua monstruosidade, algo bastante singular em relação a grande parte da tradição literária anterior e fílmica posterior, pois é um vampiro despido de todo erotismo, de toda vitalidade do sexo. Ele é apenas horrendo, encarnando no seu rosto todo o mal que carrega: acima de tudo, ele é o “princípio da contaminação”. Como disse Esposito, a respeito de Drácula, “ele carrega em si próprio todas as características do degenerado – ele não é mais o outro no homem, mas o outro do homem. É ao mesmo tempo lobo [no caso, rato], morcego, sugador de sangue”. Sua existência é possível apenas na medida em que consome a vitalidade dos demais, sangue é vida é dito numa das passagens do filme, e é apenas com a destruição dessa vida que sua existência decadente pode continuar. Esse degenerado espalha sua marca não apenas através da “transmissão do sangue infectado”, mas carregando as bactérias da peste, que se propagam com velocidade e destruição, tornando-se uma ameaça para toda raça humana. Ainda que o povoado de Wisburg tente se defender, através dos mecanismos tradicionais de luta contra a peste, estes mecanismos não funcionam, são incapazes de deter definitivamente a ameaça que paira. O risco da degeneração exige um maquinário de tipo novo: o “extermínio” absoluto, a eliminação do foco de contágio e degeneração. Numa das passagens mais reveladoras do filme, o professor Bulwer relata para seus alunos a descoberta do caráter parasitário e degenerativo da natureza, dos seres que se mantém apenas devorando a vitalidade dos demais. É como um prenúncio: é preciso anular a força negativa desses “que já estão mortos, meio mortos, mortos-vivos”. E mesmo que alguns sacrifícios se mostrem necessários, é preciso levar adiante o extermínio do decaído. E como se sabe, no final é Ellen, a moça que Nosferatu perseguia, que realiza o supremo sacrifício: a sua vida para destruir a ameaça degenerativa de Orlok. Seu gesto ajuda a entender a obra de Murnau como uma grande metáfora, ou como dito antes, como uma obra imersa nos circuitos semânticos da biopolítica nazista. Isto porque, como explica Esposito, a antinomia nazista, entre vida e morte, sanciona qualquer sacrifício para atingir o objetivo final: a salvação da integridade biológica da raça ameaçada. Não é difícil perceber como no discurso nazista os judeus assumem o papel de nosferatus do povo alemão. Como disse Himmler, “anti-semitismo é como desinfestação. Manter os piolhos a distância não é uma questão ideológica – é uma questão de higiene”. É importante deixar claro que o filme de Murnau não é nem de longe um elogio do pensamento nazista, na realidade é bem sabido que seu diretor fora um crítico do conservadorismo da República de Weimar e nunca chegou a conhecer os horrores do nazismo, morreu em 1931 num acidente de carro. O sacrifício de Ellen aparece em seu filme como uma espécie de alerta: quando o maquinário nazista é posto em funcionamento, é difícil deter suas engrenagens. Basta lembrar o telegrama número 71 de Hitler, emitido direto de seu bunker próximo do final da guerra, o qual ordenava “a destruição das condições de subsistência de todo o povo alemão que se mostrou fraco demais” para se sacrificar na luta contra a ameaça degenerativa. O maquinário nazista, enfim, sonhou na conversão da Alemanha numa Ellen capaz de manter suas engrenagens funcionando indefinidamente.

 

PS: Todas as citações do texto são de Roberto Esposito, Bíos: biopolitics and Philosophy. Traduções minhas. Recomendo vivamente a leitura das obras de Esposito.

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