Tempos Modernos

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“Tempos Modernos” é, talvez, o filme mais famoso de Charles Chaplin, e também um dos grandes clássicos do cinema. A força e a beleza do filme são acompanhadas pela sua universalidade, capaz de cativar as platéias mais diversas. Tive a oportunidade de exibi-lo em várias ocasiões para meus alunos, de idades e grupos sociais distintos, e para minha surpresa é sempre animadora a forma como todos recebiam o filme. A história é bastante conhecida, narrando as desventuras de um pobre trabalhador nos anos que se seguiram à grande crise econômica de 1929. Enfrentando todo tipo de adversidade, e se metendo em uma série de encrencas, o personagem de Chaplin atua como um tipo social e seu filme é uma contundente crítica ao modelo de sociedade no qual este tipo estava inserido. Minha idéia aqui é discutir um pouco sobre esse aspecto do filme.

Como se sabe, na passagem do século XVII para o século XVIII começou a se afirmar um conjunto de técnicas de exercício do poder. Estas “eram centradas no corpo, no corpo individual, com o propósito de aumentar-lhes a força útil através do exercício, do treinamento” e da racionalização dos gestos, do tempo, dos movimentos. Estas técnicas disciplinares modificaram sensivelmente a “economia geral dos poderes” nas sociedades modernas. Pode-se dizer que a partir desse momento, o “poder disciplinar” foi progressivamente alargando seu raio de alcance, até se tornar a estrutura principal do edifício social como um todo. As técnicas e dispositivos disciplinares tinham como objetivo a fabricação de corpos sujeitados, capazes de maximizar sua utilidade e suas energias, interiorizando gestos eficazes e produtivos. É como uma “acumulação de homens” produtivos para o Estado e para as atividades econômicas. Não é coincidência que a sociedade disciplinar nasce em paralelo com a industrialização das sociedades européias. O esquema fabril exigia indivíduos treinados e sujeitados à nova lógica de trabalho. Na sociedade disciplinar, as técnicas e dispositivos de poder têm como fim último a “apropriação do corpo, e não do produto [que esse corpo produz], é uma apropriação do tempo em sua totalidade, e não do serviço”.
A lógica da sociedade disciplinar me parece ser retratada com grande detalhe no filme de Chaplin. Carlitos é um operário aparentemente padrão. Trabalha em uma linha de montagem numa grande fábrica, da qual nunca se sabe qual é o produto final que está sendo produzido. Tudo é repartido no esquema taylorista bastante tradicional. Seu trabalho consiste apenas no apertar de alguns parafusos. Esse gesto simples e contido deveria ser feito com a maior eficácia possível, afinal o tempo da esteira era rigidamente controlado e qualquer descuido poderia colocar todo o processo em risco.
Todo esse processo é retratado com uma riqueza de detalhes. O relógio, um elemento central no esquema disciplinar, é onipresente no cenário fabril. A vigilância aos mínimos gestos, a tentativa de evitar os tempos ociosos, tudo demanda a criação de um corpo completamente sujeitado, de um tipo específico de sujeito, o operário padrão.
O problema de Carlitos é que ele simplesmente não consegue se adaptar. Seu corpo resiste com força à lógica automatizada da fábrica, seus gestos não se limitam ao menor esforço necessário para cumprir suas tarefas. Ele se atrapalha com a linha de montagem, seu corpo e sua mente não são suficientemente dóceis para aceitar passivamente a introjeção da lógica disciplinar. O problema é que a sociedade disciplinar é onipresente, não há espaços externos, para todo o aparato funcionar não se pode permitir que os corpos mais indolentes mantenham-se assim. É preciso reforçar as técnicas de domesticação desses indivíduos mais resistentes.
Nesse sentido, há toda uma gama de dispositivos disciplinares suplementares à fábrica, como o quartel, a prisão ou o asilo. A resistência de Carlitos acaba levando-o ao limite, e o limite da racionalização plena é a própria desrazão. Seu corpo entra em colapso e precisa ser encaminhado para essas zonas suplementares, na tentativa, sempre vã, de docilizá-lo, de garantir a introjeção da lógica disciplinar. Como explica Foucault, “o poder disciplinar tem a dupla propriedade de ser anomizante, isto é, de sempre pôr de lado certo número de indivíduos, de ressaltar a anomia, o irredutível, e de ser sempre normalizador, de sempre inventar novos sistemas recuperadores, de sempre restabelecer a regra”. E aqueles que resistem com mais vigor à norma precisa ser afastado dos demais, com o risco de contaminar todo o sistema.
O percurso de Carlitos, como se sabe, passa por todo esse aparato, da fábrica à casa de repouso, em seguida de volta à fábrica e de lá para a prisão, da prisão para outras funções menores, etc. Mas isso tudo nunca evita o caráter desajustado do personagem, sua incapacidade de adaptar-se a lógica disciplinar. Carlitos é, assim, um ícone de resistência, um indivíduo que se recusa a se adaptar. Indo na contramão daquilo que organiza a sociedade, o personagem de Chaplin se recusa, ainda que não seja de forma consciente, a sujeitar seu corpo e seus gestos, recusa a disciplina da eficiência e do trabalho produtivo.
O interessante do filme é que ele não se limita a realizar uma crítica assentada na pura negatividade. Ele não apenas nega a lógica disciplinar, mas apresenta uma visão positiva, um caminho de resistência. Ao contrário do trabalho na fábrica, disciplinado, pontuado pelo relógio e pela eficiência, Carlitos consegue encontrar uma atividade na qual não se sente desajustado. É nas cenas finais, quando Carlitos começa a aprontar uma série de confusões no restaurante, mas subitamente encontra a oportunidade de realizar um número musical. Nesse momento, ele precisa realizar uma atividade que na contramão da lógica disciplinar não exige a introjeção de uma rotina calculada e mecânica, mas exige sua própria criatividade. E dessa idéia nasce uma das cenas mais belas do filme, quando Carlitos canta uma música complemente incompreensível, que mistura vários idiomas, mas conquista a todos. Essa é a alternativa que Chaplin propõe em seu filme. Contra a disciplina reificante e estática, é preciso liberar as potencialidades do corpo, dos gestos, a liberdade criativa.

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3 Comments to “Tempos Modernos”

  1. Pr. Sérgio Ribeiro disse:

    Muito bom o texto. O filme é realmente um belo exemplar da história do cinema…

  2. Leandro disse:

    Obrigado pelo elogio.

    Abraço

    Leandro

  3. Anonymous disse:

    Tenho que concordar com Pr. Sérgio, o texto é realmente bem estruturado e coeso. O filme é um clássico dos classicamente clássicos; essa é a minha maneira redundante de dizer o que já fora dito: trata-se de “um belo exemplar da história do cinema”.

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