The Bling Ring de Sofia Coppola

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The Bling Ring

A produção de Sofia Coppola pode ser vista como uma longa reflexão sobre um mesmo tema, a solidão que estrutura as relações sociais no mundo contemporâneo. Nesse caso, The Bling Ring seria uma espécie de intensificação dessa reflexão sobre a solidão contemporânea. Mais do que nos filmes anteriores, acompanhamos personagens que vivem um radical descolamento diante do outro. Não existe possibilidade de encontro ou abertura. Há apenas uma imagem que de relações, como se toda interação, articulação ou arranjo entre os indivíduos só ocorra no espaço da visibilidade midiática. A trama gira em torno de Marc e Rebecca. Os dois se conhecem na escola e começam a praticar uma espécie de aventura noturna, invadir a casa de pessoas ricas e roubar alguns pertences de luxo. Essas aventuras, que começam de forma aleatória e sem maiores compromissos, atraem outras colegas de Rebecca e vão se tornando reincidentes e mais freqüentes. O grupo passa a se dedicar a invadir a casa de celebridades de Hollywood. Não se trata apenas de roubar objetos de luxo, mas de roubar coisas marcadas por um regime especial de visibilidade, como se possuíssem uma aura que as dotassem de uma existência especial e destacada, apenas pelo fato de terem pertencido a pessoas famosas como Lindsay Lohan ou Paris Hilton. Esse elemento diferenciador torna as roupas, jóias, bolsas e outros apetrechos em objetos-fetiche que unem e aproximam os jovens envolvidos na gangue. Forma-se, assim, uma sociabilidade fantasmagórica, na medida em que depende exclusivamente da imagem que é produzida pelas coisas roubadas. Essa relação entre imagem e sociabilidade tem dois sentidos. De um lado, o caráter fetichista das coisas possibilita a construção de uma determinada imagem social para os jovens. Eles podem esbanjar a riqueza conquistada em festas caras, com roupas famosas, comprando todos os signos luxuosos que expressam as distinções sociais. Nesse sentido, eles se tornam outros, mais ricos, mais importantes, mais destacados. O segundo sentido é um desdobramento dessa possibilidade de se transformar n’outro. Os jovens vivenciam, por meio dos roubos, a construção de uma amizade fantasma, na medida em que essa se afirma apenas pela produção de imagens compartilhadas nas redes sociais. As festas e os momentos de convívio são registrados e divulgados no Facebook, nos celulares, nas mais diversas redes. É a possibilidade de se mostrar como o portador de um objeto-fetiche que é possibilita uma amizade entre Marc e Rebecca. É na imagem que eles se relacionam e é pela imagem que eles se aproximam. Não é gratuito que a ruptura dos dois ocorra apenas no espaço digital. Sem palavras ou gestos, Rebecca simplesmente exclui Marc do seu Facebook. Não é necessário mais nada para que o rapaz compreenda o que ocorreu. O interessante no filme é como essa sociabilidade fantasmagórica revela uma espécie de potência do vazio. Mais do que uma inversão do que seria o funcionamento “normal” da sociedade contemporânea, a gangue de Rebecca opera uma espécie de radicalização autofágica da lógica que rege nosso mundo. A série de roubos ganha uma dimensão cada vez maior: noite após noite, os garotos invadem as propriedades das mais diferentes estrelas midiáticas, levando uma quantidade cada vez maior de coisas. Isso provoca um movimento de crescente desvalorização das próprias coisas. Se existia uma dimensão fetichista no gesto de roubar, cada objeto tinha um valor pela aura que manifestava (isso é dessa ou daquela estrela, isso foi usado naquele evento ou naquela festa, etc.), aos poucos essa dimensão se anula pela simples abundância. Cada novo roubo traz uma infinidade de valores, de coisas valiosas. Porém, tudo se transforma numa grande coleção de quinquilharias. A perda de valor é tanto simbólica quanto monetária. A gangue começa apenas a se livrar dos objetos, usando e descartando, vendendo por quase nada. É como se o esvaziamento no plano da sociabilidade (as relações vaziais e fugidias que eles constituem em torno das imagens do luxo), fosse acompanhado por um esvaziamento também no plano material do luxo. A existência fantasmagórica se manifesta nesse esvaziamento. Por isso, pode-se falar num processo autofágico: a fantasmagoria devora os signos de distinção e os liames que estruturam as relações sociais imagéticas e midiáticas, esparramando-se das relações para as coisas e das coisas para as relações. No fundo, não resta nada além desse movimento de constituição como fantasmas, seres que vivem num puro regime de visibilidade. Não é gratuito que todos os jovens, cada qual a seu modo, celebram o fato de serem descobertos e condenados pela justiça. Nessa existência fantasmagórica, a prisão não é nada mais do que outra oportunidade de produzir novas imagens. Ela reverte em “800 novos amigos” no Facebook ou num site que promova um relato midiático da experiência toda. O mais interessante é que a reflexão proposta no filme evita uma moralização fácil. Não há nem uma tentativa de explicar o comportamento dos jovens, nem uma lição sobre o fracasso da vida contemporânea. Ao invés disso, é como se o filme abrisse um espaço de reflexão a partir desse grau zero do vazio contemporâneo: já que nos constituímos em fantasmas, o que podemos fazer de nós mesmos? É na formulação desse questionamento que o filme de Coppola se afasta de um simples e banal lamento nostálgico, revelando-se, mais uma vez, numa potente reflexão sobre o contemporâneo.

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